29 de fev de 2012

Eumir Deodato, a cara do Dexter

E uma trajetória musical incomparável, com atuações ao lado de Tom Jobim, Frank Sinatra, Björk e Marisa Monte

Um baixinho de roupa esporte, tênis e óculos escuros, expressão sisuda e trejeitos de ator de Hollywood entrou no palco do Teatro Municipal “Dr. Losso Netto”, na tarde do último dia 10, para ministrar um workshop.

Anunciado como “um músico que levou o nome do Brasil ao mundo”, ganhou aplausos de uma plateia com cara de interrogação. Mas que não se preocupassem. O cidadão com cara de turista americano no Brasil estava ali exatamente para explicar quem era.

Tratava-se do carioca Eumir Deodato: instrumentista, arranjador e produtor, premiado e requisitado internacionalmente. De passagem por Piracicaba, faria o workshop e um show, na segunda sexta-feira deste mês.

A anfitriã Regina Gomes, pianista responsável pelo Festival Som Maior, evento anual de workshops e competições destinadas a estudantes de música, fez as honras da casa ao visitante.

Economizando sorrisos, Deodato só ensaiaria mudanças na fisionomia ao fazer comentários sarcásticos sobre o meio musical ou colegas de ofício. Ao contrário do que a platéia poderia supor, ele também não se comportaria como incentivador de prováveis aspirantes ao estrelato.

“Estrelato”, aliás, é uma palavra associada ao nome de Eumir Deodato e dos artistas com quem trabalhou ao longo de quatro décadas. Nos já distantes anos 60 do século passado, o compositor Roberto Menescal chamaria Deodato para tocar em seus primeiros conjuntos, com uma condição: “É só você colocar meu nome na frente”. Trato feito, o jovem Eumir Deodato de Almeida, ex-estudante dos métodos musicais de Henry Mancini (criador da famosa trilha do filme A Pantera Cor de Rosa), ali cravaria o marco zero de sua milionária trajetória.

No workshop, consultando o roteiro da própria carreira, Deodato dividiria sua vida musical em fases. Na “fase brasileira”, além de tocar com Menescal, “vestiu” canções alheias para gente como Marcos Valle, outro adepto dos sóis e sais da Bossa. Para o violonista Luiz Bonfá, faria arranjos que o levariam à América do Norte. Era o início da “fase brasileira nos Estados Unidos”, marcada pela ascensão de Astrud Gilberto, “a inventora da música brasileira nesse país”, nas palavras de Deodato.

Em terras estrangeiras, o ainda jovem arranjador cruzaria os caminhos de Tom Jobim, com quem colocou em pé, em Londres, a trilha sonora de um filme. “O trabalho demoraria menos se o Tom não quisesse só ficar na King’s Road, tomando cerveja e comendo salsicha branca – que, aliás, não é nada ruim”.

Em seguida, Deodato entraria na seleta galeria dos arranjadores de Frank Sinatra, “um cantor muito famoso, vocês devem conhecer”, nas palavras mordazes do palestrante. O trabalho de Deodato no segundo disco de “The Voice” e Jobim, impressionaria o velho cantor, como disse Tina Sinatra, filha do próprio, na biografia escrita por ela a respeito do pai.

A “fase americana” de Eumir Deodato começaria nos anos 70, já com a Bossa Nova em declínio nas paradas de sucesso. Nessa época, o carioca conheceria o sucesso em dimensões estratosféricas. Seu arranjo pop para o “Also Sprach Zarathustra”, poema sinfônico de Richard Strauss, vendeu milhares de discos num tempo em que nem se sonhava com a disseminação de canções via internet. Zarathustra, que vem a ser o popular Nostradamus, existiu de fato e foi enterrado em Bacu, capital do Azerbaijão, lugar onde o brasileiro fez um show e descobriu a preciosa informação.

Nos anos 70, Deodato daria fôlego novo a bandas como The Kool and the Gang, dona do sucesso “Celebration”. E a “fase underground”, já em tempos menos remotos, traria a chance da aproximação com a cantora Björk, queridinha de rodas musicais cosmopolitas aqui e lá fora. Dela, Deodato guardaria a lembrança de um talento indiscutível, a eliminação da roupagem eletrônica das canções da artista e uma noite inesquecível num restaurante refinado em Londres: Björk de “tênis colorido, mochila nas costas e jeito de estudante”, sem ter reservado mesa mas amiga do dono do restaurante, e um fim de noite com “uma porcaria de comida” pesando no estômago do arranjador.

