17/06/2013

Amor no coração

Você sai de casa com a calça sempre arrastando no chão. Porque compra sempre a calça com as pernas mais longas que seu corpo. Manda fazer a barra, encurta a calça. E sempre fica sobrando.

Você resolve cortar o cabelo num lugar diferente, porque está com pressa, não pode ir no lugar de sempre. Aparar o que lhe resta de cabelo, na verdade. Relevando esse mísero detalhe, você pede ao cabeleireiro que lhe raspe a cabeça, máquina 2, por favor. E ele executa o serviço quase lhe executando. Parece que vai cortar sua cabeça, não apenas seus quase inexistentes cabelos.

Você entra num ônibus, com calças arrastando e cabeça em chamas. E assiste a uma cena digna de filme. Um casal, de olhos fechados e rostos colados, beija-se apaixonada e entusiasticamente. E você olha admirado, em vez de virar o rosto, como sempre faz. 

Pode ser que a cena desapareça da sua memória, substituída por apelos mais urgentes do cotidiano. Pode ser que isso não o faça acreditar no amor. 

Mas a cena e o casal servem para lhe acender a esperança. Ao menos a esperança que no dia seguinte, você possa comprar uma calça com uma medida decente. E que você encontre um cabeleireiro que conserve sua cabeça acima do pescoço.

14/06/2013

... e tenho Dito

Após 8 anos de hibernação, DITO, O BENDITO volta com tiras inéditas no site da editora Marca de Fantasia. 

http://www.marcadefantasia.com/ 

Dito está junto às tiras de Henrique Magalhães (Maria) e Edgard Guimarães (Cotidiano alterado).   
Quando menos o leitor esperar, haverá uma tira nova no site. 

O livro do DITO pode ser adquirido por um preço camarada (instruções para compra na barra lateral direita).

10/06/2013

Bodas e Desbodas





















Fiz uma "participação especial" na crônica mensal de minha amiga Carla Ceres no Diário do Engenho. O desenho acima ilustra o texto Bodas e Desbodas. A Carla tem um senso de humor impagável. Vale a pena a leitura!

08/06/2013

Mais gatos

Outro dia, postei aqui um desenho de gato. Essa semana, ganhei um felino lindo, criado e emoldurado por uma amiga querida e talentosa. Hoje, voltei a desenhar um bichano, ato de gratidão a ela.


31/05/2013

Bendito livro

Dito, o bendito é meu novo livro. Antes das caricaturas serem o carro-chefe do meu humor gráfico, vieram as tiras do Dito.

As tiras saíram em jornais, ganharam exposição própria, fizeram parte do Salão Internacional de Humor de Piracicaba em 2004, integraram coletâneas de quadrinhos.

Oito anos após a tira final, o editor, desenhista, pesquisador e professor universitário Henrique Magalhães quis publicar nova edição do livro de 1995 do Dito. Optamos - autor e editor - por pinçar 100 das 759 tiras publicadas no Jornal de Piracicaba entre 1993 e 2005. A seleção do material coube a Fábio San Juan.

Dito, o Bendito pode ser adquirido no site da Marca de Fantasia. Em breve, o livro também terá lançamentos em noites de autógrafos, uma delas no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em agosto.

20/05/2013

Ponderando o imponderável

Redes sociais costumam ser um território minado. No entanto, há as honrosas exceções à animosidade reinante. Dia desses, em vez de pisar uma granada, encontrei a escritora Priscila Lopes.

Ao envio de uma caricatura da autora, ela respondeu com a remessa do livro "Uns traços, todos imponderáveis". Obra da Editora da Casa, série Chaminé.

Dias após o primeiro contato virtual, recebi o aviso do Correio para que eu buscasse o envelope com a obra. Dois ônibus e dois viadutos depois, cheguei em casa com o volume.

Não conhecia nada do que Priscila Lopes havia escrito até então. As pistas da existência da autora apareceram na biografia, nas páginas finais de "Uns traços".

Natural de Brasília, moradora de Florianópolis desde a mais tenra idade, idade citada no corpo da obra. Idade em que a convivência com a mãe revelou um desejo de honrar um pai imaginário. E que faria a autora forjar desde então a angústia da espera.

A vida profissional de Priscila, como a de tantos escritores "amadores", não tem parentesco direto com sua literatura. A moça de vindouros trinta anos, apresenta-se como uma espécie de dependente das letras, as que espalha por aí: "Quando eu quiser, eu paro". Embora tenha organizado exposições e uma coletânea de poesia, embora tenha publicado em jornais, revistas, livros e blogs, não parou. Quis um bacharelado em Relações Internacionais, MBA em Comércio Exterior. Não quis deixar as letras de lado.

