29 de out de 2011

Mais um livro, mais crianças inventando um novo livro

Neste último sábado de outubro, fizemos mais uma Oficina de Livro Infantil com crianças, desta vez na Escola Waldorf Novalis, em Piracicaba.

Em novembro, lançaremos o livro-poster feito pelas crianças na Oficina, em dia de autógrafos. Na mesma data, uma mostra especial trará os desenhos produzidos por elas na atividade.

Após o lançamento do livro na escola, uma versão online da obra estará disponível aqui. Como fizemos com os livros de oficinas anteriores. E com o livro da Pipa Avoada.

26 de out de 2011

Dez coisas que eu não gosto

Existem por aí umas brincadeiras de roda - ou melhor: de redes. Um ou outro tuiteiro ou blogueiro propõe, vez por outra, listas disso ou daquilo.

No caso deste que vos escreve, atendi a uma sugestão da Carla Ceres, que indicou dez amigos para fazer uma lista de dez coisas detestáveis. A lista incluiria fotos para ilustrar as dez antipatias do escrevinhador.

Por estar envolvido em outras tarefas envolventes do meu dia a dia, como a lavagem diária de louça em três turnos, acabei não escolhendo qualquer imagem pra ilustrar a tal lista. Resolvi escrever o que odeio juntando alguns comentários. Tipo extras de DVD, sabem?

1. Café requentado - Duro é lembrar de tomar um cafezinho às dez da manhã. Duro é tomar café engarrafado. A pedreira suprema e definitiva é não dar o braço a torcer. E esquentar o café que já está há séculos na garrafa.

2. Inverno - Calor faz a gente suar. O que me soa mal é o frio. Todas as blusas deste que vos digita estão com os braços enrugados. Porque me dá coceira vestir roupas compridas. Mas só acontece com blusas. Com jeans, não.      

3. Gente blasé - Em geral, essa gente não ri pra fora: ri pra dentro. Deixa escapar, quando quer fazer uma concessão aos pobres mortais ávidos por sua sapiência, um esboço de sorriso de canto de boca. Blasés sempre possuem uma ironia na ponta da língua, que costuma ser venenosa. Amo muitos exemplares dessa espécie encontrável em mostras de arte, baladas descoladas, cafés culturais. Porém, a convivência permanente com tais seres costuma ser letal.

4. Café expresso - Demorei pra gostar de capuccino, bebida típica dos blasés descritos no tópico anterior. Café expresso, sinto muito, não gosto até hoje. Ainda mais se vier acompanhado de uma cara de bunda no balcão, perguntando de modo ríspido e inquiridor: "O que você quer?"

5. Simpatia pré-fabricada - Típica de apresentadores de televisão, de publicitários, de colunistas sociais, gente que cruza contigo numa roda, te achando importante o suficiente para dela merecer um sorriso polido porcelanado. Frase típica do sorridente de plantão: "Obrigado pelo carinho!"

6. Colher de chá - Sabe a expressão "dar uma colher de chá"? Quem está com dó de você, por não ter conseguido fazer alguma coisa pra ele, te dá a colher de chá. Faz pra você. Atestado de incompetência, é isso aí. Mães que mimam os filhos tem estoques de colheres e de chás variados para as mais diversas ocasiões. Aplicável a homens, mulheres a demais animais domésticos de idades variadas.

7. Nervo exposto - Um dor inigualável, não recomendo. Vá ao dentista mais próximo.    

8. Mulher dissimulada - Adianta nada eu gostar ou deixar de. Elas existem, e pronto. E a gente, essa espécie homérica e sapiente, vive correndo atrás delas.      

9. Rúcula - Ridícula.

10. Chá de sumiço - Saída à francesa, dar no pé, bater em retirada. Não costumo fazer isso, o que só aumenta minhas possibilidades de desenvolver uma úlcera. É a vida, é a vida, que nem sempre é bonita, ao contrário dos versos do filho do Gonzagão.

25 de out de 2011

Redes nada sociáveis

Redes sociais: divãs ao relento.

Caiu na rede, não é mais peixe. É seguidor.

Nas redes sociais, a carência é tal que muitos "seguidores" viram "perseguidores".

