6 de fev. de 2012

Queimando calorias sem queimar o filme

Uma amiga minha falou: "Depois, a gente conversa. Tô morta! Hoje pratiquei spinning!"

Ao ler o apelo, respeitei o último desejo da amiga quase-morta. Porém, tinha uma conjunção no meio do caminho, dessas que nos fazem atiçar a curiosidade. E pular para a frase seguinte, já com a pergunta na ponta da língua.

Afinal, o que é spinning?

Fui olhar no novo pai dos burros, o Google. Ao contrário do que minha imaginação supunha, "spinning" não é uma onomatopéia para espirro de desenho animado. Trata-se da nova maneira de queimar calorias que a mulherada anda adotando. Ou melhor, adota sentada, e não andando: pedalando a magrela bem fixa no chão da academia.

A interessada em perder uns quilinhos - devidamente equipada de toalha, assento com proteção de gel, sapatilhas, água e monitoramento cardíaco - pedala feito um Robinho em busca do gol. Com a diferença que, enquanto o jogador ganha para pedalar, as ciclistas de ocasião querem mesmo é perder. Peso, é claro.

Saber que uma amiga busca a redução de calorias, com a contrapartida justa do aumento da felicidade, é algo louvável. Pena que, para este amigo de amigas, vai demorar um pouco mais para subir novamente numa bicicleta. Esteja ela parada ou bem fixa no chão de uma academia.

Exercício, agora, só o de empunhar verdinhas, para pagar os próximos anos sentado numa faculdade. Morro, mas não me entrego. Bom... depois a gente conversa.

2 de fev. de 2012

O maestro de um turbilhão de ritmos

Escrevi duas vezes a respeito do músico e compositor Mauricio Pereira. A primeira vez foi na página de humor Rio, que eu editava no jornal Tribuna Piracicabana. Em janeiro de 2003, publiquei uma entrevista e resenhas de todos os CDs de Mauricio até então. A segunda vez, no jornal de humor Rio, uma "costela" da página, foi no começo do ano seguinte. Nesse jornal, dividi o texto com meu mano Fábio. Eu escrevia um parágrafo, ele escrevia outro em seguida, numa jam session jornalístico-literária. O texto abaixo é a produção a quatro mãos, com a caricatura a duas mãos (as minhas) publicada na entrevista.

Mauricio é um desses tipinhos paulistanos: magro, alto e antenado. Ouve desde Africa Bambaata até Tonico e Tinoco, sem algodão no ouvido. Ouvir por ouvir, ouvimos ele cantando desde uma versão do Yellow Submarine, do tempo dos Mulheres Negras, até Lamartine Babo, do tempo do Onça. E não nos arrependemos não, compensam nosso dia a dia medonho as invenções sonoras da Terceira Menor Big Band do Mundo até as versões de canções como A Praça, celebrizada em vinil por Ronnie Von, e melodias e letras próprias como Um Dia Útil e Pinguim.

O cara formado pelo rádio da empregada tentou o jornalismo. De galho em galho, foi parar ao lado do filho de Abu, o Antonio, ex-bruxo de TV e colecionador orgulhoso de fracassos teatrais. André Abujamra conheceu o futuro popman num curso de percussão africana. Abu-filho estudava música, Mauricio estudava como seguir a vida. O respeitável acaso acabou partindo ao meio a banda de faculdade na qual André tocava e Mauricio bicava. Nem tanto ao meio, nem tanto aos fios-Terra: do racha, saíram Os Mulheres Negras, primeira aventura musical do duo.

Música e ciência vieram costurada em dois discos, bolachões capas-pretas. Filhotes indiretos de Arrigo Barnabé, surfando na onda da new vanguarda paulistana, nadando de braçada no mercado aberto pelo rock nacional da década de 80, via Warner Music. Valeu pela experiência. E independência aprendida no tapa e na raça. Banda alternativa no rótulo, nada tinha de amadora. A dupla era microempresa, distribuía jornal via mala-direta, tinha fã-clube e caixa postal, tudo conforme o improvável figurino.