Por falar em estudantes... Na palestra a modéstia não impedia o músico e produtor de exibir cifras milionárias e méritos indiscutíveis na carreira, postura arrogante para ouvidos brasileiros, acostumados a demonstrações de falsa humildade. Antes que o sono ameaçasse o respeitável público pela falta de referências a artistas mais novos, Deodato tratou de desfiar seu currículo recente.

Além de Björk, Marisa Monte teve a canção “Vilarejo” arranjada por ele. O cantor francês Cristopher passou pelas mãos do brasileiro, além de Luz Casal, intérprete de boleros globalizados – espanhóis, cubanos e até brasileiros, por que não? Com a produção de Deodato, Luz ganharia Disco de Platina duplo. Com Cristopher, Deodato tocaria ao ar livre, em Paris, para um milhão e meio de pessoas, no dia em celebração à Queda da Bastilha.

Encerrada a palestra, os estudantes mostrariam esperanças e inquietações nas perguntas ao carioca festejado, premiado e invocado. De métodos musicais, ele recomenda os de Henry Mancini, o primeiro mestre de uma formação teimosamente autodidata. As sugestões de outros autores e métodos são rechaçadas de imediato: “Eu estou citando gente que deu certo”. Sobre a inspiração, derruba qualquer mito a respeito: “Eu às vezes só transpiro...

À pergunta sobre mercado de trabalho e chances de sucesso musical nos Estados Unidos, ele reage enfático: “O mercado na América acabou. O sucesso no exterior não é mais nos Estados Unidos. Pode ser na Espanha, na Itália...”. Com a pirataria, Deodato jamais poderia concordar, fatal para quem, como ele, ganha royalties relativos à venda de milhares de CDs, centenas com a sua participação . “Nas Filipinas, onde fui fazer show, tive que autografar uma fila inteira de CDs piratas. Se não fizesse isso, poderia soar indelicado”.

Para não soar indelicado aos futuros colegas de profissão, o músico atendeu ao pedido de uma canja no piano, tocando “Espírito do Verão”, canção composta para o Festival Internacional da Canção a pedido do seu organizador, Augusto Marzagão, futuro “lado B” de “Also Sprach Zarathustra”. Emitidos os aplausos de praxe, parte da platéia vespertina voltaria ao teatro para a performance de Deodato ao piano e teclado, com Alexandre Cunha na bateria e Renato Loyola no baixo.

O cenário de luzes coloridas dava ao palco uma aparência de céu estrelado, embora soasse cafona em vários momentos do espetáculo. Com cara de Dexter, o cientista-moleque do desenho animado, e físico de Cléber Machado, o locutor esportivo da Globo, o artista entra ao palco com mais de meia hora de atraso. Para compensar, emitiria todos os sorrisos economizados no workshop da tarde.

No repertório do show, predominaram as canções do maestro Tom Jobim. Deodato fez os arranjos do clássico “Sabiá”, além de “Dindi”, apresentada no piano-solo, “Samba de uma nota só” e “Wave”. Canções de Deodato, como “Arranhacéus”, baseada em Marvin Gaye, e versões de “Rapshody And Blue”, de George Gershwin, e “Berimbau”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, completaram a noite. A cada bloco de músicas, Deodato fazia comentários jocosos, como quem domina a arte de entreter uma platéia, para além de seu papel de músico.

Suingue e poesia devidamente distribuídos, o brasileiro encerra a noite com seu maior hit: aquele do Zarathustra, é claro. Eumir Deodato, pragmático em seu ambiente maior – o mundo – e soberano em seu ambiente máximo – o palco – despede-se satisfeito. Pronto a continuar sua odisséia musical, agora reconhecida por uma seleta platéia interiorana.


Texto publicado originalmente no jornal Tribuna Piracicabana, em setembro de 2010. Na época da publicação, já tinha passado o link do site do jornal. Porém, resolvi trazer o texto pra cá também.

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