29 de set. de 2011

Juízos desajuizados

Emitir um "Ah", assim seco, é sinal de indiferença. Emitir um "Aaaaaahh", assim prolongado, faz toda a diferença.

"É hoje". Frase simples, mas tão plena de significados. Até os que você nem imagina.

Acabei de ouvir alguém desejando "parabéns" a outro, com todas as sílabas da palavra pronunciadas átonas. Não é sincero.

Você quer achar o seu lugar no mundo. Quando acha, ele está ocupado. E aí?

O amor não é cego, não. Ele é meio embaçado, só.

Quando vejo uma mulher dizendo "Seu lindo!" a alguém, sempre acho que é um jeito que elas arrumaram de elogiar sem parecerem melosas.

Individualismo? Não é comigo.

Só há um jeito da mulher não discutir relação na hora do jogo de futebol. É ela se casar com jogador de futebol.

Tem tanto emoticom em linguagem de internet, que quando alguém coloca um ponto final e nada mais, assusta a gente.

O que seria do equilíbrio mental do ser humano sem o exercício das perguntas retóricas?
Não precisa responder.

27 de set. de 2011

Quebrando tudo

Conversa de boteco é algo inebriante. Seja pelos comes e bebes, principalmente os bebes. Seja pela conversa, pelo ambiente. Pena que para cada prazer haja um ônus. No caso, a conta.

Descontando a conta, o que aconteceu no Ponto de Cultura Garapa, em Piracicaba, ontem à noite, contrariou a rotina de uma segunda-feira comum.

O escritor e dramaturgo Mário Bortolotto esteve no Ponto para um papo sobre sua vida & obra. A conversa se deu no clima informal que o nome do projeto pedia. Bem "conversa de boteco" mesmo.

A conversa com Bortolotto teve a mediação de Fátima Monis, orientadora do núcleo de Artes Cênicas do Sesi Piracicaba, e do jornalista Romualdo da Cruz Filho, d'A Tribuna Piracicabana. Papel que ambos desempenharam com a maior das boas intenções. Temperada com opiniões definitivas dos debatedores a respeito do universo do entrevistado.

Talvez para estabelecer o clima de informalidade ao papo, o entrevistador e um ou outro perguntador trataram Bortolotto com certa intimidade - um havia estudado com o autor em Londrina, o outro havia tomado umas e outras com o escritor em Parati. O convidado não passou recibo a nenhum dos dois candidatos a amigões. No entanto, justiça seja feita, tratou-os com a cordialidade possível.

Bortolotto mostrou-se um cara muito convicto de sua entrega ao ofício de escritor. "Eu me registro nos hotéis como escritor. Mesmo que eu seja um escritor ruim, eu sou um escritor". Renegou qualquer rótulo, a começar pelo de "dramaturgo". Rejeitou a sacralização a todo instante. E respondeu com a firmeza que só os verdadeiros artistas emprestam à arte.

Tudo isso sem desrespeitar ou satanizar os colegas e amigos que fizeram outras opções, como escrever para a televisão ou encenar um teatro mais digerível. Mario está na dele, e pronto. Pronto para o que der e vier.

"Eu fiz a opção por uma vida mais pobre, fazendo o que eu gosto de fazer. Por isso não duro mais de um ano com a mesma mulher. Chega uma hora que elas perguntam: 'E aí'? Como é que é?", disse Bortolotto, numa das muitas vezes em que fez o público gargalhar.

Lá pelas tantas, a geladeira do lugar, que trouxe o combustível necessário para a plateia de Mario, foi ficando vazia. A conversa esquentou com o autor expondo sua relação com a crítica. Ele simplesmente não quer saber de críticos, bons ou ruins, embora admita o diálogo com o falecido Alberto Guzik - um crítico que, no fim da vida, virou ator.

Bortolotto não vê autoridade em quem se dispõe a analisar o que ele faz. "Você se dedica por um ano a escrever e montar uma peça, pra vir um crítico e detonar sua peça? Ele não sabe o que você passou pra fazer aquilo. Quem sabe é o autor. E o diretor".