Pulamos para os anos 90, cada qual dos Mulheres para seu lado. Mauricio vira crooner do programa Fanzine, da TV Cultura de São Paulo. Marcelo Rubens Paiva, um Jô Soares cover, cáustico, terno, equilibrado pela banda Fanzine. Daniel Szafran, Fernbando Salém, Natália Barros. E o Pereira, lá. Cantando de tudo, todos os dias. Papai Walt Disney, etc. e tal. Pop de todo tipo: metido a besta, besta por si só, de natureza brega ou bregamente chique. Para todos os gostos e desgostos.

Vieram discos-solo, pé no chão: esquema alternativo de distribuição. Na Tradição (1993), resultado dos shows com a banda Natra Tocatudo, foi gravado ligeiro. O tempo escasso das gravações não impediu Mauricio de compor verdadeiros hits: Tudo por Ti, Pinguim, Pan Y Leche.

Se Na Tradição ainda mostrava a voz do Mauricio Pereira como um dos Mulheres Negras,Mergulhar na Surpresa (1998) foi experiência mais radical. Um Dia Útil, por exemplo, é pequena obra-prima confessional, mergulho na rotina de um músico filosofando sobre o significado de sua profissão. Com Daniel Szafran a tiracolo.

Depois de um período quebra-pedra, onde raps com letras saíam da cabeça para uma provável ideia de disco novo, Canções que um Dia Você já Assobiou pinta na parada, em 2003. Para quem torce o nariz com O Amor e o Poder, vem Pereira e - pimba! - trama um arranjo de provocar satisfação em neurônios rebeldes. Para os desavisados, uma Galopeira que mais parece uma mexicana tresloucada de cabaré. E, a provar que o pop não sobrevive sem um momento for lovers, salta a improvável veia romântica de um reconhecido humorista musical: Lamartine Babo, na clássica Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda.

O show é uma festa, o disco que veio do show é um espetáculo. Quem quiser e puder, troque o Roberto Carlos de cada ano por um Pereira que pinga de três em três ou de quatro em quatro anos.

Nota pós-2004: Após a primeira publicação do texto acima, Mauricio lançou o autoral Pra Marte (2007) e mais um projeto de releituras bem-humoradas de clássicos da música brasileira: Carnaval Turbilhão (2010). Sem falar na dupla neocaipira formada com seu filho: Pereirinha & Pereirão. E o espetáculo continua!

1 de fev. de 2012

Contos mínimos que não são de fadas

1- Escolheu o melhor vinho para aquela noite. Mas levou mesmo foi um chá. De cadeira.

2- Por se julgarem um casal elegante, ela e o marido jamais admitiam aos amigos que tinham juntado os trapinhos.

3- Dizia aos amigos que "se bastava" sem o ex. Mas bastava estar só pra começar a chorar.

4- Adepta da teoria "morar separada e viver junto", restava a ela brigar com a própria sombra.

5- Reclamava que o parceiro falava pouco ou nada. Mas ficava falando isso o tempo todo na orelha dele.

6- O casal de escritores viveu feliz para sempre. Com os direitos autorais de seus contos de fadas.

7- Aos amigos, reclamava do fígado azedo da mulher. Embora ele, o marido, fosse azedo em todos os órgãos do corpo.

8- Ter levado um pé na bunda foi um tapa na cara.

9- Após pagar um jantar, ouviu da acompanhante: "Azar o seu!" O sorriso sarcástico dela sugeriu a sobremesa: uma torta. Na cara.

31 de jan. de 2012

Você sabia?

O texto a seguir, escrito por este que vos digita, abre o livro Você Sabia?, uma coletânea de trabalhos do cartunista Edson Rontani, pioneiro do humor em Piracicaba. O livro está à venda no site da editora Marca de Fantasia.

