20 de nov de 2012

De van não vou

A vida de minha geração não foi em van. Foi de kombi.

Aquele carro gigantesco, que andava aos trambolhões. Vinha a lombada, o carro chacoalhava inteiro: os bancos, a lataria, os passageiros. Quantos neurônios perdidos nas viagens em carro de parente.

Crianças não tinham direito à palavra. Mas não dava pra falar nada, o barulho da kombi em trânsito não deixava. No máximo, adultos aos gritos no banco da frente. Aquele banco invejado pela molecada. Estar no comando era ser adulto. Só que com um carro melhor, a gente esperava quando crescesse. Um fusca azul escuro igual ao do pai.

O tempo deixou para trás as kombis, vieram as vans. O adulto aqui entrou em várias, indo e vindo de lugares onde nenhum humano jamais estaria, igual os lugares onde a parentada nos levava de kombi. Van, um carro compacto até demais. Tanto quanto um fusca, que se tornou bettle (e não beatle).

O chato da van é a sensação de sermos sardinha em lata em trânsito. Ou atum enlatado? Pode-se ir a museus, a zoológicos, instituições que todo mundo finge que gosta. Na van, a gente chega a elas com as costelas quebradas. Agora você sabe: o gemido diante da tela do pintor famoso, da exposição da moda, não é de satisfação. É de dor pela viagem inesquecível no veículo nanico.

Não que o fusca azul da família feliz não fosse apertado. Era. Fins de de semana com o carrinho, só dois por mês. Nos outros, o fusca ficava com o sócio do pai. Um carro meio a meio! E a vontade de possuir um fusca amarelo? Um dia, a gente chega lá, pela via das dúvidas. E das dívidas no consórcio. Com direito a lombadas no meio do caminho. E algum avanço no sinal vermelho, mais ou menos autorizado pela musa da vez.

17 de nov de 2012

Um Ponto Final que é só o começo

Tem gente que faz trabalhos na faculdade, depois se lança ao mercado. Eu fui do contra: após 21 anos de carreira como ilustrador, fiz um trabalho para a faculdade.
O trabalho foi criado para o Ponto Final, projeto experimental produzido pelos alunos do último semestre de Jornalismo da Unimep. 
O jornal, anual, sai encartado no Jornal de Piracicaba. O JP, por sinal, me lançou como ilustrador e quadrinhista em 1991, quando eu não tinha idade sequer pra ser universitário.  
Os alunos do curso de Design Gráfico da Unimep colaboraram com o Ponto Final. Eu entre eles. Minha ilustração está na página 6 do jornal, junto à matéria da minha amiga Ana Carolina Miotto. O PDF do jornal completo está aqui.

16 de nov de 2012

Tudo é possível?

"Ai, que tudo!" Tantas vezes essa frase aparece nos ouvidos da gente, com doses de deslumbramento, entusiasmo e histeria variáveis, mas sempre intensas. Afinal de contas, tudo é muita coisa.

Não há elogio mais completo que esse, dizer que alguém é "tudo". É o agrado ideal para começar ou terminar um relacionamento. O efeito da frase "você é tudo pra mim" pode soar devastador, ser um tudo ou nada num namoro. Se houver desconfiança quanto aos méritos de uma das partes, a frase contendo o tudo não valerá nada. Mesmo sendo tudo.

"Tudo" é uma palavra controversa. Alguém já questionou se o X-Tudo tem realmente tudo? Claro que não tem. No máximo, pode ser um X-Muita-Coisa. Honra seja feita: o dono da lanchonete não cobra tudo pelo X-Tudo. Seria muita coisa.

E quando uma pessoa diz que faz tudo por nós? Pode ser um gesto de grandeza, de heroísmo. Talvez de burrice: é provável que a pessoa não seja digna desse tudo. Ou esteja querendo lhe aplicar uma cantada pra lá de barata. Que pode custar caro.

Mas nem tudo são flores nessa vida. Os espinhos fazem parte. Mas não venha querer jogar tudo isso na minha cara.

13 de nov de 2012

As Aventuras do Homem Prendado

FAXINA Dos rodapés ao teto, a limpeza tem que ser completa. Você se debruça no chão para tirar uma poeirinha rebelde, que insiste em não sair do lugar. Acaba tirando, mas a ventania involuntária causada pela vassoura causa a chegada de mais três poeirinhas, talvez parentes distantes da poeirinha original. Eliminadas as principais poeiras, passa-se um pano molhado com desinfetante, para completar a tarefa com louvor, deixando o chão imaculadamente claro de uma vez. Entretanto, outras tantas poeirinhas, agora com cheirinho de pinho, grudam no pano molhado. E a brisa, causada pelo movimentar do rodo envolvido pelo pano úmido, traz outras poeirinhas retardatárias ao ambiente. E toca pegar a vassoura de novo, pra tocar da galáxia as poeiras teimosas. A música da Ivete Sangalo vem à cabeça ("Levantou poeeeeirááá´...). E o vai e vem da limpeza traz ao corpo do faxineiro-de-ocasião um odor insuperável, de atrair imediatamente um gambá apaixonado. 
LOUÇA Dez copos, vinte talheres e trinta pratos depois, você está de alma lavada, porque acabou de lavá-los. Sensação de dever cumprido invadiria seu ser, não fosse a pia ser invadida por mais vinte copos, trinta talheres e quarenta pratos.... sujos. Com a cara lavada, a família acaba de despejar na sua cara a obrigação da hora: lavar a louça do jantar. Isso porque você tinha acabado de lavar a louça do almoço. Melhor você arrumar um emprego como camareiro de hotel. Senão vai sujar pra você.
ROUPA A máquina de lavar roupa é novinha em folha. Você coloca nela quilos de roupas, sabão em pó. Ela roda tudo feito um liquidificador, lhe servindo roupas limpinhas e cheirosas. Só que, na segunda lavagem da história da máquina, você morrendo de pressa pra lavar roupas para vestir em alguns segundos... ela faz birra e deixa de funcionar. Você coloca outra maquina pra funcionar: seu cérebro. E mexe um fio aqui, outro acolá, troca as mangueiras de lugar. Quando tudo parece perdido, chega o outro cérebro da casa, o que funciona. Com um leve tapinha numa das extremidades da máquina, ela volta a ligar. E você aprendeu mais essa lição: máquinas são iguais computadores, se não tratar com carinho... embirram. Se liga, mané!