O jornalista-debatedor quis jogar a responsabilidade do discernimento na leitura de uma crítica nas costas do espectador-leitor, no que foi rechaçado por Bortolotto. O melhor reconhecimento para o autor, ao menos no clima de piada de boteco, é "uma garrafa de Jack Daniels".

Pouco a pouco, a postura transparente do escritor efetuou uma quebradeira nas pretensões intelectualóides dos perguntadores de plantão. Por pouco não me quebrei todo também. Não com supostas perguntas desastradas, mas com a cadeira escolhida para me sentar.

Cadeira nova em folha, mas daquelas parecidas com as utilizadas em escolas infantis. Os pés da cadeira vieram abaixo, e este que vos digita beijou o chão sem o menor amor. Ato falho.

Feitas as conclusões, os agradecimentos e o tradicional "quadro de avisos" dos responsáveis pelo Ponto, cerrou-se a porta de aço do boteco da vez. E a vida continua com outros papos, peças e livros por aí.

Mário Bortolotto vai nessa levada, seguindo seu caminho. Ele e quem se dispuser a acompanhá-lo: aos botecos e pela vida afora.


Pra quem aprecia PS, seguem os créditos do projeto, retirados do release no blog do Rodrigo Alves: "A realização do Conversa de Boteco tem o apoio do Sesi, Tusp/Piracicaba (Teatro da Universidade de São Paulo), Casvi, Ponto de Cultura Garapa, Bar Cruzeiro e Apite! (Associação Piracicabana de Teatro)"

25 de set. de 2011

Careca de saber

Vocês sabem como são as mulheres. Quando elas querem alguma coisa, vão até o fim.

Um dos objetivos das mulheres da minha sagrada família é a interrupção da minha calvície. Só que a calvície insiste em contrariá-las.

Moleque, saltitante e feliz, os cabelos do garoto que fui eram como os da minha mãe. A cabeça era coberta pelos fios suaves do DNA materno. Por bons anos, um tom castanho-escuro compunha a cabeça do nerd que só queria saber de gibis e desenho e afins.

Essa cabeça escurecida, que de modo algum queria ser obscura, alcançou os dias indecisos da adolescência. E a indecisão chegou ao auge com a decisão impossível: encrespar os cabelos. De encrespado, mesmo, só o temperamento do cidadão exótico.

E veio a idade adulta. A idade da razão, a idade em que suas razões parecem inquestionáveis. As mulheres da família ficavam mais e mais alarmadas, ao observarem meus cabelos em estado de revolta permanente, manifestada pelos insurgentes com a fuga da minha cabeça.

Adiantava me vangloriar de uma cabeça supostamente privilegiada, teimando em fugir do analfabetismo funcional, se os cabelos não pensavam o mesmo? Nós, eu e meu cérebro, chegávamos ao dilema-Tostines: a cabeça ficava quente porque os cabelos caíam, ou os cabelos caíam por conta da cabeça quente?

Ó, dúvida cruel. Pena que os cabelos não tinham a menor dúvida em abandonar o crânio.

O tempo passou, que ele sempre passa. Depois de inúmeros banhos, cabelos caindo ralo abaixo e fugas premeditadas do espelho, chegou o momento de encarar a dura realidade. A cabeça do adulto genioso dispunha de um mísero chumaço irregular bem na frente da testa.

E o dilema continua. Valerá a pena domar o chumaço solitário com gel, para que ele não se perca ao vento?

Ter ou não ter um tufo indomável na testa, seu Shakespeare? O senhor dramaturgo era careca, ao que me consta. A caveira da peça Hamlet também...

24 de set. de 2011

Cada uma!

Perguntas de criança. Feitas a mim no Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Neste sábado.

- Você não é o Érico San Juan?
- Sou.
- Que deu palestra na minha escola?
- Sim.
- Mas faz um tempão, já!
- Quanto tempo?
- Três meses!

- Você é o Érico San Juan mesmo, né?
- Sou.
- Você é famoso?

Engasguei com a saliva.
Desatei a rir.
- Mãe! O Érico não sabe que é famoso!