Edson Rontani nasceu em 1933, em Piracicaba, SP, cidade-berço do famoso Salão Internacional de Humor. Quadrinhista e colecionador da Nona Arte, começou seu hobby nos anos 1940, tempo em que as histórias em quadrinhos enfrentavam preconceitos e rejeição da sociedade. Cartunista, realizou os primeiros "salões de caricaturas" em Piracicaba nos anos 1970, precursores do atual Salão Internacional de Humor. Chargista, deu forma ao personagem-mascote do XV de Piracicaba, o Nhô Quim, criando charges antes e após os jogos do time de futebol, reproduzidas na imprensa local por mais de quarenta anos. Fanzineiro, teve a idéia de realizar intercâmbios com fãs de quadrinhos e criar uma publicação amadora do gênero, antes de qualquer fanzine brasileiro existir.

Em 1981, o trabalho de Rontani estava consolidado e reconhecido entre os leitores dos jornais em Piracicaba. Nesse ano, o artista cria Você Sabia?, seção de curiosidades ilustradas, para o novo suplemento infantil de O Diário. Inspirado em seções similares das revistas e suplementos infantis de sua infância (O Tico Tico entre elas), Você Sabia? mostra a capacidade de Rontani como ilustrador e redator. Cativava o leitor infantil pelo humor dos desenhos. E conquistava os adultos pelo "conteúdo almanaque" dos textos, sem perder o enfoque didático.

Inicialmente, Você Sabia? não tinha um formato definido em O Diarinho. Compunha-se de dois ou três quadros, dispostos de forma variável no suplemento. Quando o tablóide infantil transformou-se em página semanal, Você Sabia? passou a ocupar um terço do espaço, no rodapé, até 1988. No ano seguinte, o Jornalzinho, tablóide infantil doJornal de Piracicaba, passa a publicar a seção, agora em página inteira. Rontani produziu Você Sabia?até 1997, ano de seu falecimento. Por iniciativa de seu filho Edson Rontani Júnior, a página de curiosidades voltaria ao Jornalzinho, todas as semanas, a partir de 2003.

Em cinqüenta anos de atividades no humor gráfico, Edson Rontani encontrou raras oportunidades de ver seu trabalho reunido em livros ou coletâneas, a não ser em iniciativas editoriais irregulares e esparsas, como no álbum Charges, edição do autor em vários volumes, reunindo os primeiros desenhos, feitos para o Diário de Piracicaba na segunda metade da década de 1950. No monumental A História do XV , editado em 1985 pelo historiador e jornalista Rocha Netto, as charges do Nhô Quim ilustram os grandes momentos do time. No livro-coletânea Os Quinze de Piracicaba, editado pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, em 2003, Rontani é um dos artistas enfocados. Sua importância como abre-alas do humor local é lembrada em "A cidade onde o peixe ri: um esboço da história do humor gráfico em Piracicaba", ensaio que abre a coletânea.

A edição de Você Sabia? pela Marca de Fantasia apresenta o trabalho de um artista raramente reconhecido além dos limites de sua cidade-natal, porém com qualidades que o colocam entre os grandes cartunistas e quadrinhistas brasileiros. Que este livro seja o primeiro de uma longa série, trazendo todas as facetas artísticas do genial Edson Rontani.

30 de jan. de 2012

Não é todo dia que aparece uma cantora assim

Até outro dia mesmo, a oferta de cantoras ao respeitável público se dava via rádio. O ouvinte, devidamente seduzido, dirigia-se à loja de discos mais próxima, para comprar o hit impresso nos sulcos do vinil.

Outras canções, além do hit radiofônico, completavam o vinil. A cantora viajava Brasil afora, divulgando o disco ao vivo em shows. Fechada a turnê, pensava-se no disco seguinte.

Só que o tempo passou. Hoje, há as cantoras das multidões, feito Ivete Sangalo. Mas existem as cantoras da hora, como Paula Fernandes, de vida incerta na próxima hora. As intérpretes cumprem, com ligeiras diferenças de época e mídias, o roteiro descrito no primeiro parágrafo.

