15 de mar de 2012

40 anos fechando os verões, com ou sem karaokês

As águas de março sempre fecham os verões tupiniquins. Quarenta anos atrás, elas deram título a uma canção de Tom Jobim.

A versão eternizada por Elis Regina e o compositor é a mais lembrada. Assim de estalo, dá pra lembrar de outras.

Na versão de Miúcha, de Toquinho e do autor, gravada num show em Milão, a cantora derrapa em alguns versos. Um erro pra lá de normal, mesmo com a intimidade da irmã do Chico com a obra de Tom. Ou vai dizer que essa letra quilométrica é fácil de decorar?

Só do Tom, há três versões-solo. A primeiríssima gravação foi feita para o Disco de Bolso do Pasquim, revista e compacto simples encartado nela. O cantor Sergio Ricardo, responsável pelo projeto, realizou uma parceria com a editora do polêmico jornal de humor e pôs o bloco na rua. Ou melhor: pôs nas bancas o disco mais a revista.

A primeira versão da canção trazia um andamento mais acelerado que o adotado depois, em outras interpretações. E a letra ainda não era a definitiva. O cantor-autor arfava. Haja folego.

João Gilberto cantou as suas Águas num
LP de 1973. A versão reforça o que a canção pode trazer de monótono, já que as variações se dão mais na harmonia, e não na melodia. O cantor ainda se deu ao luxo de inserir um improviso fora de propósito no final: "no fundo do mar". E eu que pensei que Tom falasse de um rio na letra...

Uma das versões ouvidas por este que vos digita é de Marisa Monte e David Byrne, gravada para o CD Ret Hot + Rio, em 1996. Marisa canta que é uma beleza, como sempre. Ouvir Byrne é um exercício de tolerância auditiva. O acompanhamento instrumental segue o estilo "world music", esse rótulo exótico conferido à música criada fora dos Estados Unidos.

Há outra releitura nesse tom contemporâneo, realizada pelo grupo Bossacucanova, cantada por Cris Delano, parceira de discos e shows com Roberto Menescal, o compositor da bossa com cara de música de elevador. É versão for export, com letra em inglês. Uma senhora letra, criada pelo próprio autor dos versos originais: Antonio Carlos Jobim.

E o que o finado músico diria de uma versão-pra-cantar-no-chuveiro, dada a público por ocasião dos 40 anos da canção?

Nessa versão-clipe, os "novos" cantores da "nova" MPB são mostrados em estúdios, casas e outros ambientes similares. Cada um no seu quadrado, tentando acompanhar, como num karaokê chique, a gravação de Elis & Tom.

Para quem não está nem aí com essas efemérides, e gosta de Águas de Março independente do que se possa fazer com ela, num banheiro ou num estúdio, o resultado é divertido. Alguns cantores arriscam-se a "interpretar" as Águas, mas erram o andamento. Outros limitam-se a entoar os versos de forma mais linear.

Não conheço direito os cantores da "nova MPB" que participaram do clipe. Nem sabia que havia uma "nova MPB". O único que me fará lembrar das Águas-Século-21 será o rapper Emicida, numa participação reverente e auto-louvatória.

Que venham outros verões. Tom Jobim continuará por aí, de um jeito ou de outro.

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Fechando "os verões" ou "chegando o verão... um calor no coração"
Realmente mágicas poesias marcando outonos das nossas vidas.
Abraço da Célia.

SPACCA É... disse...

Bom artigo, de quem sabe muito.
"O autor-cantor arfava" é a definição exata do maestro Tom Jobim!
Já o karaokê, cruzes, é descendo a ladeira mesmo...
abração
sp