23 de abr de 2010

Maria Alcina e Adoniran: bela tabelinha

Começo de abril, e escuto de um amigo: "Você só gosta de coisas de velho!". Após o julgamento sumário, sem defesa e sem perdão, fiquei com uma vontade doida de sacar uma bengala para acertar a cabeça do muy amigo.

Pensei nisso, ainda com certo ódio no coração, quando papeava com um amigo mais recente. Quase um mês depois, e os dois estávamos na entrada do novo show de Maria Alcina, de passagem por Piracicaba, no Sesi local.

Esse amigo recente não sabia que o maior sucesso da cantora foi uma canção de Jorge Benjor antes de ser Benjor: Fio maravilha. Ignorava que ela tinha sido jurada no programa do Raul Gil. E tampouco sabia que seu último sucesso foi a antológica Prenda o Tadeu.

Meio desanimado por ser um dinossauro precoce, tomei meu assento no respeitável público, quase todo ele ultrapassando os quarenta anos. Pra piorar minha reputação, o espetáculo trazia o repertório de outro master, Adoniran Barbosa, numa homenagem ao seu centenário.

Saudosa Maloca e Trem das Onze, canções entoadas há décadas pelos Demônios da Garoa, fazem o público pensar que a obra de Adoniran resume-se a isso mesmo: a dois lamentos de fim de noite pra velhinhos bêbados cantarem em uníssono desafinado.

Mas o show mostrou o contrário, fazendo o favor de calar a minha boca rabugenta. E Maria Alcina, nada rabugenta, abriu a dela no palco, junto à bateria de Gustavo Souza e o violão de Sérgio Arara, este o diretor musical do show.

A artista distribuiu à platéia fartas doses de energia e senso de humor, presentes no gestual exagerado, na voz de trovão e na presença cênica vital. A Carmen Miranda reencarnada só valorizou a obra tão peculiar de Adoniran Barbosa.

O set list trouxe uma geral de Adoniran, entre o romântico e a tragicômico, num dialeto ítalo-caipira. As músicas "assinadas" por Peteleco, mascote vira-lata do compositor, mereceram um segmento à parte. As mais conhecidas, citadas linhas atrás, abriram e fecharam a noite.

Maria Alcina vestiu figurinos diferentes nas duas partes do espetáculo, costurando-as. Na primeira parte, exibiu um arranjo de cabelos à la Brazilian Bombshell junto à malha colante preta e à camisa zebrada. Na segunda parte, a intérprete encarnou um legítimo pierrô bufante.

Uma ou outra canção foram vestidas de efeitos sonoros eletrônicos, arriscando desagradar aos defensores de um Adoniran mais "chorado". Só que não notei lágrimas rolando nas cadeiras. Todo mundo mexia, sim, mas nas próprias cadeiras, dançando sem parar. E dançariam mais no pedido de bis.

Numa dessas coincidências felizes, em pleno dia de São Jorge a platéia sambou ao som do primeiro sucesso de Maria Alcina, justamente o "Fio Maravilha", jogador perna de pau eternizado apenas na música de Benjor. Já Maria Alcina ainda bate um bolão. Não em futebol, mas em arte. Que não tem idade.

2 comentários:

carvalho disse...

eu gosto da maria alcina.
mas TAMBÉM sou velho.
aliás, avô.

Érico San Juan disse...

Eu tenho dois sobrinhos. Posso ser chamado oficialmente de tiozinho...