E as cantoras nascidas na internet? Que não vivem de música, mas para a música? Elas abrem espaços no peito, na raça, no coração. Inclusive Danny Reis.

Ao contrário das divas à la Marisa Monte, o perfil das cantoras-internet feito Danny é acessível aos seres humanos "normais", como este normal que vos digita. Tão normal, que a conheci numa lista de discussão de música na internet, a M-Música. Lista que marcou as vidas de quem participou dela. E tão marcante, que gerou parcerias entre os membros do espaço virtual, para além das trocas de e-mails e idéias. Danny Reis fez seu primeiro CD apenas com canções feitas por membros da lista.

O CD Todo Dia, nesta época de MP3 invasores de I-Pods indefesos, é uma festa para os olhos, antes de chegar aos ouvidos. A embalagem não é um estojo de plástico, um CD tradicional. O formato é o de revista de bolso, em papel cuchê e arte preto-branco-amarela. Abre-se a revista, e o CD está protegido por um envelope amarelo.

Um poster gigante, devidamente dobrado pra caber na embalagem, traz as letras das canções, os créditos dos compositores, as fotos da gravação em estúdio. Tudo perfeitamente legível, em dimensões decentes. Os olhos dos apreciadores da música brasileira agradecem.

Olhos satisfeitos, passemos aos ouvidos. O CD traz uma multidão a serviço da beleza. A voz de Danny Reis é a placidez em forma de canção. Os parceiros de poesia (Zé Edu Camargo, Gulvandro Filho, Etel Frota, Cacala Carvalho, Alexandre Lemos. Léo Nogueira, Tony Pelosi) misturam-se aos senhores das melodias (Sonekka, Felipe Radicetti, Adriana Barreiros, Iso Fischer, Guilherme Rondon). Zé Rodrix (autor de "Casa no Campo" com Tavito e integrante do trio Sá, Rodrix e Guarabyra) também aparece na ficha técnica como parceiro de Zé Edu Camargo em "660 Huntington Blues".

O que soa ainda mais agradável no disco de Danny Reis e a ausência de megalomania autoral que acomete tantas novas cantoras, assim que se veem prontas para gravar o primeiro CD. Vozes prontas para cantar, e não para dizer algo relevante, poeticamente falando. Isso não significa que Danny deixe de lado a aventura do eu-lírico.

A intérprete assina a letra de "Palavras", emoldurada pela música de Felipe Radicetti. Se a paixão pela música encontra espaço no coração da intérprete, as palavras trazem vida a ela. Segundo Danny, em pequeno depoimento no encarte-poster, sua primeira letra saiu "quase psicografada". Um ótimo começo.

A produção de Tony Pelosi se mostrou acertada, ao deixar que os poucos (e bons) acompanhantes sonoros não competisssem com a titular do CD. As molduras por vezes camerísticas nas faixas mais intimistas não soam monótonas, pelo contrário. "Seda da China", de Adriana Barreiros e Zé Edu Camargo, poderia ser a trilha-tema de um templo budista. "O que eu quero", de Danny, Tony e Léo Nogueira, ilustrariam aquele fim de tarde preguiçoso, espreguiçante, antes do bocejo final para a despedida de um fim de semana calminho.

Os sambas, que aparecem a partir da nona faixa, não destoam da suavidade das faixas anteriores. "Francamente", de Iso Fischer e Etel Frota, tem clima de choro tocado em boteco. Danny dá a dica do clima da canção no encarte: "A gente preferiu chorar de alegria mesmo". A melancolia de "Fim de Carnaval", criada por Sonekka e Gilvandro Filho, é daquelas que teriam lugar nas antologias de grandes momentos da música brasileira, se levadas a um público maior.

