10 de nov de 2011

Viajando na literatura

Nessa semana de sol, viajei a uma cidade aprazível. Os abnegados que não tem preguiça de tirar a poeira dos dicionários sabem. "Aprazível" é uma qualidade digna de cidades turísticas. Desta feita, São Pedro merece o adjetivo.

São Pedro é uma cidadela próxima a Águas de São Pedro, próxima a Piracicaba. É água pra todo lado na região. Em Piracicaba, tem um rio. Águas é uma estância hidromineral. São Pedro tem o nome do santo invocado a cada vez que o calor anda de doer.

E foi num calor de doer que disse "São Pedro" ao motorista do ônibus. Uma hora depois, cheguei à cidade. Subi uma ladeira, cheguei à praça da Matriz, observei uma biblioteca novinha em folha, ainda por inaugurar. E entrei no Museu Gustavo Teixeira.

O patrono do Museu é considerado "filho e poeta maior" da cidade. O prédio do Museu tinha sido um colégio, também com o nome do escritor, morto em 1937.

A minha visita ao lugar também era pra conhecer um escritor: Nelson de Oliveira. Vindo de São Paulo, participa do projeto Viagem Literária, da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo.

A Secretaria convida escritores a colocarem o pé na estrada, rumo a cidades do interior. Nelas, os autores dão oficinas para públicos de idades e experiências diversas.

Nelson é escritor de vasto currículo e militância ativa na área. Doutor em Letras pela USP, tem duas dezenas de livros publicados. As gerações 90 e 00 foram contempladas e valorizadas por coletâneas organizadas pelo autor.

Quando pus os pés no Museu, senti o rangido das tábuas de um prédio antigo, a tradição embaixo da sola do tênis. Na sala de palestras, avistei o primeiro colega de turma: um ex-escriturário de português escorreito. Sobrevivente de um tempo em que se usava, sem faces ruborizadas, a palavra "escorreito".

Logo chegariam os participantes da oficina: estudantes do ensino médio de cidades próximas a São Pedro, acompanhados dos professores das respectivas escolas.

Após a auto-apresentação, Nelson iniciou sua fala desmistificando a inspiração e a literatura em geral. E propôs exercícios de criação de textos a partir de estímulos: minicontos de Júlio Cortazar e um curta-metragem animado, onde um tigre abalava uma metrópole inteira com sua presença.

O exercício final era a observação de dois quadros do museu. A partir de um deles, um texto nasceria. Os textos poderiam ser em prosa ou em versos.

O que dá pra notar de imediato nesse tipo de atividade, agora que também faço isso junto a crianças, é a paralisia que acomete os participantes. Nelson observou o fato durante a oficina.

Jovens não recebem estímulos para a criação, tanto na escola quanto na vida cotidiana, direcionando todas as suas energias para o vestibular. A criação fica em segundo plano, talvez em último. Em muitos casos, adormecida para sempre.

Mesmo com os risos nervosos e temerosos da reação dos colegas em volta, Nelson fez com que os alunos lessem em voz alta as produções do momento, com direito a análise do estilo de cada um. Não que os adultos do lugar - eu e o colega parnasiano - não ficássemos com as pernas tremendo.

De minha parte, tive boas surpresas com a molecada. A turma pré-vestibulanda se mostrou articulada e imaginativa. Pena que não é possível reproduzir os textos aqui.

A tarde terminou com as inevitáveis despedidas. Os adultos da sala ganharam do "oficineiro" exemplares do livro "Muitas peles", de um tal Luis Bras. O autor da obra é colunista do jornal literário Rascunho, de Curitiba. E habitante cativo do imaginário de Nelson.

Pra vocês terem uma ideia, Luiz faz defesas bem-humoradas e consistentes da ficção científica, um gênero jamais lido e abordado por este palpiteiro que vos digita.

Nunca é tarde pra começar novas leituras e novas viagens. E vamos nós.

(Foto retirada do blog Lenda Urbana, de Nelson de Oliveira. Se houvesse o crédito do fotógrafo, eu colocaria aqui)

3 comentários:

Carla Ceres disse...

Conheço muito bem essa tal ladeira de S. Pedro, Érico. Foi meu exercício inevitável durante os três anos de magistério que cursei quando morava em Águas. Canso só de lembrar. :) Que bom que a oficina foi interessante! Preciso conhecer essa biblioteca nova. Beijos!

Célia disse...

Seu texto reportou-me a homéricos debates que fazia com as professoras quanto ao incentivo, à motivação para que os alunos criassem! Destaco:"...Jovens não recebem estímulos para a criação, tanto na escola quanto na vida cotidiana, direcionando todas as suas energias para o vestibular. A criação fica em segundo plano, talvez em último. Em muitos casos, adormecida para sempre"...
Incrível, mas grande verdade! Ser humano não criativo é reprodução das mesmices a que estamos submetidos!
Abraço, Célia.

Nelson de Oliveira disse...

Rapaz, a aventura literária em São Pedro foi mesmo muito estimulante. É muito bom saber que a oficina de criação agitou um pouco a imaginação e a fantasia da galera. Pena que foi um único encontro. O prédio do museu e da biblioteca é espetacular.
Mais uma vez, obrigado pelas palavras positivas, e também pela caricatura.
Abraço!