30 de nov de 2009

E coisa e tal

Há alguns dias, no curso noturno que frequento, um paquerador inveterado da nossa turma levou uma garota à classe, bem na hora do intervalo. Alguns gatos-pingados ainda estavam na sala.

A garota colocou a cara na porta, e o latin lover nos apresentou a ela: "Então. Estes são os alunos, esta é a professora..."

Fulo da vida por ter sido reduzido a uma coisa qualquer, sem direito a nome ou endereço, completei a frase do conquistador no ato.

"Pois é. E aquele é o computador, e estas são as cadeiras!"

O pessoal riu. E o nosso colega cheio de amor pra dar pensará duas vezes antes de chavecar as minas perto dos colegas. Ou perto de mim.

16 de nov de 2009

O que um abridor de latas (e um velho bêbado) podem fazer com um ser humano

Domingão, e eu sentado na Rua do Porto, em Piracicaba, fazendo caricaturas de quem passasse por mim.

Um dos que passaram por mim quis ficar.

Foi só dar atenção às palavras do passante, influenciadas por algumas latinhas de cerveja, que o tal sentou praça perto de mim.

Após uma saraivada de elogios superlativos ao desenhistas em geral, o senhor encervejado resolveu proclamar as qualidades dos canhotos. Ele havia percebido que eu rabiscava com a mão esquerda.

O sinhôzinho era canhoto como eu, mas não desenhista. E fez o favor de estragar meia dúzia de papéis do desenhista aqui, garatujando um fusca com cara de monstro do lago Ness.

Cabia a mim concordar com o meu interlocutor ou jogá-lo no rio Piracicaba, cuja margem estava próxima de mim.

Enquanto o senhor expunha a frustração em não ter sido ungido pelo dom do desenho, meu rosto esboçava uma expressão contrariada. Canhoto costuma ser do contra mesmo.

Aliás, quando eu disse pela primeira vez em casa que era canhoto, minha falecida avó persignou-se e proclamou que canhoto era sinônimo de coisa-ruim.

Ser canhoto era ser diferente, uma aparente vantagem. Aparente.

Abrir latas, por exemplo, não era uma situação agradável no meu cotidiano. Não podia abrir uma sem que minha querida mãe não soltasse um berro, aquele berro ardido de mãe zelosa, e me dissesse "para abrir a lata direito". Direito é que eu não era! Ia mais pelo esquerdo mesmo.

Voltei à terra e ao discurso do velhinho. Cá com meus botões, pensei em como seria bom que o tempo passasse depressa e levasse aquele senhor. Acabada a catilinária, por absoluta ausência de outros assuntos, ele pediu desculpas por me alugar e azulou dali.

Minutos depois da fuga tropeçante do meu inesperado interlocutor, consumei uma saída pela esquerda.

13 de nov de 2009

Caricaturas ao vivo o dia todo

No sábado, 14 de novembro, será na Livraria Nobel Megastore, Shopping Piracicaba. Estarei lá desenhando o povo das onze da manhã às dez da noite.

No domingo, 15 de novembro, será na quarta Festa do Peixe e da Cachaça, no Barracão do Turismo, na Rua do Porto, também em Piracicaba. Será a partir das onze da manhã.

Quem puder, apareça!

12 de nov de 2009

Assento sagrado

Outro dia, eu reclamava das pessoas que, ao me verem nos ônibus em pé, cediam um lugar para que me sentasse. Meu orgulho fervia, mas sempre respirei fundo e agradeci a gentileza.

Hoje, aconteceu a mesma coisa. Mas tenho uma nova hipótese para a gentileza repetida das pessoas em me ceder um assento no ônibus lotado.

Não, não são os olhos verdes e nem o charme deste cidadão. Nem alguns fios de barba precocemente brancos, nem outras explicações menos lisonjeiras.

O motivo das pessoas me darem um lugar no ônibus é o fato de eu portar uma agenda. Aos olhos delas, o livro parece... uma bíblia.

Se não tenho meu lugarzinho garantido no latifúndio celeste, carrego sempre a esperança de encontrar um assento no ônibus de ocasião para o centro da cidade. E levo junto a agenda com cara de livro sagrado, que eu não sou besta.

11 de nov de 2009

Apagão!

A essa altura, todo brasileiro deve ter a sua história do apagão. Também tenho a minha.

Voltei do meu curso noturno das terças e quintas mandando tudo para o quinto dos infernos.

Já não basta o inferno do calor durante o dia, e a gente ainda tem que encarar o inferno das luzes apagadas, sem aviso e sem piedade.

No inferno, que eu saiba, pelo menos tem umas fogueirinhas acesas, prontas para iluminar o ambiente.

No apagão de ontem à noite, nem isso havia.

Havia, sim, uma multidão de cabeça quente, sem gasolina nos carros, porque os postos estavam sem energia, e sem entender a situação inaceitável que se apresentava bem ali, diante de nossos narizes.

Cheguei em casa quase apagando, e achei uma vela na cozinha, graças a meus iluminados pais.

Hoje há energia de novo. E há um desejo de acender uma vela a quem nos comanda.

Se o ato não servir para iluminar as consciências dos mandatários, que sirva para iluminar o ambiente no caso de um novo apagão. Já não basta termos, com o nosso voto, que segurar vela para uma imensa maioria de incompetentes eleitos por nós mesmos.

Amém.