22 de mar de 2010

Ligue já!

Nesta segunda-feira, tive uma experiência de quase-morte.

Sendo as segundas dias lerdos por natureza, em particular por conta da energia restante dos churrascos e feijoadas e macarronadas do dia anterior, consumidos para aguentar o resultado do futebol, não é de se admirar que a semana seja aberta com experiências sui-generis.

A quase-morte deste sedentário cidadão quase ocorreu após mais e mais e mais exercícios. Pra variar, no curso de teatro que frequento na unidade do Sesi em Piracicaba. Falta de ar momentânea não chega a ser quase-morte, oras, mas tô pegando as manhas de dramatizar um pouquinho essas linhas. É teatro, afinal. "Tudo brincadeira", como diz meu sobrinho após uma rotineira sessão de chutes na minha canela.

Alunos chegando, e já chegados entre si - alguns até demais, o que o teatro não faz - tiveram os primeiros experimentos da noite.

"Siga-o-chefe" testou paciências em legítimos exercícios de masoquismo mútuo consentido. Minha curvilínea companheira de aulas anteriores fazia movimentos circulares, rotativos e espaciais com as mãos em revezamento, e eu tinha que me virar, literalmente, pra seguir esses movimentos. Na vez dela me seguir, segurei o tchan, não a torturando com os movimentos que ela tinha feito pra mim. Foi só ouvir uma frase dengosa de desaprovação ("Ah, não faz desse jeito comigo!"), e meu instinto de justa vingança brochou. O que um estudante de arte dramática não faz por uma mulher.

Bolas jogadas de duplas para duplas, cada vez em quantidades maiores, testaram a coordenação motora da turma. Ainda bem que isso era só, e tão-somente, um teste. Se feito num palco, com ingressos pagos e platéia lotada, a brincadeira dos bate-bolas iria fazer rolar, coxia abaixo, os receptores das bolinhas, e não as ditas-cujas.

O jogo da caça de ratos por gatos, com troca de identidade a cada bicho capturado, fez a galera entrar em parafuso. "Quem sou eu, afinal?" Mas entre mortos (de cansaço pelas correrias insanas) e feridos (pelo pega-pega animalesco), salvaram-se todos.

Anda-que-anda, respira-que-respira, e o clímax da aula chegou. Interpretamos, sem direito a comissão, autênticos televendedores, no melhor estilo Shop Tour. Sem terno e sem gravata, mas com uma vontade louca de empurrar a potenciais consumidores produtos indispensáveis, bonitos e funcionais. Nas duplas, um vendia e o outro era o produto, este em contorcionismos inimagináveis para corpos balofos - exceção honrosa feita às mulheres do curso.

A cada pergunta da platéia, o produto oferecido virava algo diferente. Um celular de dois metros de altura, vendido por uma telemoça de dicção lamentável, foi uma oferta da noite. Um abajur de mil e uma utilidades, outra. A oferta derradeira foi uma cadeira para idosos, que virava massageadora e esteira. Bem que o intérprete da cadeira podia ganhar um produto desses: tava precisando, coitado.

Finda a aula, levamos pra casa um folheto anunciando um show de harpa, para daqui a três dias, naquele mesmo espaço do Sesi. Para quem encara tamanha gama de atividades, cada qual mais bizarra que a anterior, acreditar na existência de uma harpista de música popular brasileira é fichinha.

No nosso curso, graças à mui-querida professora Fátima, as fronteiras do inacreditável se alargam a cada dia. Se duvidarem, com trilha sonora de harpa e tudo.

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