Criança diz cada uma!
O Pedro Bloch tinha razão...

22 de set. de 2011

Além dos livros, pousando num CD

Analfabeto ora funcional ora emocional, assumo a cota que me cabe de analfabetismo e insensiblidade. Mas tudo tem sempre um porém.

Graças à descoberta das redes sociais, passei a conhecer artistas com os quais jamais imaginaria ter qualquer contato. Duas dessas artistas pertencem a uma categoria à qual depositei pouca atenção até agora: a dos poetas.

O primeiro e real arrebatamento com um conjunto de poemas já foi declarado neste espaço. Arrebatamento do qual custei a me recuperar. Ainda carrego neurônios sequelados com o livro "Fresta por Onde Olhar".

O arrebatamento seguinte não foi repentino como o anterior. Leituras de crônicas, poemas e mensagens virtuais vieram antes do pacote entregue pelo carteiro do bairro: o CD "Algo além dos livros", A autora dos poemas declamados no disco é Carla Ceres.

A produção do CD foi a premiação pelo pódio da autora no concurso literário do Grupitrupiartes, coletivo de artistas de Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Primeira vez que vejo um autor ser premiado com um CD, e não com a edição em livro da sua obra premiada.

Carla escreve crônicas para os sites Digestivo Cultural e Diário do Engenho. E participa de tudo quanto é concurso literário desta e de outras terras, único reconhecimento que se traduz em alguns trocados para o cartucho de tinta de cada dia da impressora.

A mais recente distinção ao trabalho de Carla veio na classificação para o Mapa Cultural Paulista, concurso bienal promovido pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. A autora representa a cidade de Piracicaba, na primeira etapa eliminatória do concurso.

Voltando ao portão de casa, em estado de graça arranquei o embrulho das mãos do carteiro. Ele me olhou com o estômago embrulhado, empunhando o recibo para a minha assinatura, e foi-se dali.

Antes de colocar o CD no aparelho, olhei a bonita capa de Sara Bentes: um pastel com uma menina correndo de costas para o ouvinte do CD. A interpretação dos poemas de Carla coube ao locutor Adib Khoury. Os comentários musicais ficaram a cargo de "Pepe" Gonzales, Tiago Leme e Carlos César.

O espanto que precedeu a audição do disco veio com o nome do redator da contracapa: Nigermauro Bruno Brasil. Embora cumpra a função de situar minimamente o ouvinte no trabalho poético de Carla Ceres, o tom do texto da contracapa está mais para aqueles discursos de formatura empolados e rebarbativos. Texto tão exagerado quanto os adjetivos "empolado" e "rebarbativo".

Esses senões à embalagem do CD não diminuem, em absoluto, a autora dos poemas. Efetuada a minha rabugice, fui ao que realmente interessava: o olhar diferenciado que só os artistas de coração aberto emprestam ao mundo. Investindo-me uma vez mais no papel de divagante ocasional, dá pra dizer que o mundo nem sempre devolve com juros esse empréstimo. Azar do mundo.

O que me agradou nos poemas foi a sensação de proximidade com o leitor (no caso, do ouvinte) que a autora, com habilidade rara, nos proporciona. Sem prejudicar a beleza das imagens, das metáforas, do estilo elegante, Carla cria versos que despertam a vontade do querer mais, e mais, e mais.

Ou você, caro leitor, não se identifica com odes à timidez, uma timidez que pode ser a sua? Ou com a reflexão presente em "Nosso modo de existir"? Ou quem sabe com um "Alvorecer" iluminado pela poesia de hoje, e não a poesia d'antanho?

A música das palavras nos devolve a sensação de ser, existir e levantar voos numa vida de descobertas, alegrias, angústias. Para desaguar na plenitude de experimentar uma poesia além de adjetivos pomposos, juízos incompletos e imperfeições resenhísticas.

Vá ao blog de Carla Ceres, e prove das amostras dessa poeta com seus próprios olhos. Depois me conte o que achou.

PS. Infelizmente, não consegui reproduzir a capa do CD comentado. A título de ilustração, segue a caricatura que fiz da autora, na capa do meu jornal Caricaras.