No tempo dos dinossauros, as pessoas liberavam geral botando o bloco na rua. Hoje, elas se soltam dando "blocks" dentro de casa mesmo.

Antes havia confessionário, divã. Hoje, há redes sociais.

Houve um tempo em que redes eram lugares para dormir. Hoje, redes sociais são, em muitos casos, papos pra boi dormir.

Para um amigo, se pergunta assim: "Posso contar com você?" Para os amigos de redes sociais, nem se pergunta nada. Vai contando e pronto.

Nas redes sociais, há quem conte minúcias de sua vidinha que não contaria nem ao pior inimigo. Mas acaba contando à sua rede de amigos.

Houve um tempo em que "rede social" era algo feito em tear, em que cabiam no máximo duas pessoas. E olhe lá.

Roda de amigos virou rede de amigos.

Redes sociais: divãs do desalento.

23 de out de 2011

Pamonha no ar

Minha mostra de vinte anos de carreira (20 Anos de um Pamonha de Piracicaba) fez parte da programação oficial de mostras paralelas do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 2011. 

O Salão de Humor teve mais de 20 mostras paralelas, espalhadas em vários espaços de Piracicaba. Uma das paralelas, por sinal, ainda pode ser visitada na estação de metrô Trianon-Masp, em São Paulo.

A minha mostra esteve na Casa do Povoador, em Piracicaba. Mas pode continuar sendo visitada na internet. Coloquei no ar um catálogo virtual contendo as artes da exposição.

O catálogo também traz gentis depoimentos a meu respeito, dados pelos amigos artistas, jornalistas e escritores Spacca, Baptistão, Artur de Carvalho, Orlandeli, Paulo Ramos, Sidney Gusman, Laudo Ferreira e Carla Ceres.

O "algo mais" do catálogo-pamonha é a foto de Fabricio Eiras que correu as redes sociais dias após a abertura do Salão de Humor e da minha mostra.  A fotografia reuniu vinte colegas do traço de várias gerações.

Uma honra que a foto tenha sido clicada justamente na abertura da minha mostra. Honra tão expressiva quanto o privilégio da acolhida num dos maiores eventos de humor gráfico do planeta.

Meus eternos agradecimentos à Secretaria de Ação Cultural de Piracicaba, na pessoa da sua secretária Rosângela Camolese, e ao Centro Nacional de Humor Gráfico, na pessoa do seu diretor Edu Grosso.

Vejam o que um pamonha é capaz de fazer. Divirtam-se com o catálogo!

20 de out de 2011

A Pipa Avoada no ar!

Nosso novo livro infantil A Pipa Avoada, lançado em tarde de autógrafos no Dia da Criança, no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, está disponível para leitura online.

No link do livro, você pode folhear e ler a obra como um livro normal, mas na tela do seu computador. Com som de páginas virando e tudo.

As ilustrações ao lado reproduzem o design do Calaméo, site que hospeda o arquivo d'A Pipa Avoada.

Tanto A Pipa como outros livros, feitos em parceria com crianças nas nossas Oficinas de Livro Infantil, podem ser lidas na hora que você quiser, na barra direita deste site ("Infantis Online).

O "algo mais" dessa edição virtual é a gentil apresentação da escritora Carla Ceres, frequentadora assídua deste espaço e colunista dos sites Diário do Engenho e Digestivo Cultural.

Divirta-se! Nunca é tarde pra levantar voo. A vantagem é que nossa imaginação não atrasa os horários de decolagem. E não precisa de check-in.

19 de out de 2011

Horário de Verão

Balanço do primeiro dia com Horário de Verão: balançou o relógio biológico de todo mundo.

Primeiro dia com Horário de Verão: teve de tudo. Menos sol.

Durante a vigência do Horário de Verão, "o país" há de economizar. Mas "o povo" há de ter paciência de sobra.

Horário de Verão é prova de fogo para o brasileiro. Quem ficar de fogo no churrasco de domingo, terá uma hora a menos para curtir ressaca.

Tanta gente adoraria que Horário de Verão fosse a hora de ir para a praia.

Durante o Horário de Verão, o que vai ter de casal acertando os ponteiros.

