19 de out de 2010

Perotti, inesquecível

Sabe aquelas coisas que a gente se lembra que parecem folclore, e não são? Uma delas, no meu caso, foi um certo Sujismundo. Assim como um dia houve o boi da cara preta que pegava as meninas com medo de careta, o Sujismundo era lembrado como o cara que as crianças não seriam caso tomassem aquele banho de todo santo dia.

Sujismundo foi uma espécie de Cascão adulto, estrela de pequenas animações encomendadas pelo governo brasileiro nos anos 70. Os desenhos protagonizados pelo personagem, de cabeça grande e sujeira maior ainda, compunham uma campanha de saúde pública de alcance nacional.

Só fui saber que Sujismundo existiu no imaginário verdeamarelo, para além dos temores que as mamães zelosas infiltravam nas cabecinhas de seus filhinhos, ao conhecer seu criador Ruy Perotti Barbosa.

Natural de Valença, cidade do estado do Rio de Janeiro que também deu ao mundo a violonista Maria Rosa Canellas (ou Rosinha de Valença), Perotti deu o ar de sua graça em Piracicaba, cidade onde nasci e sou cartunista, nos anos 90 do século passado. Esteve numa escola de desenho, a convite de seu proprietário, para um curso especial de criação de histórias em quadrinhos, com duração de três meses.

Naquela altura, Ruy Perotti era dono de um vasto currículo. Tinha sido sócio da Lynxfilm, estúdio de animação que produziu os primeiros desenhos animados de Mauricio de Sousa para o extrato de tomate Elefante, além de criar o Sujismundo para a campanha citada acima. Nos anos 70, dirigiu o núcleo de revistas infantis da editora Abril, onde aproveitou para veicular seus gibis do diabo Satanésio e do macaco Gabola. Fico imaginando se hoje a Abril teria peito pra bancar um gibi cujo personagem principal era um diabo... Claro que Anjoca acabava sempre dando um jeito de neutralizar as diabruras do Satanésio, mas o público jogou água na fervura, e Satanésio foi cancelado após poucas edições em banca.

Poucos anos antes do curso em Piracicaba, o criador do diabinho dera forma ao Variguinho, avião-mascote da Varig, para animações na TV e gibis de banca. A ligação de Perotti com a Varig já vinha de longa data, com os comerciais animados do Seu Cabral, Urashima Taro e Dom Quixote, criados para a empresa nos já distantes anos 60.

Nos três meses de convivência com o multifacetado artista e animador, a seriedade dos conceitos do velho Perotti no décimo-quarto andar da escola era equilibrada pelos risos bonachões nos almoços no térreo após as aulas. Careca, bigode tingido de preto, baixote e barrigudo, parecia o avô severo que todo neto adora esperar o momento certo pra esculhambar.

A tal esculhambação veio ao fim das aulas, quando apresentamos projetos completos de personagens e histórias criadas como conclusão do curso. Inventei uma turma de bichos falantes liderada pelo coelho Sobral, um lenhador metido a machão. Na série de tiras, a única coisa que Sobral derrubou foi a resistência do porco Ferraz, um guarda-florestal aboiolado que se derretia pelo coelho. A floresta só não virava cinzas por causa da vigilância do pingüim Doutor Tóim, espécie de patrão e pai do porquinho.

As tiras da turma do coelho Sobral foram as primeiras que inventei de forma mais conscientemente planejada, graças aos ensinamentos de Ruy Perotti. Uma das melhores lembranças que tenho dessa fase foram as gargalhadas dele ao ouvir minha descrição do porquinho Ferraz. “Um porquinho bicha!” E morria de rir. Ao me recordar disso para a redação destas linhas, não consigo evitar as lágrimas, que vieram quando soube da morte do artista anos depois das nossas aulas em Piracicaba.

O bonachão que criou figuras queridas do imaginário nacional pode ter sido uma figura folclórica para o autor destas maldigitadas, mas existiu de fato e de direito na vida dos brasileiros, e ainda bem.

2 comentários:

Lili disse...

Olá Érico,
Também fiquei muito feliz em te conhcer na casa da Pê.
Obrigada pela visita ao meu blog.
Beijos
Lili

Carla Ceres disse...

Eta, mundo pequeno, Érico! Escrevi sobre seu professor. E pensar que ele esteve em Pira quando eu já morava aqui e eu perdi. :( Paciência, né? Pelo menos, li seu texto, que é muito legal. Obrigada por me contar sobre ele! Boas Festas!