"Todo Dia" (faíxa-titulo do disco, parceria de Guilherme Rondon e Alexandre Lemos) fecha o trabalho com uma frase lapidar. Para o feliz ouvinte, é um convite a uma convivência permanente, não mais entre curioso e cantora, mas entre fã e cantora: "Eu e você, todo dia".

Outros trabalhos virão, divas ao velho estilo virão e irão embora. Danny Reis fica.

21 de jan. de 2012

Os Quinze de Piracicaba

O XV de Piracicaba está de volta à divisão de elite do Campeonato Paulista e à boca do povo. O time de futebol que muitos conhecem apenas pelas piadas do Casseta & Planeta, programa que andava com a bola murcha.

Falando em humor, o time tem lá suas ligações com o humor praticado em Piracicaba. Mesmo que apenas para efeito de trocadilho.

Em 2003, o Salão Internacional de Humor da cidade publicou, em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, o livro Os Quinze de Piracicaba.

O projeto do livro surgiu a partir de conversas com os cartunistas da cidade e o Salão. Gualberto Costa, que em dupla com Jal inventou o Troféu HQ Mix e por vários anos esteve envolvido com o evento, sugeriu uma obra reunindo os cartunistas piracicabanos de várias gerações.

Em Salões anteriores, houve mostras paralelas dos artistas agrupados sob a alcunha "Pamonhas de Piracicaba". Para não ferir colegas mais sensíveis ("Eu não quero ser chamado de pamonha!"), optou-se por expurgar do livro qualquer referência ao puro creme do milho verde.

Quinze praticantes do humor caipira compuseram a obra. Este cartunista que vos digita, junto a Edu Grosso, atual comandante do Salão de Humor, fomos os editores da obra. Na época, a tarefa de selecionar quinze artistas se mostrou complicada, entre seres vivos, mortos e muito vivos.

Além do prefácio-bênção de Zélio Alves Pinto, irmão de Ziraldo e um dos fundadores do evento, coube a mim a tarefa de contar a história do humor gráfico de Pira. Uma história que, felizmente, ganhou novos personagens e episódios desde então.

O livro ainda está em catálogo e à venda: aqui e aqui. Ainda que sejamos uns pernas de pau, os cartunistas da obra estão dispostos a aceitar pedidos de autógrafo.

16 de jan. de 2012

Neurastenia bipolar de redes sociais...

...em 7 episódios com menos de 140 caracteres cada

SEGUNDA
Porcaria de segunda-feira.
TERÇA
E esse dia que não passa?
QUARTA
Tédio.
QUINTA
Não vejo a hora de chegar o fim de semana!
SEXTA
U-hu!!!
SÁBADO
Olha o Fulano como ficou na balada! (link pros amigos)
DOMINGO
Porcaria de segunda-feira.

13 de jan. de 2012

Qualé seu signo? (parte 4 - final)

CAPRICÓRNIO (22/12 a 21/01)
Um dos signos mais chatos do zodíaco. Ele só pensa em trabalho. Pensa e trabalha também. Obstinado em sua causa, só pensa em vencer na vida, mas gasta a vida pensando nisso. Se você conviver com um nativo do signo, esqueça que é humano, que precisa de férias de vez em quando, essas coisas. Ou você entra na dança, ou muda de companheiro (capricornianos não dançam, por terem o corpo duro). No jantar à luz de velas, fale do seu dia de trabalho: ele vai ficar apaixonado... Rita Lee é uma capricorniana!

AQUÁRIO (22/01 a 18/02)
O aquariano sempre vê mais longe que seus semelhantes. De visão privilegiada, jamais precisará de um oculista: se bobear, ele será o melhor oculista da praça. Como todo adepto de utopias, ele poderá parecer um lunático inconseqüente, com suas teorias malucas. No entanto, pode se tranqüilizar, pois ele será no mínimo garantia de diversão na sua rodinha de amigos (isso se você não viver mais cinqüenta anos para ver suas previsões confirmadas...). Sandy, a cantora que não traz mais o Junior a tiracolo, é do signo.