Reflexões a respeito da passagem do tempo devem ficar para depois do Horário de Verão.

Horário de Verão não é a praia do brasileiro.

Depois do Horário de Verão, dias melhores verão.

18 de out de 2011

Ao vivo: nunca só, sempre bem-acompanhado

Nossa temporada de caricaturas ao vivo no Salão Internacional de Humor de Piracicaba chegou ao fim, junto com o evento em 2011, no último domingo.

Pelo terceiro ano consecutivo, estivemos nos finais de semana no Engenho Central, no espaço da mostra principal do Salão, desenhando o público nas capas do Jornal Caricaras, o jornal que é a sua cara.

Nas poucas vezes em que não estivemos no Salão nos finais de semana, empunhamos nossas canetas e nossa prancheta em outros lugares.

No último sábado, 15 de outubro, divertirmos os funcionários da 3M do Brasil.

A empresa reuniu colaboradores de várias unidades (São José do Rio Preto e Ribeirão Preto) em Sumaré para uma megaconfraternização, promovida pelo Santander. A chuva quilométrica não afogou os ânimos do pessoal festeiro.

As fotos dessa postagem mostram alguns felizes caricaturados em Sumaré e Piracicaba. 

As aventuras aqui relatadas já viraram saudade. E registro, é claro. E risadas: nossas e do respeitável público.

17 de out de 2011

Presente de Noel

Ainda não é Natal. E nem o Noel é o Papai. Esse Noel é o Rosa, um compositor da música brasileira cujo centenário foi comemorado em 2010.

O sambista precursor do Brasil ganhou uma homenagem do Instituto Memória Musical Brasileira e da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro.

No último dia 13, o Espaço Cultural Leila Diniz, em Niterói, abrigou o lançamento do livro e mostra Noel é 100.

Quarenta caricaturas do compositor foram selecionadas num concurso. Duas delas são de desenhistas de Piracicaba: Lucas Leibholz, premiado no Salão Internacional de Humor, e este que vos digita.

Por coincidência, nossos trabalhos estão expostos lado a lado, como você pode ver na minha foto junto à caricatura. A página dupla com a minha participação no livro, de capa dura e edição primorosa, está embaixo da foto.

Estive em Niterói na noite de lançamento do livro e da mostra. Conheci ao vivo vários colegas de traço, sendo ciceroneado pelo cartunista e agitador cultural Zé Roberto Graúna. Outros colegas me receberam com papos e sorrisos: Marco Souza, Glen Batoca e Renan Cristian.

A mostra Noel é 100 fica aberta até o dia 3 de novembro. Detalhes aqui.

15 de out de 2011

Enquanto seu Lobo não vem

(Tira da série "Variações desvairadas". Publicada no Jornal de Piracicaba em 9.11.2000. Nesse tempo eu tinha opiniões definitivas a respeito de tudo. Hoje, já é diferente. Pra começar, há um pouco de respeito)


O texto abaixo é do tempo em que eu escrevia ficção baseada em manias reais. Lembrei dele ao visitar meu amigo Arnaldo Nogueira Jr., mentor do Projeto Releituras, no Rio de Janeiro. O final da nossa conversa foi justamente sobre Edu Lobo, um gosto em comum. Na volta a Piracicaba, lembrei de outra coisa: tinha escrito a fábula desafinada justamente em homenagem ao Arnaldão.


Era uma fabulosa tarde domingueira. O rapaz saiu de casa, respirou, olhou-se no seu espelho interno só para verificar como continuava sendo o máximo, pegou o carro e foi-se.

Na fabulosa e formosa tarde domingada, o negócio era beber. O rapaz, porém, não queria saber disso. Seu negócio era arrumar um disco de vinil do Edu Lobo, ídolo de seu pai, cujo coração dava mostras de fraqueza, causada por fraquezas várias anteriores. O velho não queria partir de coração partido, queria ouvir o disco que não ouvia há anos. Por não mais tê-lo em mãos, pediu ao filho que o procurasse. E lá se foi o filho a Sampa, terra em que se plantando tudo dá, buscar num sebo o tal disco para o pai semi-moribundo.

