14 de fev de 2014

Emoção bem-acompanhada

Era um sábado, com um calor maior que esse de agora: o calor humano. A intérprete sentou-se, apresentou-se, sorriu e entoou os versos: "As águas correm para o mar, as flores são o jardim..." E chorou, e recebeu os aplausos, e pediu desculpas pelas lágrimas.

A lágrima digna dos intérpretes de verdade, naquele sábado quente de 2013, era a de Julia Simões, cantando "Tudo em mim", que nomeia o CD-songbook de Toninho Brandão, empresário de Piracicaba, interior de São Paulo. Bem que ele gostaria de estar presente ao lançamento com a voz e a emoção de Julia. Um CD com bossas novas, boleros, sambas. Ritmos e gêneros do século passado, nada antigos, simplesmente eternos.

Tudo em Mim foi gestado ao longo de oito anos, 2001 a 2008. De trinta canções gravadas, Julia escolheu dezessete para o disco. A versatilidade do compositor, ao som de sua caixinha de fósforos, dá um sabor de variedade ao conjunto de canções. A voz de Julia, grave e suave, acompanha as nuances de cada verso, emoldurando os sentimentos ora intensos, ora plácidos expressos por Toninho.

"Maria da Graça" é a lamentação suave do homem que clama pelo colo da amada. "Malandro" é a reflexão na cadência do samba de uma pessoa que não vive longe do grande amor. "Barco amarelo" é a exaltação de quem anuncia sua chegada, em direção ao abraço da companheira, em levada de samba-rock. "Coração" traz a boêmia, a fumaça de cigarro, a paixão perdida, a madrugada enluarada.

E a lua bem poderia ser um dos símbolos da atmosfera sonora de Sombra e Luz, o outro "filho" de Julia. Se o disco com Toninho veio ao mundo após uma gestação mais longa, o CD com Marcos Cavalcanti teve gravações realizadas em apenas dois dias, ao final de 2012. Intérprete e instrumentista reuniram o repertório do último e deram vida ao conjunto de canções.

A fluência das músicas e versos traz à luz uma densidade musical, uma melancolia, comumente associada aos gigantes da moderna canção brasileira, na tradição dos instrumentistas feito Guinga, um dos preferidos de Cavalcante.

A voz de Julia e o violão de Marcos tem um diálogo harmonioso, e generosamente comportaram outras companhias em algumas faixas: a bateria de Roggero Chiarinelli, a percussão de Ricardo Barros e o pandeiro de Xeina Barros, a viola caipira de Junior Hartung, o acordeon de Thadeu Romano, o violoncelo de Jaques Morelenbaum, presença marcante nas bandas de Tom Jobim e Caetano Veloso.

No texto de apresentação do CD, Marcos credita a inspiração para a maioria das canções às musas de juventude. Ele evoca a brisa e a descontração de sua Bahia em "Refresco", deliciosa música de sóis e sais. Ao irmão, dedicou "Teu Mar". E à filha da parceira de Sombra e Luz, o violonista dedicou "Clara, Clarinha". E canções como "O que pensa de mim", "Momento só", "Solidão" e "Verdade e fantasia", merecem ser ouvidas com toda a atenção que o ouvinte dedicaria a um recital, naquela proximidade que só os grandes portadores de melodias e histórias conseguem com o respeítável público.

E respeitável, e sensível, é a cantora, a intérprete Julia Simões. Que continua trazendo o melhor da nova canção brasileira, junto a parceiros de peso. No compasso da tradição de um país emocionante.

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