4 de set. de 2011

Caricaturas na Caterpillar, Sesi e Salão de Humor

Nas últimas semanas, o que mais tenho desenhado é caricatura ao vivo.

De 8 a 12 de agosto, participei da Sispat 2011, na Caterpillar Brasil. Em vários turnos, inclusive nas madrugadas, fiz um total de 500 caricaturas de funcionários da empresa.

Neste primeiro fim de semana de setembro, houve o Meeting Sesi-SP, no CAT Mario Dedini, na Vila Industrial, em Piracicaba.

Numa tarde de sábado e numa manhã de domingo, 180 caricaturas foram criadas e entregues a uma turma de passagem pelo Sesi para as competições esportivas.

Para fechar o fim de semana com chave de ouro e canetas esvaziadas, dediquei a tarde desse domingo ao inicio da maratona de caricaturas no Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

Cerca de 100 visitantes do Salão levaram para casa suas caricaturas feitas nas capas do novo Jornal Caricaras, o jornal que é a cara de quem o adquire. Entre casaizinhos, mães, pais e filhos, todos sorridentes como nunca.

Em breve, tem mais caricaturas no Salão de Humor. Assim que eu comprar canetas novas...

(Os registros das minhas performances na Caterpillar foram feitos pela Ana Gava. A quinta foto da série é da Alessandra Argenton Barbosa. Para ver as imagens maiores, clique nelas).

3 de set. de 2011

Encontros marcados

Há doze anos, fiz algo inusitado: conheci um escritor ao vivo, fora de Bienais e eventos literários. Entrei em contato com ele, que me recebeu em sua casa.


Era um autor da minha infância. Culto, articulado, engraçadíssimo. A cara dos livros dele.


Fiquei muito amigo do escritor. Hoje, recebi do amigo a melhor notícia do meu dia. Ele conseguiu se recuperar de uma doença grave. E lançará dois livros em 2012.


Semana que vem, após doze anos do primeiro encontro marcado, terei um segundo. Desta vez, com uma escritora.


A literatura faz milagres. Entre eles, o da aproximação além-livros. E eu acredito em milagres.

1 de set. de 2011

31 de ago. de 2011

Abre a janela... e o livro também!


A capa ao lado é do livro "Abre a Janela!"

O livro é uma produção das crianças que participaram de uma oficina no Educomunicamos! Ponto de Cultura.



Divirta-se!

30 de ago. de 2011

Do limão, uma limonada. E uma noite de autógrafos


Da Oficina de Livro Infantil feito por Crianças, no último dia 20, saiu o livro-poster Abre a Janela! Feito por elas: das ideias aos personagens, com ilustrações e tudo.

O livro foi lançado neste 30 de agosto, em noite de autógrafos e exposição com os desenhos da Oficina, no Ponto de Cultura Educomunicamos.

Cada criança autografou seu exemplar. E o levou para casa, para alegria dos pais corujas.

Nesta semana, o livro estará disponível integralmente aqui no blog. É só aguardar.

Pronto!


É hoje o lançamento do livro feito com as crianças!
Confira o toque do pessoal do Educomunicamos sobre a programação da noite, abaixo.
"Nessa terça-feira, dia 30/08/2011, no horário de entrega da Rede de Produção e Consumo Responsável de Piracicaba, das 18h às 20h, haverá:

- Noite de autógrafos do livro "Abre a Janela", produzido na Oficina de criação de livro infantil, ministrado pelo cartunista Érico San Juan. Além dos autógrafos, haverá uma exposição com os desenhos feitos pelas crianças (início às 19h).

Piquenique. Compartilhamento, degustação, exposição e troca com os outros consumidores e produtores da Rede.

Local: Sede do Instituto Terra Mater - Educomunicamos! Ponto de Cultura - Rua 13 de Maio, 449, Centro - Piracicaba - F. (19) 3375-0508"

29 de ago. de 2011

20 anos de carreira, 20 amigos

A foto de Fabricio Eiras mostra a turma de cartunistas que prestigiou a abertura da minha mostra paralela do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, ontem de manhã.