O filho do pai desconfiava que o pai resistiria por um tempo finito, com ou sem Edu Lobo. Mas demonstrava certa frieza de sentimentos, pois confiava que encontraria o raio do LP no mesmo dia.

A fabulosa tarde domingueira deu os sinais de que decepcionaria as esperanças do moleque no carro. Veio uma tempestade no meio do caminho. Nuvens pretas dominaram o céu, outrora azul-anil nas entranhas do Brasil-zil. Difícil conduzir o carro numa rodovia molhada, repleta de outros veículos, escura tal qual o sono de um pesadelo.

Centenas de quilômetros e pedágios depois, nada de mais grave ocorreu na viagem. Três horas de viagem, o rapaz chegou a um longínquo sebo de vinis em São Paulo. Era fim de expediente, o dono da loja resmungou em ter que atender a um retardatário, por fim deixou-o procurar o que desejava. Uma fortuna, o Edu Lobo. O filho do lobomaníaco pagou. E voou para casa.

O pai aguardava o rebento no leito de morte, fraco mas animado ao constatar que o filho cumprira seu desejo.

Os olhos do velho brilhavam como nunca. E, num gesto surpreendente, catou o disco do Lobo, rasgou a capa, sacou do vinil e o quebrou em dezenas de pedacinhos. Ao filho, perplexo com a cena, o quase-morto sentenciou:

— Essa é minha lição e meu legado, carregue-o para toda a vida, meu filho. Eu adorava a música desse cara, mas vejo que isso não me serve em nada numa hora destas. Jamais se apegue em excesso às coisas desta vida!

Feito o discurso, o pai do rapaz fechou os olhos e embarcou num sono sem fim. O rapaz propriamente dito não sabia se ficava triste com o passamento do velho ou se se contorcia de raiva com o gesto derradeiro do distinto progenitor...

13 de out de 2011

"Noel é 100", um livro nota 10

Depois da alegria do lançamento do livro infantil A Pipa Avoada, meu e da Maria Luziano, no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, eis que chega outro lançamento.

Hoje, em Niterói, no Rio de Janeiro, será lançado, às sete da noite, o livro "Noel é 100". Trata-se de uma obra com 40 caricaturistas selecionados para homenagear o centenário do compositor Noel Rosa.

Dois desenhistas de Piracicaba estão no livro: Lucas Leibholz e eu.

Mais detalhes, é só clicar no convite.

12 de out de 2011

No Dia da Criança, a Pipa Avoada levanta voo...

... e aterrisa no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, às 3 da tarde, neste dia 12 de outubro.

O livro-poster terá distribuição gratuita e limitada, no Armazém 14 do Parque Engenho Central, em Piracicaba.

Eu e a Maria Luziano, os autores da obra, estaremos à disposição do público, autografando os exemplares.

Quem não puder estar com a gente, levando seu exemplar d'A Pipa Avoada, poderá acessar a edição virtual aqui no blog. Em breve, muto breve.

Também pretendemos fazer lançamentos do livro-poster em escolas e instituições que desenvolvam trabalhos junto a crianças. Interessados, entrem em contato via e-mail.

Para saber mais sobre o livro e os autores, leia aqui.

Para ler os livros anteriores, feitos com crianças em oficinas de arte, clique aqui, aqui, aqui e aqui.

11 de out de 2011

José Vasconcelos, um pioneiro do humor

Entrevista e perfil do humorista José Vasconcelos, realizados por este que vos digita para o jornal de humor Rio, que eu editava em 2004. Uma homenagem ao precursor do stand up no Brasil.


O Zé saiu de trás da cortina, só deixando o rosto de fora. Daria uma ótima foto, se houvesse uma câmera ali. Minutos depois, ele chega e me fala:

- Desculpe não estar dando a atenção que você merece.

Uma gentileza sem par. No teatro, assistindo ao show, tentava entender o porquê de certo público não dar a atenção merecida a Zé Vasconcelos. Naquela noite, umas cem pessoas, em sua maioria com certa idade - a terceira - prestigiaram o espetáculo daquele senhor. E, olha, ele tem histórias pra contar.

