21 de nov de 2011

Emoção de primeira

Se o clichê diz que aqui é o país das cantoras, não sou eu quem vai contrariá-lo.

Tem tanta cantora nova por aí. Muitas ótimas, envolventes. Várias seguindo a cartilha das que dominam as paradas de sucesso. Outras tentando um lugar ao sol, mesmo em lugares onde o astro-rei nasce quadrado.

Nos últimos anos, os mesmos avanços tecnológicos que decretaram a morte da indústria fonográfica democratizaram o acesso de centenas de garotas à internet, aos estúdios de gravação. Cada qual com seu site, seu canal no YouTube, seu avatar nas redes sociais, seu disco.

Na minha cidade, por exemplo, a última que escutei foi Patricia Moreno. Ou Pa Moreno, como ela assina na capa do seu CD. Escutei a cantora pela primeira vez na Virada Cultural de Piracicaba, em 2011. Megaevento do governo estadual paulista, reúne, num período de 24 horas corridas, diversas atrações musicais, a maioria num espaço só.

Na espera do show dos Titãs na Virada, no Parque Engenho Central, pude olhar um dos shows "de espera", exatamente com Patricia num dos palcos. E foi no palco do teatro do Sesi, onde coloco os pés quase todas as semanas, que revi a cantora, no espetáculo de lançamento do seu primeiro CD. Esse que ilustra a postagem.

A maioria dos trezentos e tantos assentos do teatro estava ocupada. Uma turma de fãs de todas as idades prestigiou a cantora. O clima lembrava o de um domingão em estádio de futebol, tamanho o zum-zum-zum no recinto.

Pa Moreno tem dezoito anos de carreira. E uma trajetória comum a outras intérpretes. Cantando em corais, musicais, festivais, coletâneas em disco, bares e restaurantes, até chegar ao CD solo. O repertório do disco integrou o set list do palco do Sesi.

A banda que acompanhou a intérprete no show teve o baixista Celso Rocha (dono do estúdio Apache, local de gravação do disco), o pianista André Grella e o baterista Roggero Chiarinelli. Completou o time o marido de Patricia, Zé Rubens Trevisan, que toca violão, guitarra e compõe com a mulher.

A performance de Pa Moreno saltou aos olhos e ouvidos do respeitável público. A iluminação projetou cores fortes no palco e na cantora de vestido vermelho: vestes de uma diva. Para dar um toque a mais de emoção no clima de estreia, Patricia contava a história da criação de cada música. A humanidade da atitude tirou das costas da cantora o rótulo de "diva".

As canções propriamente ditas - ou cantadas - trazem a salada de ritmos típica desse mundão contemporâneo, embora Patricia tenha declarado no palco a paixão pelo blues.

Para um ouvinte incorrigível de MPB, que não admite letras sem achados poéticos à la Chico Buarque, versos pop podem soar simples. O que não impede a compositora e seus parceiros de atingir um nível mais "literário", na simbiose entre versos e músicas.

Sem ouvir a música, apenas lendo o encarte do CD na entrada do show, gostei de "Mágico" (Pa & Trevisan). No palco, a expressividade de "Iniciante" (Pa, Trevisan & Hion), em dueto voz & piano, não seria a mesma se construída de forma rebuscada.

A ideia mais interessante ficou registrada em "Samba no cais" (Pa & Trevisan). A história do sambista-malandro-cachaceiro, de nome Januário, é velha de décadas no imaginário da música brasileira. Mas contar-cantar o personagem num blues inverteu a expectativa trazida pelo título ao ouvinte. Que samba, que nada.

Pena que "Saudade" (Pa & Trevisan), samba-pra-turista gestado na Itália, não seja especialmente atraente. A letra lista todos os lugares-comuns da cesta básica afetiva de um brasileiro saudoso: a cachaça, o café, a paçoca, os Tons e os Vinicius. O Brasil de hoje - rico, pitoresco e burlesco - não se resume a essas preferências de leitores da revista Bravo.

Os músicos Daniel Sanches e Luis Dutra acompanharam a intérprete em algumas canções. E a autora dos versos de "Iniciante" recebeu o abraço emocionado de Patricia no bis final.

O que mais se ouvia teatro afora, ao final do show, era o coro de "Bravo!". As palmas ruidosas do respeitável público acompanharam o coro. De minha parte, fica o gosto de "quero mais". Ainda bem que agora há o CD de Pa Moreno, que satisfará em parte o desejo por novas performances da cantora.

3 comentários:

Célia disse...

Olá, Érico! Fazer e viver da arte em nosso país depende da capacidade de cada um em doar-se sem nada receber! Não é fácil, mesmo! Há nomes já pré-marcados de uma casta familiar que ondechega, vence; mas os demais têm que galgar degrau por degrau. Portanto, parabenizo a Pa Moreno pela audácia, e à você pela iniciativa do estímulo à artista!
Abraço, Célia.

Regina Magnabosco disse...

Pela trajetória que você nos conta dessa cantora, ela deve ser mesmo muito boa... Aprendendo sempre contigo!

Carla Ceres disse...

Valeu a dica, Érico. Vou conferir. Beijos!