Depois de tanta emoção, não preciso dizer mais nada.

A não ser que você, leitor desse blog, visite o Salão, a minha mostra e as outras vinte e tantas que compõem o evento este ano.

23 de ago. de 2011

CONVITE: Mostra "20 Anos de um Pamonha de Piracicaba" (Salão Internacional de Humor de Piracicaba)

Saiu o convite oficial da minha mostra no Salão de Humor.

Leitores e amigos: sintam-se automaticamente convidados.
E cliquem na imagem para vê-la maior.




Há quem confunda...

... egoísmo com individualismo.

... fantasia com expectativa.

... extroversão com superficialidade.

... timidez com arrogância.

... bondade com ingenuidade.

... hiperatividade com histeria.

... serenidade com inércia.

... reconhecimento com puxada de saco.

... admiração com submissão.

... firmeza com coração duro.

... sensibilidade com choradeira interminável.

... posicionamento enfático com ranhetice.

... mau humor com senso crítico.

... explanação com tagarelice.

... propaganda com aporrinhação.

... especialização com nerdice.

... seriedade com chatice.

21 de ago. de 2011

Crianças felizes que não quebraram os narizes

Estou fazendo a edição do livro-poster criado na nossa Oficina de Livro Infantil feito por crianças. Minha e delas.


Os risos insistem em não abandonar minha boca. Risos derivados das gargalhadas emitidas pelas crianças na atividade.

A obra será lançada no dia 30 de agosto, em noite de autógrafos no Ponto de Cultura Educomunicamos, em Piracicaba, às 19 horas.

Em breve, muito breve, divulgarei a capa do livro-poster. Um suspensezinho nunca fez mal a ninguém.

20 de ago. de 2011

Sócrates

Há dois anos, eu estava suspirante na Avenida Paulista, em São Paulo.

Tinha feito na cidade tudo o que precisava, o que gostaria, o que não precisava. Uma pena danada ter que voltar à minha cidade em plena sexta à tarde. Resolvi ir ao Conjunto Nacional, na gigantesca Livraria Cultura, esperar o horário do último ônibus de volta.

Na Livraria, fui andar pelos andares todos. Após olhar todos os CDs e DVDs possíveis e imagináveis, fui ao andar do Teatro Eva Herz. Olhei uma placa, que anunciava a transmissão, naquele fim de tarde, de um programa de rádio chamado Fim de Expediente.

Uma vez ao mês, aquele teatro era utilizado pela rádio CBN para acomodar o público do programa, conduzido principalmente pelo ator Dan Stulbach.

Olhei a placa. Ela anunciava a distribuição gratuita de ingressos ao respeitável público dali a... cinco minutos! Sem piscar, me coloquei como um dos primeirões da fila. De graça, até programa de rádio na testa.

Na fila, após meia hora, puxei papo com um casal. Animado por estender um pouco minha estada paulistana, saquei de alguns jornais, onde desenho as pessoas nas capas, e comecei a caricaturar meus interlocutores.

Após as risadas e o agradecimento dos pombinhos pela cortesia inesperada, olhei para trás e presenciei outro ser improvável. O ex-jogador e atual médico, irmão do Raí, ex-craque da Seleção Brasileira de Futebol, estava com duas pessoas numa roda. Era ele... o doutor Sócrates!!

Sou da geração que teve a infelicidade de ver a derrota de uma das melhores seleções do futebol brasileiro pós-Pelé. Em 1982, eu com seis anos, pela primeira vez odiei um jogador de seleção rival. Aquele cidadão que fez a seleção perder nos pênaltis. E fez meu pai cair do telhado e se arrebentar todo, sem conseguir consertar a antena da TV que insistia em falhar.

Após o fiasco de 1982, acompanhei outros trunfos do dr. Sócrates. Um deles, a Democracia Corintiana. Soube que o jogador chegou a gravar um disco - não ouvi o elepê de capa vermelha até hoje. Décadas se passaram. Cheguei a assistir alguns programas que o cantor de um disco só gravou com o jornalista Jorge Kajuru. Aí, perdi o homem de vista. De vez.