Depois de ultrapassar a inevitável barreira de produtores e assessores do artista, encontro Zé Vasconcelos no palco do Teatro Municipal Dr. Losso Netto, em Piracicaba, interior de São Paulo. Interior que ele adotou, "para ter sossego", após o fracasso de um empreendimento grandioso, a Vasconcelândia.

Nesse tempo de parques aquáticos e temáticos, seria até fácil colocar em pé um projeto como esse. Em fins dos anos 60, porém, faltaram os apoios necessários para concretizar o sonho. "Eu acreditei demais nas pessoas", diz Vasconcelos.

"Levei o projeto à Embratur, pedi apoio ao ministro Andreazza, que não veio. Me associei a um investidor alemão, que disse: 'Sem estrada, sem negócio!' Para dar certo, uma estrada teria que ligar a Via Dutra à Fernão Dias. Falei também com o governador de São Paulo, que não liberou a estrada".

O show continuou, é claro. Vasconcelos continuou fazendo espetáculos de humor e gravando discos.

No cinema, Zé apareceu em breves e marcantes participações. Em 1947, imitou Ary Barroso em Este mundo é um pandeiro, estrelado por Oscarito. Como astro principal, participou de Os homens traem... e as mulheres subtraem, em 1970. Segundo uma reportagem da revista O Cruzeiro, à época, "o filme é calcado nas principais figuras que José Vasconcelos criou e assim o artista se convenceu a filmar".

O filme Onde anda você, de Sérgio Rezende, lançado em 2004, também traz o comediante em seu elenco.

Já que é pouco comum alguém decidir-se um humorista, pergunto a Zé de onde saíram as primeiras graças. Ele diz que as fez no colégio, imitando artistas e locutores, muitos deles conhecidos do público nas ondas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, há décadas.

Ary Barroso, um dos primeiros multimídias de sua época, atuando como locutor de futebol, animador de auditório e que compôs canções como Aquarela do Brasil, foi um deles. Outros ídolos eram Luiz Jatobá, Oduvaldo Cozzi e César de Alencar - este, uma das inspirações de Silvio Santos.

"Aliás, num concurso de locutores da Rádio Guanabara, ganhei o primeiro lugar, disputando com o Silvio e o Chico Anysio". Isso nos anos dourados do rádio, que tinha tanta força, naqueles anos 40 e 50, quanto a televisão tem hoje.

Em seguida, Zé estreou no teatro. Fez vários espetáculos de humor musical, um gênero "que não existe mais". Rádio, sinônimo de diversão, Professor de música, Ópera A Minuta... O espetáculo-solo, porém, foi o seu pulo do gato. Danny Kaye, comediante norte-americano, era, para Zé, a inspiração maior.

Eu sou o espetáculo marcou a estréia de Vasconcelos como o primeiro one-man show brasileiro, um sujeito de inúmeros talentos: canto, dança, representação e humor afiado, na ponta da língua e dos cascos.

A Tupi, primeira emissora de TV do país, inaugurada em 1950, acolheu o humorista, no primeiro programa do gênero na telinha, A toca do Zé. E estrelou superproduções televisivas, já nos anos 60, como Foguete ao sonho. "Nesse programa, usávamos seis estúdios e uma orquestra!", diz ele. Também fez O mundo alegre de José Vasconcelos, programa de música e entrevistas.

Os discos, tirados ora de seus espetáculos país afora, ora com gravações exclusivas, se sucederam a partir dos anos 60. Vários deles via Odeon, atual EMI: Eu sou o espetáculo, O espetáculo continua, As sete vidas do Doutor Mania, Não há cupido que aguente, e, pela RCA, atual Sony, Ria com José Vasconcelos.

A veia musical do veterano artista é outro de deus múltiplos talentos. No espetáculo atual, Vasconcelos toca a Rapsódia Nordestina ao piano, homenagem a seus pais, que o trouxeram de Rio Branco, no estado do Acre, ao Rio de Janeiro, onde tudo começou para ele.

Com Garoto - violonista morto aos 40 e tantos anos, resgatado por Chico Buarque e Vinicius de Moraes com Gente humilde, melodia do violonista letrada pelos dois compositores em 1970 - o humorista compôs Sorriu pra mim (gravada por João Gilberto) e São Paulo quatrocentão, que ganhou concurso promovido pela Prefeitura de São Paulo, na década de 50.