PEIXES (19/02 a 19/03)
O signatário de Peixes é um tímido. Ele é capaz de passar toda a sua existência sem ser notado, feito o sofá da sala de estar. Sua arma para ser visto e compreendido é a singeleza, nem sempre bem absorvida por este mundo cruel. Como a fantasia é um componente de sua personalidade, terá sucesso desfilando na Marquês de Sapucaí, por exemplo. Para o jantar à luz de velas, por favor não o confunda com os móveis da sala. O ator Alexandre Borges é um pisciano, se é que vocês já não desconfiavam disso.

12 de jan. de 2012

Qualé seu signo? (parte 3)


LIBRA (23/09 a 22/10)
O libriano é a pessoa mais agradável da face da Terra. Quer um ótimo anfitrião, um conversador, um beija-mão inveterado? Pois achou: é ele mesmo. Para o nativo deste signo, o mundo é um lugar onde só há alegria. Se você é corintiano e ele palmeirense, pode ficar tranqüilo, a convivência será pacífica. Jantar à luz de velas com um libriano é garantia de prazer, o seu em primeiro lugar. Ray Charles é um libriano autêntico. Ou melhor... já era.

ESCORPIÃO (23/10 a 21/11)
Esse signo é dose... Para lidar com um escorpiano, é necessário ser vacinado. Apesar do risco de ser picado a qualquer momento, se um nativo do signo for com a sua cara pode ficar sossegado: ele protege os que são fiéis a ele. Mas não queira provar da sua visão penetrante: trata-se de uma experiência... penetrante. Para o jantar à luz de velas, bata na madeira antes de recebê-lo. O Rei do Futebol é um escorpiano. Ele ferrava seus marcadores, entende?


SAGITÁRIO (22/11 a 21/12)
O sagitariano é, antes de tudo, um forte. Não queira tapeá-lo, porque você irá encontrar alguém disposto a fazer justiça a qualquer custo. Se ele não for um advogado, com certeza está cursando Direito. Como todo otimista irrecuperável, acredita na justiça... No seu jantar a dois, não o deixe ver a data de validade do peru: se estiver vencido, ele irá ao Procon mesmo sendo tarde da noite. Britney Spears é do signo, embora ela ainda não tenha se dado conta disso.

Mais signos aqui, na última parte.

11 de jan. de 2012

Qualé seu signo? (parte 2)


CÂNCER (21/6 a 21/7)
Cancerianos curtem o tempo da vovozinha, com vovozinha e tudo. Será preciso que você o desperte para o dia de hoje de vez em quando, alertando-o que sua cabeça precisa de um aspirador de pó para tirar as teias de aranha acumuladas, por exemplo. E vai ser difícil tirá-las, porque ele é um ser sensível... Na grande noite à luz de velas, prefira os vinhos mais envelhecidos que puder trazer: ele vai ter um treco de tanta alegria. O ex-ministro Gil é um canceriano: suas músicas já pertencem ao tempo da vovozinha.


LEÃO (22/7 a 22/8)
Ele é o rei dos animais. Mas os animais são os outros, porque ele é um cara animal! Entendeu o trocadilho, meu rei? Pois é. Leoninos são os reis da cocada preta, os donos da festa, os que botam ordem na muvuca. O mundo gira ao seu redor, e quando a Terra ameaça se voltar a outros interesses, o leonino fica amuado. Mas ele é gente boa, boníssima. No jantar à luz de velas, vai no mínimo contratar uma orquestra, pra tocar só pra vocês. Mick "Rolling Stone" Jagger é do signo de juba.