O livro de bolso da reincidente literária traz observações sobre a vida a dois. Possui frases de efeito que podem soar como frases-defeito. Sobre os defeitos alheios, mas principalmente os defeitos da escriba. Defeitos que causam um efeito ora sereno, ora impactante. O leitor que se iluda com a suposta simplicidade das palavras denunciadoras de sentimentos ambíguos. Numa única frase, há o querer e o não-querer, o posso-mas-não-posso.

O sumário pode tentar a classificação das frases, ponderações, declarações, narrativas de momentos fugazes. Só que o sumário mais instiga o leitor que explica a ele algo do livro. Mais atiça que ajuda a compreender a obra. O título de um dos "capítulos" finais expõe o espírito do pequeno volume: "Aquilo que não é suficientemente claro para ser percebido ou entendido".

A frase escondida entre aspas, que encerra o parágrafo anterior, está envolta nos silêncios, nas pausas e nos vazios da alma de Priscila. Mas quem disse que um escritor tem que "explicar" a vida? Também abdico da "obrigação" de desvendar o livro com as minhas palavras.

Que as palavras de Priscila Lopes, a escritora que jura não ser o que é, continuem instigando a captação da sensibilidade contemporânea. Dentro e fora das redes sociais.

(Esse artigo também está no site Observatório da Imprensa

13/05/2013

Pisando no calo

Não dá pé comprar sozinho tênis ou sapato. Porque é um ato equivalente a pisar no calo do humor do dia. Mas tudo bem: ou vai pra sapataria, ou o tênis se desfaz no meio da rua. O negócio é encarar a tarefa.

Pisando duro, o candidato à gentileza pré-fabricada dos vendedores entra na sapataria. Despistando três ou quatro sorrisos solícitos, o consumidor vai à vitrine, imbuído da prerrogativa máxima da pessoa que depositará seus suados tostões no caixa da loja ("O cliente sempre tem razão").

O futuro dono de um novo calçado examina a variedade imensa de tênis à sua disposição. Tênis coloridos, tênis esportivos, tênis que brilham no escuro. Tênis tão fofos quanto um coala. Tênis com design arrojado. Tênis lindamente frágeis, desses que não resistiriam a uma inocente marcha no parque mais próximo. Tênis que resistem a uma corrida de São Silvestre, mas feios que doem. E que talvez façam doer a joanete.

Mas o calcanhar de Aquiles do consumidor rebelde talvez seja a frase-padrão do vendedor: "Posso ajudar?" Pode, sim, é claro. Sempre pode. Só que consumidores seguros de si vão em caminho contrário às pretensões de um atendente. Tênis sem graça e barato, além de um caixa sem filas, é o desejo ardente do consumidor. Tênis caros, coloridos feito um arco-íris psicodélico, são o desejo do balconista.  

Após algumas escolhas na vitrine, e outras que o vendedor precisa ir ao estoque para atender, mira-se o olhar na cadeira estofada mais próxima. Na sequência de cadeiras, sempre tem uma criança birrenta acompanhada da mãe. Sempre tem uma pilha de calçados e caixas. E sempre tem uma certa espera lógica pela volta da vendedora. Que deve estar bufando de raiva pelo pedido. Porque fica evidente que os tênis escolhidos pelo comprador são aqueles do canto mais escuro e longínquo do estoque.

A etapa seguinte da provação é a que pode comprometer a credibilidade do comprador: o chulé. Não há convenção social, nem convivência harmoniosa entre povos, nem tolerãncia mútua circunstancial, que façam uma pessoa não ter seu nariz ofendido pelo odor de pés descuidados. Para evitar tamanho descalabro, existem talcos e sprays. Mas quem disse que a pessoa lembrou de proteger dedos e solas? Pior que isso, só o esquecimento de aparar as unhas. E sempre o pior-ainda se sobrepõe ao menos-pior.

Ainda bem que o pior um dia passa. Tênis sem graça escolhido, pagamento feito, saída pela esquerda. Em poucos meses, nova compra será feita, para alegria da economia do país. Em nome da minha economia, o que fiz mesmo foi adquirir um calçado sem grife, sem cor e sem pisca-pisca.

Mas deixa estar. Na esquina mais próxima, uma piscada pisca-alerta atenta para o óbvio: faltou comprar uns pares de meias. E a corrida de volta à loja é feita de imediato. Com velocidade digna dos quenianos campeões da São Silvestre.