Antes que chegue a "hora mágica" de Zé Vasconcelos (hora do espetáculo, lógico), pergunto sobre a atual fase do humor na televisão brasileira, no cinema, no mundo. "O fim do vaudeville acabou com o humor. Desapareceram os redatores".

Ele se mostra decepcionado com o uso do sexo no humor dos programas mais populares. A gente fica tão habituado com essa exibição da baixaria que parece acreditar que sem isso, não há humor. Zé Vasconcelos, em seu espetáculo, consegue atuar sem que haja piada alguma com material apelativo - no sentido exposto acima. E a graça sai.

O show atual de Zé termina com uma referência ao seu trabalho com a terceira idade, por meio de palestras destinadas a esse público muito especial. A continuação da vida sem os filhos, que casam e mudam, o estímulo à convivência familar depois dessas mudanças inevitáveis, são alguns dos assuntos abordados por ele com os idosos.

Vasconcelos é um humorista que atravessa gerações, um humanista que anima os corações.

E fecha o pano. Até a próxima risada.

10 de out de 2011

Homens que são uma graça

Mulher se amarra em homem engraçado. Mas quando a mulher fica com a cara amarrada, homem acha uma desgraça.

Mulher estima homem engraçado. A não ser que ele faça graça para outra mulher.

Mulher venera homem engraçado. Se tiver a cara do Gianecchinni, então...

Mulher curte homem engraçado. Não gosta de homem desgraçado, nem esgarçado, muito menos esganiçado.

Mulher admira homem engraçado. Mas não fica procurando namorado no circo, em pleno picadeiro.

Mulheres gostam de homens engraçados. Porque são tragicômicas.

Mulher adora homem engraçado. Mas vá em qualquer roda feminina: elas só ficam rindo dos homens.

Mulher ama homem engraçado. Depois que ele a conquista pelo humor, ela trata de proclamar um "relacionamento sério".

Mulher aprecia homem engraçado. Mas ai do homem se ele rir da mulher.

Mulher preza homem engraçado. A não ser que tenha a cara do Costinha.

9 de out de 2011

O peso de alguns quadrinhos sob medida

Tudo bem. Você deve gostar das "tirinhas" que saem nos jornais, revistas e internet.

Deve apreciar autores como Angeli, Laerte e Fernando Gonsales. Pode ser fanático por Mauricio de Sousa, que começou a Turma da Mônica ainda nas páginas de jornais.

Se for da Geração Internet, provavelmente acompanha o trabalho de Arnaldo Branco, Allan Sieber, André Dahmer e Orlandeli. Autores diferentes, épocas diferentes, veículos diferentes e cabeças diferentes.

Só que existe um outro tipo de história em quadrinhos. Geralmente desprezada pelos próprios autores do gênero, porque "não dá liberdade" para o autor. É a história em quadrinhos feita para empresas, com abordagem didática.

Ainda bem que sempre há as exceções que confirmam a regra. Uma tira de quadrinhos com o tal perfil "didático", mas criativa, é Pesado e Medido. O autor dos personagens é Pedro Luiz Montini, meteorologista que organizou a assessoria de divulgação e publicações do Ipem-SP, o Instituto de Pesos e Medidas paulista.

Montini e o Ipem publicaram um livro de tiras com os personagens citados. E conseguiram espaço no Salão Internacional de Humor de Piracicaba para expor o trabalho. A mostra de Montini está no Parque Engenho Central, no mesmo espaço da mostra principal do evento.

Quem for ao Salão, poderá conhecer as tiras expostas em dimensões maiores. E levar para casa um exemplar do livro do Ipem.

A primeira característica marcante de Pesado e Medido é o estilo de Montini. Ele aboliu tudo o que poderia poluir o visual da tira. Adotou as silhuetas, o contraste preto e branco, as formas geométricas, para expressar as situações e as gags.

O que poderia soar repetitivo ficou atraente. Afinal, tiras limitam-se à movimentação de pessoas falantes num espaço reduzido. Nada mais apropriado que reduzir ao essencial os recursos narrativos e visuais.

