31 de mai de 2012

Mais resmungos virtuais


- Sobreviver anda tão penoso, que tá difícil sustentar até ponto de vista. 

- Quando alguém lhe diz "Não sabia que você era famoso", pode ter certeza: você não é. 

- Modo de parecer um cidadão informado sem qualquer esforço cerebral? Ler a opinião de alguém e declarar em seguida: "Assino embaixo". 

- A verdade dita na cara dói como um soco no nariz. A indireta dói como um pontapé no traseiro. 

- Hoje, ser "do contra" é confessar, em sala de aula repleta de elementos da geração Y, que possui um celular sem câmera fotográfica. 

- O exercício do humor anda tão penoso, que muitos preferem ganhar amigos e perder a piada.

28 de mai de 2012

Um-dois-três, virando criança outra vez

Desenhei muito pra crianças, especialmente nos meus primeiros anos como profissional. Talvez por isso, anos depois, tenha retomado esse tipo de trabalho, de um jeito um pouco diferente. Acabei fazendo livros infantis com crianças, em oficinas de arte.

O desenho ao lado foi criado numa das vezes em que me chamaram para cobrir férias num jornal, desenhando de tudo. Inclusive para crianças.

25 de mai de 2012

Cada pergunta!

O texto abaixo saiu na revista Fusão Cultural, em abril de 2010. Era uma seção chamada "Arte é..." Intrometido que sou, tratei de responder à pergunta nas linhas que se seguem. A seção saiu com uma imensa foto minha. Por não ser chegado a retratos ao estilo-Caras-e-bocas, deixo-os com uma vinheta ligeiramente inócua, a título de ilustração, do autor dessa postagem.  

Desde criancinhas, somos gentilmente coagidos a responder aos mais velhos. Na escola, os mais espertos já sabiam responder o que era arte. Não por pensar no assunto, e sim depois de alguma molecagem, quando os estressados professores ralhavam no ato: “Para de fazer arte, menino!”

Para uns poucos aluninhos, “fazer arte” era preencher folhas e folhas de papel com rabiscos abstratos, no estilo do que alguns continuam fazendo quando adultos. Escolas e mais escolas, de arte ou não, já antecipam respostas a essa questão, colocando seus alunos em contato com mestres da pintura, de preferência já mortos. E dá-lhe pastiches de Portinari, Picasso e outros menos cotados na bolsa de estudos - ou bolsa de valores?

Se o contato precoce com as artes ajuda a formar futuros artistas, ou alimenta uma formação humanista decente, é difícil de medir com exatidão. Mas que dá trabalho regular para muito professor, ah, isso dá. Para estes cidadãos, arte é isso: um emprego.

À revelia dos professores e pais corujas, a arte continua e as crianças crescem. E a internet chegou para democratizar a informação, ou quase. O aviso sobre a última megaexposição vanguardista em São Paulo, ou a respeito da recente vernissage da pintora de naturezas-mortas, continua nas mãos de meia dúzia de privilegiados. Estes fazem parte de uma elite que se comporta feito as multidões dependentes do Bolsa-Família, principalmente na hora de devorar os generosos coquetéis oferecidos pelos eventos. Para estes, arte é isso: um evento.

E para este que vos escreve, qual é a resposta possível à marota perguntinha? A arte pode ser informação, estética, trabalho. Mas a resposta final é uma palavrinha tão comum a todos e tão inalcançável a alguns: prazer. Arte é prazer. E se puder ser um prazer não-solitário, melhor ainda.

23 de mai de 2012

Colagens que colam

As ilustrações ao lado saíram em jornal há 15 anos.

Tratam-se de colagens coloridas para artigos de saúde e comportamento.

Os originais dessas artes foram expostos ano passado, na mostra "20 anos de um pamonha de Piracicaba", paralela do Salão Internacional de Humor da cidade.

A criação das colagens era rápida, por causa da urgência em saírem no jornal.

O "conceito" das ilustrações limitava-se à interpretação gráfica do artigo pelo desenhista. Nada de significados ocultos e misteriosos, que muitos artistas adoram atribuir às suas produções.

Um dia eu retomo a produção de trabalhos desse gênero. Se houver oportunidade. Sei que foi legal enquanto durou.

21 de mai de 2012

Um pernilongo incomoda muita gente

Sabe aquele clássico começo da Metamorfose, de um tal Franz Kafka? Do Gregor Samsa acordando e vendo que tinha se transformado numa barata? Pois é. 

Lembrei disso quando um pernilongo resolveu me fazer companhia. 

O minúsculo inseto ia e voltava, tentando mirar na minha pele indefesa. A Esquadrilha da Fumaça não faria melhor.  

Tratei de me acalmar. Manter o sangue frio. Senão, o zumbidor esvoaçante desfrutaria de meu sangue quentinho.