VIRGEM (23/8 a 22/9)
O melhor é morrer amigo de um virginiano. Porque, se você morrer antes dele, o tal espécime do signo vai ficar reparando em cada detalhe do seu velório, pondo toda a sua (dele) capacidade de observação para funcionar. Morto, você não estará aqui para se chatear com esse neurótico obssessivo. Não o convide para um jantar à luz de velas: se você esquecer de alguma coisa importante, ele vai reparar... Luana Ex-Dado é virginiana. Com essa cara de quem comeu e não gostou, só podia ser mesmo.

Mais signos aqui, na parte 3.

10 de jan. de 2012

Qualé seu signo? (parte 1)


O horóscopo abaixo - redigido, caricaturado e apimentado por este que vos digita - saiu primeiro no meu jornal Caricaras, em 2008. Aos intelectualizados de plantão, recomendo uma leitura sem receio. Horóscopo é igual Big Brother: muita gente fala mal, mas não deixa de dar uma espiadinha.

ÁRIES (20/3 a 20/4)

Para lidar com o ariano, você precisa ter um fôlego de sete gatos ou uma paciência de Jó, o que vier primeiro. Ele é do tipo que pode jogar todo o seu dinheiro na loteria ou falar tudo o que vier à cabeça, seja qual for o interlocutor. Porque ele é assim, todo impulsivo. O ariano não pensa: age. Se você o convidar para um jantarzinho à luz de velas, reze para ele não dizer que detesta vinho e em seguida jogar tudo na sua cabeça. A Rainha dos Ex-Baixinhos é uma ariana, o que diz muito sobre arianos.

TOURO (21/4 a 20/5)
Para um taurino, a rotina imutável é o paraíso. Não o convide para uma escalada de montanha ou qualquer outro programa aventuresco. Ele detesta sair do lugar, feito um boi pastando. Ele também é do tipo que não precisa comprar uma boiada para sair de uma briga: ele próprio é um boi, seu idiota. Para o jantar à luz de velas, pode levar a mesma vela, a mesma toalha e os mesmos talheres do primeiro encontro: ele vai adorar. Jorge Ben é um taurino, olhem só.

GÊMEOS (21/5 a 20/6)

O geminiano deixa qualquer um maluco, pois muda de opinião de cinco em cinco segundos. Seu animal de estimação preferido é o camaleão, embora o Ibama possa se confundir de vez em quando, apreendendo um geminiano no lugar de um camaleão. Domina todos os assuntos, mas só na sua imaginação. No jantar à luz de velas, prepare-se para satisfazer suas fantasias após a sobremesa... Rubinho da Fórmula 1 é um geminiano. Imagina-se um vencedor...

Mais signos aqui, na parte 2.

1 de jan. de 2012

Fogos amigos (amanhecendo surdo em 2012)

Muita gente deve ficar de fogo no réveillon. Pra não ouvir os fogos.

Muitos animais fogem ao ouvir os fogos no réveillon. Eu adoraria fugir dos seres animalescos que soltam fogos desde o último Natal.

Se explodirem rojões na rua, será normal. Se eu explodir com os rojões, serei estraga-prazeres.

Na terra da Bossa Nova, será humanamente impossível ouvir Bossa Nova nesta noite. Os fogos em Copacabana não deixarão.

Estou disposto a ouvir o próximo: o ano todo, em todos os anos. Só não estou disposto a ouvir o próximo rojão que anuncia o Ano Novo.

Não adianta se fazer de surdo no Réveillon. Os fogos não vão deixar.

31 de dez. de 2011

Sem Daniel Piza

Estou tentando absorver o impacto de uma ausência inesperada. Do jornalista Daniel Piza.

O sentimento de perplexidade é o mesmo que tive quando Zé Rodrix faleceu. Zé faleceu aos 61 anos, Piza se foi aos 41. Mortes prematuras.

Eu era leitor fiel do jornalista desde sua atuação como editor do caderno cultural da Gazeta Mercantil, no final da década de 90.

Anos depois, passei a acompanhá-lo na coluna semanal Sinopse, no jornal O Estado de S. Paulo. Por fim, incorporei aos meus hábitos diários a leitura do blog no portal do Estadão.