A tira de humor não é um quadro da Mona Lisa. E nem por isso deixa de ter o seu valor.

Outro acerto de Montini foi a opção pela piada solta, sem compromisso didático. Embora aborde temas relativos aos objetivos e serviços do Ipem, o autor preferiu explorar as disparidades da dupla, reprodutora da dinâmica das duplas cômicas do cinema e televisão.

Estão, e estiveram aí, Martin & Lewis, Abbott & Costello, Didi & Dedé, O Gordo & o Magro, Leandro Hassum & Marcius Melhem para não nos deixar mentir. Pesado é o cidadão rotundo da dupla. Medido é o cidadão desprovido de quilos extras.

Cada página do "Ipem-SP em Tiras" traz uma piada visual da dupla. E o que pode haver de explicação necessária para informar o leitor sobre a instituição está numa legenda abaixo dos quadrinhos, e não em discursos quilométricos saídos das bocas dos personagens.

O recurdo do didatismo disfarçado de encantamento pode enfraquecer a ação narrativa e afastar o leitor da história. Está aí também o mestre Monteiro Lobato para não nos deixar mentir. Quando usou o recurso do "instrui-diverte" nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo, não se deu bem.

Pedro Luis Montini, o autor das tiras mais divertidas e originais nas quais pus os olhos nos últimos meses, merece uma projeção maior, para além das fronteiras do Instituto de Pesos e Medidas. No site do Instituto, é possível baixar a versão virtual do livro.

Nem só de Angelis e Mauricios vive o leitor de quadrinhos. Desculpa aí.

7 de out de 2011

Dando ouvidos às margens plácidas

À margem do palco, vi um casal plácido tocando flauta e violoncelo. No final, o público soltou um brado retumbante.

Na noite dessa sexta, o teatro do Sesi Piracicaba, na Vila Industrial, trouxe o casal Renato e Angelique Camargo, o Duo Bico-de-Pena, para encantar os poucos felizardos ocupantes das cadeiras.

A violoncelista não me era estranha, embora suas sobrancelhas a deixassem com cara de poucos amigos. É o que pensei, quando a vi no DVD com o show de Guilherme Arantes. Pouco amigo o compositor não foi, no trato com a equipe que gravou o DVD, músicos como Angelique incluídos. Ela só foi elogios ao cancionista.

Canções, aliás, deram o tom da noite do Duo Bico-de-Pena no Sesi. Trata-se do projeto Suíte das Crianças. No contato com meninos e meninas na escola dos filhos do casal, em sessões de música naquele lugar, a ideia de um CD com repertório mezzo erudito-mezzo popular cresceu.

Numa cooperativa do bem mas olhando a quem, músicos e artistas plásticos e o dono de um estúdio de gravação, todos pais de alunos e amigos entre si, contribuíram para que o novo CD de Renato e Angelique Camargo viesse ao mundo. Com o nome Suíte das Crianças.

Um CD inspirado na atmosfera infantil, não necessariamente infantil. E nada infantilóide, que Deus nos livre e guarde disso. Como muitos CDs infantis atuais, um disco para não encher o saco dos adultos. Como disse John, do Pato Fu, a respeito do CD da banda, Música de Brinquedo. Como também são nada sacais os CDs do eu-infantil de Adriana Calcanhotto, a Partimpim.

Na noite do espetáculo do Duo Bico-de-Pena, Renato ia explicando ao público, com placidez digna de um monge, cada faixa do CD a ser executada no palco em seguida. Trajando roupas informais, condizentes com o calor nada plácido da cidade, pareciam um casal envolto em atmosfera budista. E são mesmo. Os dois saíram de São Paulo, junto aos filhos, para a nova moradia no sul do Brasil. Numa comunidade budista.

A combinação de dois instrumentos aparentemente díspares - flauta e violoncelo - ficou apenas na aparência. O casal misturou Bach a Dorival Caymmi, composições próprias a canções de Tom Jobim e Chico Buarque, frevos brincalhões a sons pungentes.

