7 de out de 2011

Dando ouvidos às margens plácidas

À margem do palco, vi um casal plácido tocando flauta e violoncelo. No final, o público soltou um brado retumbante.

Na noite dessa sexta, o teatro do Sesi Piracicaba, na Vila Industrial, trouxe o casal Renato e Angelique Camargo, o Duo Bico-de-Pena, para encantar os poucos felizardos ocupantes das cadeiras.

A violoncelista não me era estranha, embora suas sobrancelhas a deixassem com cara de poucos amigos. É o que pensei, quando a vi no DVD com o show de Guilherme Arantes. Pouco amigo o compositor não foi, no trato com a equipe que gravou o DVD, músicos como Angelique incluídos. Ela só foi elogios ao cancionista.

Canções, aliás, deram o tom da noite do Duo Bico-de-Pena no Sesi. Trata-se do projeto Suíte das Crianças. No contato com meninos e meninas na escola dos filhos do casal, em sessões de música naquele lugar, a ideia de um CD com repertório mezzo erudito-mezzo popular cresceu.

Numa cooperativa do bem mas olhando a quem, músicos e artistas plásticos e o dono de um estúdio de gravação, todos pais de alunos e amigos entre si, contribuíram para que o novo CD de Renato e Angelique Camargo viesse ao mundo. Com o nome Suíte das Crianças.

Um CD inspirado na atmosfera infantil, não necessariamente infantil. E nada infantilóide, que Deus nos livre e guarde disso. Como muitos CDs infantis atuais, um disco para não encher o saco dos adultos. Como disse John, do Pato Fu, a respeito do CD da banda, Música de Brinquedo. Como também são nada sacais os CDs do eu-infantil de Adriana Calcanhotto, a Partimpim.

Na noite do espetáculo do Duo Bico-de-Pena, Renato ia explicando ao público, com placidez digna de um monge, cada faixa do CD a ser executada no palco em seguida. Trajando roupas informais, condizentes com o calor nada plácido da cidade, pareciam um casal envolto em atmosfera budista. E são mesmo. Os dois saíram de São Paulo, junto aos filhos, para a nova moradia no sul do Brasil. Numa comunidade budista.

A combinação de dois instrumentos aparentemente díspares - flauta e violoncelo - ficou apenas na aparência. O casal misturou Bach a Dorival Caymmi, composições próprias a canções de Tom Jobim e Chico Buarque, frevos brincalhões a sons pungentes.

Com sua atitude despojada, os músicos convenceram a todos que não há fronteiras para a beleza. Esses obstáculos somos nós, os ouvintes de salto alto, quem colocamos, entre música popular e música erudita.

E que venham mais suítes, mais crianças, mais enlevo e mais leveza às nossas vidas, em mais espetáculos semelhantes. Carinho e paz eu já recebi nas palavras de Renato e Angelique, na dedicatória do meu CD. Que assim seja.

Um comentário:

Natália Campos disse...

Realmente, não há fronteiras para a beleza. Eu que já experimentei uma ponta em carreira musical, sei bem como é isso. Adorei o texto, querido!


Beijos :)