E eis que ele se materializava na minha frente, numa tarde paulistana. Com aquele sotaque tão característico do interior de São Paulo, conversando com a mulher e o irmão, com fala ora enfática ora mansa.

Conhecendo o espírito bonachão de muitos interioranos da estirpe socrática, me aproximei do ex-jogador e puxei papo. O barbudo me tratou com uma simpatia digna dos grandes caras. Até aceitou que eu fizesse uma caricatura dele. O que me foi fácil, fácil. Ele é dos tipos que pedem pra ser caricaturados.

Um ou dois comentários simpáticos depois, dirigidos ao meu desenho e a mim, ele se despediu. Entrou no teatro, eu também. Ele como convidado do programa de rádio, eu como platéia.

A simplicidade do dr. Sócrates poderia iludir quem espera pouco de um jogador de futebol, além da bola no pé e no gol. Mesmo ele fosse um analfabeto funcional, o torcedor aqui seria grato pelos momentos de felicidade na Copa de 82, ainda que atenuados com a derrota para a Itália. Só que o ex-craque, no programa, mostrou uma sabedoria, uma cultura, uma preocupação nada demagógica com os rumos do país.

Contei minha lembrança para puxar uma outra torcida. A torcida para que o doutor, nas mãos de outros colegas doutores, tenha uma recuperação à altura da sua humanidade. Quem é craque na vida sempre pode dar um drible a mais nas dificuldades. Dotado de uma bagagem cultural imensa, Sócrates certamente perdoaria o imenso clichê da frase anterior.

15 de ago. de 2011

Está chegando! OFICINA DE LIVRO INFANTIL FEITO POR CRIANÇAS - Ponto de Cultura Educomunicamos

O QUE É?
No dia 20 de agosto de 2011, das 14 às 16h, o cartunista Érico San Juan ministrará uma oficina de arte para crianças em Piracicaba, no Ponto de Cultura Educomunicamos.
Na oficina, será feita a criação de um livro ao vivo: história, personagens e ilustrações criados pelas crianças inscritas na atividade.
As crianças são desafiadas a resolver um problema entre os personagens: como tirar um amiguinho da frente do seu computador, levando-o a brincar com elas à luz do sol?
Criada a história e escolhidas as ilustrações, o conteúdo é editado pelo cartunista-orientador no formato livro-poster.
Todos os desenhos produzidos na oficina farão parte de uma mostra no próprio local da atividade.
O livro-poster terá lançamento no dia 31 de agosto, às 19h, em noite de autógrafos com as crianças-autoras.

O ORIENTADOR
Érico San Juan é ilustrador e caricaturista desde 1991.
O autor comemora duas décadas de carreira com uma mostra paralela oficial do Salão Internacional de Humor: "20 anos de um pamonha de Piracicaba". A mostra paralela abre em 28 de agosto, às 10h30, na Casa do Povoador.
Sua primeira atividade para o público infantil foi como ilustrador do Jornalzinho, suplemento semanal do Jornal de Piracicaba, entre 1991 e 1997. Já as oficinas de livros criados por crianças existem desde 2005.
A seguir, alguns desses livros, disponíveis no blog ericosanjuan.blogspot.com:





VANESSA E RAFAEL
Livros criados em oficina para alunos da rede municipal de ensino de Piracicaba, em 2005, na Biblioteca Pública Municipal “Ricardo Ferraz de Arruda Pinto”.

Prefácio dos livros pelo escritor João Carlos Marinho, autor dos clássicos infanto-juvenis O Gênio do Crime e Sangue Fresco.


O GRANDE GATO GORDO
Livro-poster criado em oficina na extinta Livraria ParaLer, no Shopping Piracicaba, em 2008.

Capa do cartunista Spacca, autor dos albuns de quadrinhos “Santô”, “D. João Carioca” e “Jubiabá de Jorge Amado” (Cia. das Letras) e ganhador do prêmio Charge do Salão Internacional de Piracicaba (2005).


VIVER É DEMAIS!
Cartilha de segurança no trabalho, ilustrada por filhos de funcionários da Dedini S/A Indústrias de Base (Piracicaba e Sertãozinho, SP), em oficinas de arte realizadas em 2008.





