27 de set de 2011

Quebrando tudo

Conversa de boteco é algo inebriante. Seja pelos comes e bebes, principalmente os bebes. Seja pela conversa, pelo ambiente. Pena que para cada prazer haja um ônus. No caso, a conta.

Descontando a conta, o que aconteceu no Ponto de Cultura Garapa, em Piracicaba, ontem à noite, contrariou a rotina de uma segunda-feira comum.

O escritor e dramaturgo Mário Bortolotto esteve no Ponto para um papo sobre sua vida & obra. A conversa se deu no clima informal que o nome do projeto pedia. Bem "conversa de boteco" mesmo.

A conversa com Bortolotto teve a mediação de Fátima Monis, orientadora do núcleo de Artes Cênicas do Sesi Piracicaba, e do jornalista Romualdo da Cruz Filho, d'A Tribuna Piracicabana. Papel que ambos desempenharam com a maior das boas intenções. Temperada com opiniões definitivas dos debatedores a respeito do universo do entrevistado.

Talvez para estabelecer o clima de informalidade ao papo, o entrevistador e um ou outro perguntador trataram Bortolotto com certa intimidade - um havia estudado com o autor em Londrina, o outro havia tomado umas e outras com o escritor em Parati. O convidado não passou recibo a nenhum dos dois candidatos a amigões. No entanto, justiça seja feita, tratou-os com a cordialidade possível.

Bortolotto mostrou-se um cara muito convicto de sua entrega ao ofício de escritor. "Eu me registro nos hotéis como escritor. Mesmo que eu seja um escritor ruim, eu sou um escritor". Renegou qualquer rótulo, a começar pelo de "dramaturgo". Rejeitou a sacralização a todo instante. E respondeu com a firmeza que só os verdadeiros artistas emprestam à arte.

Tudo isso sem desrespeitar ou satanizar os colegas e amigos que fizeram outras opções, como escrever para a televisão ou encenar um teatro mais digerível. Mario está na dele, e pronto. Pronto para o que der e vier.

"Eu fiz a opção por uma vida mais pobre, fazendo o que eu gosto de fazer. Por isso não duro mais de um ano com a mesma mulher. Chega uma hora que elas perguntam: 'E aí'? Como é que é?", disse Bortolotto, numa das muitas vezes em que fez o público gargalhar.

Lá pelas tantas, a geladeira do lugar, que trouxe o combustível necessário para a plateia de Mario, foi ficando vazia. A conversa esquentou com o autor expondo sua relação com a crítica. Ele simplesmente não quer saber de críticos, bons ou ruins, embora admita o diálogo com o falecido Alberto Guzik - um crítico que, no fim da vida, virou ator.

Bortolotto não vê autoridade em quem se dispõe a analisar o que ele faz. "Você se dedica por um ano a escrever e montar uma peça, pra vir um crítico e detonar sua peça? Ele não sabe o que você passou pra fazer aquilo. Quem sabe é o autor. E o diretor".

O jornalista-debatedor quis jogar a responsabilidade do discernimento na leitura de uma crítica nas costas do espectador-leitor, no que foi rechaçado por Bortolotto. O melhor reconhecimento para o autor, ao menos no clima de piada de boteco, é "uma garrafa de Jack Daniels".

Pouco a pouco, a postura transparente do escritor efetuou uma quebradeira nas pretensões intelectualóides dos perguntadores de plantão. Por pouco não me quebrei todo também. Não com supostas perguntas desastradas, mas com a cadeira escolhida para me sentar.

Cadeira nova em folha, mas daquelas parecidas com as utilizadas em escolas infantis. Os pés da cadeira vieram abaixo, e este que vos digita beijou o chão sem o menor amor. Ato falho.

Feitas as conclusões, os agradecimentos e o tradicional "quadro de avisos" dos responsáveis pelo Ponto, cerrou-se a porta de aço do boteco da vez. E a vida continua com outros papos, peças e livros por aí.

Mário Bortolotto vai nessa levada, seguindo seu caminho. Ele e quem se dispuser a acompanhá-lo: aos botecos e pela vida afora.


Pra quem aprecia PS, seguem os créditos do projeto, retirados do release no blog do Rodrigo Alves: "A realização do Conversa de Boteco tem o apoio do Sesi, Tusp/Piracicaba (Teatro da Universidade de São Paulo), Casvi, Ponto de Cultura Garapa, Bar Cruzeiro e Apite! (Associação Piracicabana de Teatro)"

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