4 de nov de 2012

Fiapos, cuspes e engulhos em geral

Comer milho é que nem chupar manga. Você sabe que vai ficar com fiapo nos dentes. Os ditos fiapos durarão uma vida na sua boca. Você jamais conseguirá tirá-los.  Uma boca com pedaços de arame farpado entredentes. Todos os palitos e fios dentais de todas as galáxias não bastarão para acabar com o suplício. Mesmo com tamanho infortúnio, que pode ser eterno enquanto dure, você vai e come o milho, a manga e outros alimentos prazerosos porém incômodos.

Tanta coisa que a gente come mesmo assim. Porque mãe manda a gente comer. "Você tem que crescer, tem que comer verdura"! E tem tanta gente aí, criançola, que praticou a sublime pop art do trash food. Sanduíche tem verdura também, tudo bem. Mas em geral coisas proibidas a gente come fora de casa. O que é trash a gente não coloca pra fora, na calçada, pro lixeiro levar? Não por acaso, os restaurantes de sandubas assassinos ficam nas esquinas. Só que os restaurantes levam a gente pra dentro deles, não pra fora.

A gente adoraria colocar muita coisa pra fora. Mas engole. A introdução de anfíbios goela abaixo é algo corriqueiro em tempos tortuosos. Furacões com nomes de cantoras de sotaque-pop-com-crise-dos-30 abundam. E cantoras com sotaque-pop-etc-e-tal adorariam ter o impacto de furacões, na cena abundante da música atual. Já o cenário atual fabrica pântanos e lagoas para farta reprodução dos batráquios verdejantes. Se não houver condições para reprodução dos sapos, de que forma conseguiremos ingeri-los? Afinal de contas - e das contas que chegam sem parar - o equilíbrio ecológico deve ser mantido.

Engolir sapos, mais que uma necessidade da natureza, é esporte nacional. E a natureza do brasileiro, encarar esporte como se fosse batalha? Queria ver o brasileiro médio, do alto de sua barriga de churrasco e cerveja, encarar o desafio do futebolista médio ganhador de um salário baixo. Esse torcedor é capaz de torcer o pescoço do escravo dos campos: esse que pode ganhar uma partida mas mal ganha pra comprar um tênis da Nike. O mundo não é só feito de jogadores fantásticos que suam a camisa pra emagrecer. Aliás, nem é composto tão-somente de torcedores mimados e ébrios.

Antes que a maionese desses palpites azede, atraindo mosquitos em toda a cozinha onde a picanha esfriou, é melhor meter o pé na estrada, que o feriadão acabou. Com fiapo no dente e tudo.

3 de nov de 2012

Tutti de novo

Saiu a nova edição da revista Tutti Condomínios (MBM Escritório de Ideias).

A revista traz o registro da minha participação no Encontro Bem Viver, como caricaturista dos palestrantes da noite. 

Matéria e fotos sobre o Encontro nas páginas 14 a 17. 

A nova Tutti pode ser lida aqui.

1 de nov de 2012

Crepúsculo de um jornal

Última capa do JT
Fim do Jornal da Tarde. No último dia 31, circulou a última edição.

Editado pelo Grupo Estado, do jornal O Estado de S. Paulo, teve uma trajetória de quase quatro décadas, iniciada pela equipe de Mino Carta, hoje diretor da revista Carta Capital. 

Não fui leitor assíduo do JT. Mas lembro de uma capa com ilustração do mestre Roberto Negreiros, onde Paulo Maluf dançava ao modo de Gene Kely, ao redor de um poste.


Da história recente do Jornal da Tarde, lembro da polêmica envolvendo o editor Julio Maria, o cantor Zezé di Camargo e meu amigo Diogo Salles, um chargista de mão cheia.

Aliás, conheci o Diogo num episódio curioso.

Fui fazer uma vista à redação do Estadão, para bater um papo com os desenhistas Eduardo Baptistão, que ia conversando comigo enquanto trabalhava, e o Carlinhos Muller, que me levou para um papo regado a café.

Nessa tarde, o Diogo tinha marcado uma visita a um dos editores do Jornal da Tarde. Seis meses depois, seria admitido como chargista.

Não sei se a morte de um jornal diz algo à Geração Facebook. Mas a mim, um dos que cresceram com um jornal nas mãos, e que em várias ocasiões trabalhei para essa mídia, diz muito.

RIP JT. E um grande abraço aos meus amigos do traço, que ainda acreditam na força dos impressos. Por serem apaixonados por eles.