Com sua atitude despojada, os músicos convenceram a todos que não há fronteiras para a beleza. Esses obstáculos somos nós, os ouvintes de salto alto, quem colocamos, entre música popular e música erudita.

E que venham mais suítes, mais crianças, mais enlevo e mais leveza às nossas vidas, em mais espetáculos semelhantes. Carinho e paz eu já recebi nas palavras de Renato e Angelique, na dedicatória do meu CD. Que assim seja.

6 de out de 2011

Frases toscas de autoajuda pra mural de rede social

Quando você assume sua desimportância, é hora de se dar o devido valor.

Não fique chateado se for uma pessoa ímpar. Um dia você acha seu par.

Fuja de quem se acha o máximo. Gente assim não te dá a mínima.

Tenha uma alma leve. Fazer uma dieta também ajuda.

Ame os animais, as florestas. Mas cuida deles: a vida não é só amar.

De uns, a gente cuida. De outros, a gente tem mais é que se cuidar.

Viva a vida. Assim você não enche o saco citando a Clarice Lispector.

4 de out de 2011

Com vocês, A PIPA AVOADA!

Depois de quatro livros feitos em parceria com crianças em oficinas de arte (disponíveis para leitura aqui, aqui, aqui e aqui), resolvi chamar uma amiga pra entrar nessa brincadeira.

O resultado da minha parceria com a designer Maria Luziano é o livro-poster A Pipa Avoada.

Em geral, as parcerias em obras infantis funcionam assim. O desenhista ilustra o texto do escritor. Nesta parceria, fizemos tudo ao contrário.

O escritor do livro-poster - este que sempre vos digita no blog - pediu alguns desenhos à ilustradora. A partir dos desenhos, criou a história.

No dia 12 de outubro, lançaremos o livro-poster em tarde de autógrafos, no Salão Internacional de Humor, no Engenho Central, em Piracicaba, a partir das 15 horas.

Enquanto os autógrafos não chegam, vou dando os retoques finais no livro. Esperando não ficar tão avoado como a personagem principal da história. A pipa, é claro.

3 de out de 2011

Indireta

Indireta: cacetada enrustida.

Indireta: maldizer sem nome aos bois.

Indireta: todo mundo fingindo que não é com você.

Indireta: ofensa sem créditos. E sem crédito.

Indireta: recurso de linguagem. Típico de linguarudos.

Indireta: drible de corpo. Sem corpo a corpo.

Indireta: um jeito de falar na cara. Sem mostrar a cara.

Indireta: pra quem a recebe, é flecha venenosa de efeito letal. Pra quem a emite, tem um efeito tão legal.

Indireta: não há inocentes entre os envolvidos.

2 de out de 2011

Orgulhosos & blasés

O orgulhoso morre mas não se entrega. Ou melhor: morre, sim. Mas puxa seu pé na cama à noite.

O orgulhoso não dá o braço a torcer. O filho da mãe torce seu braço primeiro.

O orgulhoso não se entrega. Ele entrega você antes. Porque, além de orgulhoso, é um baita dedo-duro.

O homem orgulhoso tem o nariz empinado. A mulher orgulhosa tem a bunda empinada.

O orgulhoso tem salto alto. Seja homem ou mulher.

Orgulhosos tem uma argumentação imbatível. Eles que batem em quem discordar deles. Nunca são batidos. São "imbatíveis".

O orgulhoso estufa o peito pra falar das suas conquistas. E deixa os humildes com falta de ar.

Orgulho pouco é bobagem. Aliás, orgulho demais é uma baita bobagem.

Orgulhoso não cede. Não dá, não vende e não empresta.



Blasé não me diz respeito. Mas os blasés também não respeitam muita gente, não.

Blasés são monocórdios. Sabem que despertam um sono invencível nos seus interlocutores. Mas sabem que a plateia irá escutá-los mesmo assim.

Blasés não são sonsos. São chatos mesmo.

A única expressão corporal possível do elemento blasé é a mãozinha no queixo.

A única expressão verbal possível do blasé é "meu querido".

Blasé só usa blaser.

Atitude blasé é a indiferença estudada. Mas há blasés com indiferença analfabeta-funcional também.

Atitude blasé é algo deprê.