3 de jul de 2010

A mulher que eu amo (ou amava?)

Eu admiro a coragem do Roberto Carlos. Ia dizer que aprecio a cara de pau dele, mas não é essa a expressão. É "coragem" mesmo.

Pra começar, ele sobreviveu a cinquenta anos de carreira. Popstar que se preze ou morre no meio do caminho e vira mito - vide Michael Jackson, Elvis Presley e Paulo Sérgio - ou sobrevive à roda-viva, envelhecendo em público sem pudor das rugas da voz e da alma. Roberto, desnecessário dizer, escolheu a segunda alternativa.

Que coragem!

Antes de ser Jovem Guarda, nosso Rei tentou ser Bossa Nova, sendo imediatamente rejeitado pelos mauricinhos da Zona Sul carioca. Até gravou aquele disco "Louco por você", uma salada de sub-bossas, quase-rocks e anti-versões. O cantor considera sua estréia em LP ruim por um detalhe pequeno: a desafinação numa das faixas. E engavetou o vinilzão.

Mais coragem pro currículo.

Depois do sucesso da Jovem Guarda, onde enfiava ouvidos abaixo das menininhas o acompanhamento vagabundo daquele órgão pilotado por Lafayette, dando aos seus rocks e baladas uma vestimenta de música de igreja no domingo, o cantor virou adulto.

Rasgando a voz, feito um sub-negão da Motown, resolveu incorporar suíngue à sua música, na trilha da moda dos nascentes anos 70. Isso antes de virar um romântico incorrigível e duradouro, com pitadas de fé explícita, bem antes dos padres-cantores gravarem seus discos.

Haja coragem!

E coragem é o que me motivou a escrever algumas linhas sobre a mais nova canção de Roberto Carlos, divulgada na novela das nove da Globo, Viver a Vida.

A canção se chama "A mulher que eu amo", de autoria somente do cantor. A música saiu no CD da trilha sonora da novela, foi liberada para download pago em alguns sites e ganhou as avenidas da web.

Percorri as tais avenidas e conheci "A mulher que eu amo". Conheci a música, não a mulher da música.

Como os fãs de Roberto Carlos devem saber, a mulher que a tal letra descreve e exalta só pode ser a falecida esposa dele. É sabido que o cantor tem composto exaltações sem fim à finada, e que reforçou esse sentimento para além da arte, nas entrevistas concedidas após o trágico desenlace.

E a canção só reforça a minha opinião sobre a coragem de Roberto Carlos. Exaltar uma mulher falecida usando verbos no presente não é pra qualquer um. Como também não deve ser fácil ser Roberto Carlos em tempo integral. Mas isso vocês já sabiam.

De qualquer forma, o Rei ainda não perdeu a majestade. E a coragem.

2 comentários:

carvalho disse...

pra variar, texto muito bom.
agora, roberto carlos, puts, onde é que você foi procurar esse assunto, hem?

Érico San Juan disse...

Valeu, Artur. Para achar alguma coisa sobre o assunto, eu tive que achá-lo primeiro...