O pernilongo pousou no teto. Peguei uma cadeira, descalcei o tênis. Cheguei o mais perto que pude do ser incômodo. E bati uma palma dentro dele, esmagando-o. Mas caí do cavalo. Ou melhor: caí da cadeira.
  
Depois de eliminar o pernilongo inconveniente com todas as forças do meu ser, me esborrachando no chão, lembrei de um sábio conselho materno para evitar desperdício de energias:

"Pare de matar pernilongos como se estivesse abatendo um elefante".

18 de mai de 2012

Tinoco, o último caipira
























Finalmente consegui fazer meu desenho em homenagem a Tinoco, o último dos moicanos.
Ou melhor: o último dos caipiras.

17 de mai de 2012

Um novo retrato do velho

Lira Neto é o autor de uma nova biografia de Getúlio Vargas, um dos presidentes brasileiros mais amados e controversos de todos os tempos.

O Getúlio de Lira, publicado pela Companhia das Letras, terá três volumes. O primeiro saiu agora. Os volumes seguintes sairão em 2013 e 2014. É um trabalho de peso, em todos os sentidos.

Será que o retrato do velho vai ficar no mesmo lugar? Por ora, o retrato de Getúlio feito por Lira Neto tem seu lugar nas livrarias.

13 de mai de 2012

As aventuras de um legítimo repórter

Esse cara eu sempre imaginei nas ruas com aquele chapéu escrito "imprensa", o bloco e a caneta nas mãos, correndo atrás de boas histórias.

Esse é o típico repórter que a gente via no cinema. Fazendo o jornalismo que a gente imaginava que poderia ser.

Ele já contava histórias desde sempre, fazendo tiras em quadrinhos na Bahia. Inquieto, começou a publicar fanzines por lá, logo iniciando sua carreira de repórter.

Finalmente, desembarcou em São Paulo, fazendo parte da brilhante equipe reunida por Daniel Piza para o caderno cultural da Gazeta Mercantil.

De suas entrevistas com os pioneiros da televisão do Brasil, extrairia o livro Pais da TV. Das histórias dos quadrinhos brasileiros, com direito a Roberto Marinho e Adolfo Aizen como personagens, faria o livro A Guerra dos Gibis. Da cultura pop em sua amplitude, continuaria fuçando as gavetas.

E assim Gonçalo Junior vai vivendo suas aventuras. E contando tudo para quem as queira ouvir. Inclusive eu.

Caratinga e suas figurinhas carimbadas

Caratinga, cidade mineira, é a terra de Ziraldo. O cartunista Edra também é de lá. Além de fã do Ziraldo, Edra é organizador do Salão de Humor de Caratinga.

O evento sempre homenageia o caratinguense mais velho e mais ilustre. Edra também é um cara ilustrado. E ilustrador, cartunista e chargista.

Em 2008, Edra lançou nova edição de seu livro de cartuns e charges: Se rir eu choro. A diferença em relação à primeira edição, de 1988, foi a inclusão de caricaturas do autor criadas por colegas cartunistas de todo o Brasil.

Os desenhos em homenagem a Edra saíram em cores no final do livro, como se fossem figurinhas num álbum. Quatro anos depois, encontrei a caricatura do colega caratinguense no meu computador. Aqui, ela sai um pouco maior do que no livro.

10 de mai de 2012

Livros e gentileza em extinção? Ela mostra que não

Vez por outra, vejo o Roda Viva, programa de debates da TV Cultura. No centro de uma roda, um entrevistado é sabatinado por jornalistas convidados. Vez por outra, desligo a TV, nas ocasiões em que o Roda Viva se torna um ringue de luta livre.

No programa em que Jô Soares deu entrevista, uma voz de jornalista me despertou a atenção. Emitindo sons em volume humanamente audível, a questionadora não fez do entrevistado um saco de pancadas, em nome de "polêmicas" espetaculosas.

Após a entrevista, descobri o blog da jornalista: um espaço onde livros e escritores eram tratados com a mesma serenidade mostrada na TV. Tornei-me leitor assíduo, entrei em contato com a blogueira, trocamos links e gentilezas.

Num ambiente de humores instáveis feito a internet, mero reflexo de um mundo progressivamente doentio, serenidade é artigo em falta. Livros e inteligência, então, parecem produtos condenados à extinção. Tudo isso, Josélia Aguiar divide com seu público.

9 de mai de 2012

"Causos" de amor que causam

1. O par perfeito é aquele que lhe contempla com uma franqueza digna dos verdadeiros enamorados.

É o caso do par perfeito do apaixonado que tecia loas e mais loas ao seu amor.

Impávido no banco aconchegante da calma pracinha do interior, prometia ao seu par rios e oceanos, céus e terras, universos e galáxias. Tudo em nome do amor eterno.
Suando em bicas, vertendo mais líquido que a biquinha mais próxima, o apaixonado disparou a pergunta fatal e definitiva ao seu par perfeito:
- O que mais eu posso lhe prometer para merecer o seu amor?