Serviço: OFICINA DE LIVRO INFANTIL FEITO POR CRIANÇAS

ORIENTADOR: Érico San Juan

FAIXA ETÁRIA: 8 a 10 anos

VAGAS: 20

DIAS E HORÁRIOS:

OFICINA: 20 de agosto de 2011 (14 às 16h)
NOITE DE AUTÓGRAFOS: 30 de agosto de 2011 (19h)

LOCAL: Ponto de Cultura Educomunicamos - R. 13 de Maio, 449 – Centro – Piracicaba, SP – F.: 3375.0508

INSCRIÇÕES E INFORMAÇÕES: Somente pelo e-mail: ericosanjuan@gmail.com

INVESTIMENTO: 15 reais (com direito a um exemplar do livro-poster pronto, a ser distribuído às crianças participantes da oficina na noite de autógrafos do dia 31 de agosto, no Ponto de Cultura Educomunicamos)

MATERIAL PARA USO NA OFICINA: Fornecido pelo Ponto de Cultura Educomunicamos

10 de ago. de 2011

Elogios

Receber elogio de graça custa caro.

Receber elogio a seco é chover no molhado.

Receber elogio de interesseiro é nada interessante.

Receber elogio de puxassaco é uma pena.

Receber elogio de gente irônica é um insulto.

Receber elogio de gente lacônica é um troféu.

Receber elogio pelas costas é uma punhalada.

Receber elogio de gente tímida é uma súplica para que devolvamos o elogio a ela.

6 de ago. de 2011

Ficção barata cheirando a naftalina

Acordou e viu que tinha se transformado num ser insone. Que raiva! A preocupação com o tudo de todo dia não o deixara relaxar e dormir o sono dos justos. Voltar a dormir? Imagina. O jeito era vagar feito zumbi até a calma surgir, retornando enfim ao leito sagrado, junto a anjos, santos, querubins, gnomos, anões de jardim e demais entidades anedóticas.

Andou dez mais dez mais dez passos, rumo à geladeira. Um copão de leite? Um rabanete? Limpeza na geladeira? A molecada andava sujeirando com mostarda o gélido espaço. Uma boa botar as pestes para limpar tudo com a língua, não é?

O achômetro do pai de família captava que a meleca iria atrair a atenção de carismáticas baratinhas, como a que o fitava atenta, numa das prateleiras do congelador, e...

Uma barata na geladeira! Mais essa para implodir o meu dia-noite, pensou o zumbi de ocasião. O bicho não saíra do lugar, esperando que o seu companheiro de treva tentasse alguma reação - chinelada, grito de horror, tapa. Essas coisas que a gente sabe que nunca exterminarão as baratas da face da Terra, mesmo oferecendo às tais a outra face para bater.

Cansada de aguardar e confiante de que nada aconteceria, a barata saltou para o ombro esquerdo do sujeito. A curiosidade matou o gato da casa; mataria também o sujeito do sono perdido? Este procurou se contentar com a idéia de ter aquele absurdo em seu corpo, esperando o próximo passo.

Não demorou o desfecho. A barata saltou ao chão, sumindo atrás da geladeira. E o sujeito? Coube a ele verificar a sensação de pele incendiada no ombro pisoteado. Para quem quisesse conferir, um número carimbado na pele: 13!

Diacho de dor! Procurou um algo-qualquer para aliviar a queimadura... Maldita barata, peste desgraçad... Nem completou a frase. Da geladeira, um exército de antenudas carimbantes rastejou em sua direção.

Nisso, bateu o sagrado instinto de sobrevivência no distinto cidadão. Tratou de se mandar rapidinho, tropeçando nas bugigangas encontráveis pela frente. Ah, se a molecada deixasse seus brinquedos no lugarzinho certo...

Próximo à porta principal, o fulano escorregou num tombaço, conseqüência de um feito anterior da empregada: chão enceradésimo. Mulher cabeça de vento! - foi o derradeiro pensamento da vítima, seguido de cabeça quebrada, comemoração guerreira da barataiada, urros e vivas.

