17 de abr de 2014

Amiga da infância

"Escute esse CD aqui", foi o pedido da amiga cantora. Olhei a capa, com um gato de óculos escuros, um tubarão, um lobisomem, um fantasma e um bebê.

Velho apreciador de músicas, histórias e arte feitas para crianças, peguei o encarte e comecei a abrir. Eram cores e colagens e letras pedindo para serem apreciadas.

Pedido atendido. Fui ao site da banda Éramos 3, do CD Quando eu crescer. Todas as canções para baixar, com encarte e tudo. E o velho admirador da arte infantil atendeu ao desejo seguinte: ter o CD em mãos.

Encomendei numa dessas lojas virtuais, três dias depois chegou o presente. A satisfação, igual à que tive quando ganhei um Playmobil circense, na passagem dos meus nove anos.

A curiosidade aumentou. Quis saber quem tinha feito as músicas, os versos, o encarte do CD. De onde vinha tanta singeleza, simplicidade e bom humor. O YouTube me ajudou, o Google também.

Éramos 3 era uma banda de amigos que geraram um único CD, criado e desenvolvido ao longo de vários anos. Em incontáveis fins de semana. Desses que os muito ocupados usam para brincar de arte. E como crianças, brincarem com toda a seriedade.

De fim de semana em fim de semana, a feitura do CD teve um fim. Fabricado, ganhou vida de verdade quando ganhou o Prêmio de Música Brasileira, em 2011, competindo com gigantes da canção para crianças. Um grupo mineiro, meio quietinho, que talvez se considerasse um Pequeno Polegar nessa história. E a cantora e compositora do grupo, a Fernanda Sander, tratou de arrumar um vestido chique para a entrega da honraria no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

Inquieta, sapeca e levada da breca, a professora de português e de musicalização tem origem paranaense, foi educada em Minas Gerais, morou em Piracicaba e agora bate cartão em São José dos Campos.

Em todos esses lugares, Fernanda espalharia seu cancioneiro, em CDs produzidos com seus alunos, nas escolas onde deu aulas. As experiências em sala lhe deram o impulso para o canto, as composições, a voz própria. Um trabalho autoral totalmente comprometido com o desenvolvimento de uma voz própria para seus pequenos.

Depois de alguns espetáculos de grande aceitação em solo mineiro, o Éramos 3 alçado à condição de popstar local, crianças parando Fernanda na rua para sorrisos e autógrafos, eis que a brincadeira acaba. Agora era apenas uma, a Fernanda.

E como a brincadeira - e o espetáculo - jamais podem parar, ela olhou a última canção do CD do grupo - Pé de Poesia - e a fez o nome de seu projeto-solo, reunindo tudo o que já oferecia à molecada. Músicas, oficinas, versos, shows. O fruto inicial desse Pé saiu em 2013: o CD "Para dar flor".

No mesmo ano, a singeleza e a suavidade da compositora para crianças tiveram voz num disco "adulto": "Baladinhas de amor e dor de cotovelo". Nada de amores fracassados, nada de amargura autocomplacente, nada de sentimentos arrevesados.

Por mais que o amor seja uma caixinha de surpresas, feito certas partidas de futebol, Fernanda aposta nos momentos plácidos das relações (No silêncio solto do meu coração), no otimismo (O nosso amor dá certo), nas metáforas e nas imagens dos sentimentos (Tabela periódica, Lado A e lado B), na afirmação da ternura (Te procuro, Benzinho).

A diversidade de gêneros musicais do CD, como o blues, que podem até sugerir maiores conflitos ou situações descritas de forma mais incisiva, apenas reforçam a vitalidade de uma artista de voz muito pessoal. A voz da Fernanda.

Seja para crianças mais novas ou mais crescidas, feito este que vos digita, a artista humaniza a quem pode ter se esquecido de ser humano. E ensina a ser humano a quem ainda não sabe ser.

Fernanda Sander, a nova amiga de infância de Julia Simões, a cantora que me pediu para ouvir o CD do Éramos 3, é uma das melhores amigas da infância que já conheci.

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