O par perfeito, com toda a capacidade de compreensão de que era capaz, respondeu calmamente:

- Prometa que vai me levar pra outro lugar bem longe daqui. A praça inteira está rindo de você.


2. O par perfeito é aquele que lhe dá apoio em todas as horas, em todos os momentos da vida a dois.
É o caso do par perfeito daquele escritor que demorou três anos para revisar sua obra reunida, finalmente editada em dez volumes no mais fino papel-bíblia.
O par perfeito acompanha o exausto e alquebrado escritor, sua cara-metade da vida toda, à noite de autógrafos da obra completa.
Na volta feliz para casa, o par perfeito, numa demostração final de zelo antes do sono dos justos, sopra ao ouvido do exausto escritor:

- ... mas aquele "excessão" na página 534, hein, que papelão!


3. O candidato a par perfeito daquela que julga ser a sua cara-metade não mede esforços para ser gentil com a amada.
No dia do aniversário da sua potencial cara-metade, data que ele sempre se lembra com um tapão na testa no final do dia fatídico, ele resolve dar um presente diferente.
Que tal um carro de som, com direito a mensagem romântica com voz de locutor, rosas jogadas sobre a aniversariante, canções de Fábio Jr. e Roupa Nova, tudo na portaria do trabalho da amada? Bingo!
Carro contratado e encaminhado ao trabalho da cara-metade, ele a encontra no fim do dia, para certificar-se do sucesso da empreitada romântica.

- E então, meu bem? Gostou do presente?

- Presente de grego! Meu chefe viu aquele carro de som fazendo escândalo na portaria, perguntou de quem era, falaram que era meu. Fui demitida!

5 de mai de 2012

Resmungos virtuais

1 - Assuntos que dão prazer: minha mulher, meu partido, meu time de futebol. Assuntos que dão briga: a mulher dos outros, o partido dos outros, o time dos outros.

2
Valoriza-se o "diferencial" pessoal e profissional. Um recurso que serve apenas pra gente entrar na competição e ficar igual ao resto da humanidade.

3 - Está circulando na internet mais um artigo de autoajuda, do tipo cospe-regras, desses artigos que as pessoas amam.


A primeira coisa que as pessoas fazem após ler artigos desse gênero é aplaudi-los de pé, contrariando os conselhos expostos no minuto imediatamente seguinte ao da leitura. 


Se a vida fosse uma bula de remédio, sem efeitos colateriais previstos nas letrinhas miúdas, seria tão mais fácil viver. 


4 - Você percebe que adentrou o perigoso terreno das perguntas minadas quando sua namorada, mulher, amiga ou conhecida responde com aquela típica indagação em tom incômodo e desafiador: "Oi??"

4 de mai de 2012

Fábula Cabulosa (inspirada nas fábulas de Millôr)

O sujeito cínico - saudável, altivo, sarado e cheio de vida - perguntou ao sujeito diplomático porque estava tão encurvado, barrigudo, careca e cheio de olheiras. 

O diplomático ergueu os olhos, desencurvou-se por breves segundos, arrumou os raros cabelos e respondeu:

- Estou assim para garantir a sobrevivência da sua espécie.

MORAL: "Tu te tornas eternamente irresponsável por aquilo que cultivas".

3 de mai de 2012

Jornalista e chorão

O cidadão ao lado é o jornalista Luis Nassif.

Tivemos algum contato durante minha passagem pela M-Música, lista de discussão do tempo da internet discada.

Ali, Nassif mostrava sua verve musical e poética. Ele toca choro e até tem um CD gravado.

Na época da M-Música, fiz uma série de caricaturas dos membros da lista.

Era muita gente, acabei não fazendo o desenho dele.

Agora eu fiz.

1 de mai de 2012

Humor e música, juntos e separados

- Recebi ontem o catálogo da 37a. edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, primeira coordenada pelo cartunista Eduardo Grosso.

O livro é uma edição da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em parceria com a Prefeitura de Piracicaba.

O cartaz do Salão e a capa do catálogo de 2010 são do cartunista Ronaldo Cunha Dias, tradicional participante do evento.

O catálogo traz o conteúdo da mostra competitiva principal: charges, cartuns, caricaturas e tiras.

Meus trabalhos selecionados estão na categoria Tiras, em duas páginas do livro.


- Semana passada, participei ao vivo de mais um programa de rádio: Pelos caminhos da saudade, na Onda Livre AM.

O programa, atualmente conduzido por Fábio Cardoso Monteiro, pesquisador e entusiasta da música brasileira, já ultrapassou as seis décadas no ar!

Na edição da semana passada, falei sobre meu trabalho de caricaturas e quadrinhos, ligado em muitos momentos ao universo da MPB de todos os tempos.

Valeu, Fábio!