Igual exército de formiguinha em desenho animado do pato Donald, o exército marrom carregou o defunto fresco ao quintal, retalhando o corpo cuidadosamente, para caber direitinho no compact-disc voador. O gato da casa, vítima 12 no cargueiro do pequeno OVNI, cheirava a esgoto - não que esse odor não fosse familiar a uma comunidade baratológica...

Qual seria a próxima vítima? Guerra nuclear poria um fim à tal raça humana, cedo ou tarde; no entanto as baratas, com o extermínio de seres humanos descrito aqui, se anteciparam ao destino. Tinham raça, um exército numeroso, esperar para quê?

Passo seguinte: buscar o número 14. Conforme o plano, na mesma madrugada chegariam à vigésima-primeira vítima. Na casa ao lado, um moleque jogava paciência no computador.

Nessa aventura revolucionária, baratas demonstraram possuir uma certa paciência...

(Texto publicado na seção de crônicas de um extinto portal de internet, a três dias de 2001. O portal acabou, mas consegui gravar os textos da seção. De HD em HD, este texto sobreviveu, feito barata após explosão nuclear)

Tinha Santiago no meio do Caminho

Aviso importante: a primeira pessoa deste texto é absolutamente falsa. Ou não, sei lá.


No meio do caminho, meus pés estacionaram no que parecia ser um restaurante, no meio do deserto. Três dias seguidos de caminhada, morrendo em pé, preferia morrer deitado. Era necessário acreditar na existência de algo, senão a morte viria, sem sombra de dúvida, na aridez do deserto.

Arrastei o corpo ao salão principal do restaurante. Lugar quente pra diabo, pra anjo ou pra qualquer um, o salão trazia uma decoração até interessante, que neutralizou temporariamente o calor do momento. Os quadros na parede sugeriam festas suntuosas, banquetes nababescos, orgias gastronômicas intermináveis. O desejo de sorver apenas um golinho dágua persistia.

E ela chegou. Apresentando-se como senhora Santiago, a dona da esperança. Frase bonita? Que nada: Esperança era o nome de sua filha, disputada por todos os andarilhos, segundo o relato orgulhoso da senhora Santiago. O viajante que vos fala queria comer o que se come normalmente num restaurante, não uma Esperan... bom, esquece.

"A Esperança é a última que morre", exclamou a mãe de Esperança. Até aí, morreu Neves, refleti, o que me relembrou a existência de um estômago pedindo socorro - o meu -, e uma garganta ressequida - a minha. Neves era um bom sujeito, lembrava neve derretida, o mesmo que água... Aquela senhora jamais pararia de falar sobre sua filha, não fosse impedida.

"E a Luz foi feita!", gritou a senhora Santiago. Outra frase-feita, pensei, buscando socorro nos meus desgastados neurônios. Dos fundos do restaurante, trajando um avental amarelado e limpando as mãos, surgiu a tal Luz. Esperança que era bom, never. Nisso, o sinal vermelho de minha velha e boa sanidade piscou, após dias de sol fervente aplicado na moleira.

Postei-me de joelhos diante da velha, implorando por um copo dágua, pelo amor de Nossa Senhora, de Deus, do diabo que a carregue!! Estupefata, a senhora Santiago se mandou para a cozinha, deixando à minha frente uma Luz de olhos arregalados. Era a gota dágua. Desmaiei, faltou Luz nessa hora.

Quando dei por mim, estava deitado sob uma palmeira, esperando minha hora chegar, com esperanças que o relógio do tempo estivesse atrasado. Ao meu lado, um livro de Paul Rabbit, a seguinte frase estampada numa de suas páginas: "O universo conspira para que você realize seu pior pesadelo".

Recorrendo a uma energia inexistente, mandei Paul à ponte que partiu, concluindo que meu sonho, percorrer o caminho de Santiago e encontrar a iluminação espiritual, se tornara de fato um pesadelo. Sem mais delongas, morri. E parti para outro plano, fazer companhia a um tal de Brás Cubas, que morreu de rir da minha desventura contemporânea.