6 de ago de 2011

Ficção barata cheirando a naftalina

Acordou e viu que tinha se transformado num ser insone. Que raiva! A preocupação com o tudo de todo dia não o deixara relaxar e dormir o sono dos justos. Voltar a dormir? Imagina. O jeito era vagar feito zumbi até a calma surgir, retornando enfim ao leito sagrado, junto a anjos, santos, querubins, gnomos, anões de jardim e demais entidades anedóticas.

Andou dez mais dez mais dez passos, rumo à geladeira. Um copão de leite? Um rabanete? Limpeza na geladeira? A molecada andava sujeirando com mostarda o gélido espaço. Uma boa botar as pestes para limpar tudo com a língua, não é?

O achômetro do pai de família captava que a meleca iria atrair a atenção de carismáticas baratinhas, como a que o fitava atenta, numa das prateleiras do congelador, e...

Uma barata na geladeira! Mais essa para implodir o meu dia-noite, pensou o zumbi de ocasião. O bicho não saíra do lugar, esperando que o seu companheiro de treva tentasse alguma reação - chinelada, grito de horror, tapa. Essas coisas que a gente sabe que nunca exterminarão as baratas da face da Terra, mesmo oferecendo às tais a outra face para bater.

Cansada de aguardar e confiante de que nada aconteceria, a barata saltou para o ombro esquerdo do sujeito. A curiosidade matou o gato da casa; mataria também o sujeito do sono perdido? Este procurou se contentar com a idéia de ter aquele absurdo em seu corpo, esperando o próximo passo.

Não demorou o desfecho. A barata saltou ao chão, sumindo atrás da geladeira. E o sujeito? Coube a ele verificar a sensação de pele incendiada no ombro pisoteado. Para quem quisesse conferir, um número carimbado na pele: 13!

Diacho de dor! Procurou um algo-qualquer para aliviar a queimadura... Maldita barata, peste desgraçad... Nem completou a frase. Da geladeira, um exército de antenudas carimbantes rastejou em sua direção.

Nisso, bateu o sagrado instinto de sobrevivência no distinto cidadão. Tratou de se mandar rapidinho, tropeçando nas bugigangas encontráveis pela frente. Ah, se a molecada deixasse seus brinquedos no lugarzinho certo...

Próximo à porta principal, o fulano escorregou num tombaço, conseqüência de um feito anterior da empregada: chão enceradésimo. Mulher cabeça de vento! - foi o derradeiro pensamento da vítima, seguido de cabeça quebrada, comemoração guerreira da barataiada, urros e vivas.

Igual exército de formiguinha em desenho animado do pato Donald, o exército marrom carregou o defunto fresco ao quintal, retalhando o corpo cuidadosamente, para caber direitinho no compact-disc voador. O gato da casa, vítima 12 no cargueiro do pequeno OVNI, cheirava a esgoto - não que esse odor não fosse familiar a uma comunidade baratológica...

Qual seria a próxima vítima? Guerra nuclear poria um fim à tal raça humana, cedo ou tarde; no entanto as baratas, com o extermínio de seres humanos descrito aqui, se anteciparam ao destino. Tinham raça, um exército numeroso, esperar para quê?

Passo seguinte: buscar o número 14. Conforme o plano, na mesma madrugada chegariam à vigésima-primeira vítima. Na casa ao lado, um moleque jogava paciência no computador.

Nessa aventura revolucionária, baratas demonstraram possuir uma certa paciência...

(Texto publicado na seção de crônicas de um extinto portal de internet, a três dias de 2001. O portal acabou, mas consegui gravar os textos da seção. De HD em HD, este texto sobreviveu, feito barata após explosão nuclear)

Um comentário:

Carla Ceres disse...

Esse foi pro Twitter. É muito legal! Beijos!