23 de nov de 2011

Caras, bocas e apagões

Num tempo em que boa parte das conversas se dá entre interlocutores escondidos atrás de monitores de computador, devidamente conectados a redes sociais, uma cena rara se passou diante dos meus olhos: um papo ao vivo entre cinco mulheres. E todas com o assunto na ponta das respectivas línguas.

A conversa aconteceu numa sala de aula, depois de dois ou três apagões no sistema elétrico da escola. O que não impediu que a mulherada tagarelasse a níveis nucleares, radiantes.

Na sala de aula, as representantes do sexo nada frágil desfiaram suas respectivas especialidades. Tendo uma chuva miúda como reles coadjuvante do ambiente, a professora falava a uma velocidade digna de um Fórmula 1. Pernas e braços saltitantes auxiliavam a oratória sem vírgulas, sem ponto final, às vezes sem eira nem beira.

As alunas acompanharam as palavras da mestra até o acalorado debate a respeito de esmaltes para unhas indefesas. Quando o assunto evoluiu para um consenso a respeito das virtudes masculinas, a única voz masculina presente achou por bem exprimir um suspiro, quase um muxoxo. Interpretado por elas como um silêncio mais eloquente que qualquer frase de efeito. Mulher interpreta até respiração, ó céus.

Não foi dessa vez que escapei da lábia escorregadia, porém graciosa, das colegas ocasionais de um curso rápido. Mesmo porque, depois de ouvir confissões sobre métodos de descarrego de energia em leitos incautos, além de juízos sobre a revolução nas artes marciais, a melhor atitude do ouvinte caipira foi a mais adequada ao momento: enfiar a viola no saco. Antes que a reação viesse toda desafinada.


Esse texto, inédito até o instante da postagem, saiu simultaneamente à tagarelice acima, no curso de Redação Jornalística do Senac Piracicaba, em 2010. Era uma aula de produção de crônicas. As colegas de classe me absolveram por tê-las transformado em personagens. O desenho do cronista entra aqui pra dar uma suavizada nas palavras ácidas. Ou entornar o caldo de vez, ao gosto do leitor e freguês.

2 comentários:

Célia disse...

Corre na mídia televisiva, Érico, uma propaganda que se intitula: "a mulher sem ponto final"... Ótima diversão para mim! Agora, sua crônica revela com caricatura e tudo (com um teclado na boca...) que realmente não precisa de energia alguma; basta a feminina! Retrocedo à minha pedagogia quando um "senhorito" infiltrou-se entre 60 futuras pedagogas... e não aguentou sequer o 1º semestre! [risos] Somos terríveis, mesmo!
Abraço, Célia.

Carla Ceres disse...

Ahá! Então o senhor é escritor com curso e cobaias-modelos. :) Eu bem que imaginei. E trate de concordar comigo. E nem pense em suspirar que eu interpreto. E beijos!