Na minha memória afetiva de leitor de jornais, a meia página de Piza no Estadão era uma continuação sem excessos do colunismo de Paulo Francis. O jornalista do "Diário da Corte", alíás, mereceu um perfil do seguidor, na coleção Perfis do Rio, da editora Relume Dumará.

Cheguei a me corresponder brevemente com Piza. Mandei alguns exemplares de um jornal de humor editado por mim, dele recebendo uma resposta gentil e incentivadora.

Todos os clichês aplicados a uma perda precoce como essa são válidos. Clichês que Daniel Piza sempre evitou, ao recordar a trajetória de pessoas relevantes que se foram.

30 de dez. de 2011

M de Música, C de Caricatura

Nos primeiros anos do século 21, participei da primeira rede social-virtual da minha existência.

Na pré-história da internet, a conexão discada ia e voltava quando queria.

Mesmo assim, músicos, jornalistas e fãs de música aderiram à lista de discussão M-Música.

Sendo apenas fã, restou-me função nada melodiosa: a criação de caricaturas do pessoal da lista.

Os desenhos ao lado, devidamente aprovados pelos m-musiqueiros, também contemplaram dois membros que já deixaram saudade: o compositor e músico Zé Rodrix e o jornalista Toninho Spessoto.

Ao Zé, ao Toninho e aos companheiros da lista M-Música, dedico esta postagem, como recordação dos dias felizes passados na pré-história da internet.

A única coisa a não deixar saudade foi a conta de telefone daqueles tempos idos. Bendita conexão discada.

27 de dez. de 2011

Caricaturas literárias, retratos nada literais

Os dois caricaturados à esquerda são Clarice Lispector e José Saramago.

Já falei da Clarice aqui. A caricatura dela é conceitual. Olhe o lado mais escuro do penteado dela.

De Saramago, nunca li nada. Sei que ele terminou seus dias numa ilha na Espanha. O cenário do desenho é aquela água.

Por ora, nada mais a declarar. Os dois declararam seus talentos ao mundo. O mundo dos seus leitores.

20 de dez. de 2011

Velhinhos e velhacos

Quem falar mal de Papai Noel, a essa altura do ano, corre sérios riscos de ser mordido por uma rena invocada. Ou levar um tapão da patroa do bom velhinho.

Já tive meus dias de transgressor natalino.

Adolescente puro e besta, com aquele fígado azedo típico dos adolescentes, ilustrava um suplemento infantil de um jornal. Um tempo diferente de fato. Jornais publicavam cadernos para crianças. Um deles empregava um adolescente puro e besta. Este que vos digita.

Só que eu não digitava nada. Desenhava o suplemento todo. Quadrinhos, passatempos. Tudo. As capas também.

Numa capa de Natal, baixou o espírito de porco, em vez do esperado espírito natalino. Um personagem questionava um velhinho descendo do céu: "O senhor é o Papai Noel? Eu não acredito em Papai Noel".

O velhinho, mais para pastor de ovelhas que para bom velhinho, respondeu placidamente: "Acredite na felicidade de uma nova era!"

No dia seguinte, choveram telefonemas na redação do jornal. A maioria de mães zelosas com a inocência natalina de seus filhos.

Hoje, até acredito em Papai Noel. Crer na figura do velhinho é melhor que a crença em velhacos que são umas figuras.

16 de dez. de 2011

Escrever é fácil, ser escritor são outros quinhentos

1. Pessoal briga com namorado ou namorada. Com marido ou mulher. Com irmão ou irmã. Pai ou mãe. Amigo ou amiga.

Aí, pra dar o famoso tapa com luva de pelica no interlocutor da discórdia, procura uma frase de escritor clássico. E posta nas redes sociais.

A atitude de "atitude" confere um verniz de importância à picuinha insignificante do dia a dia.

Belicosos de plantão, expressar sentimentos pra todo mundo ver, vez por outra, nos livra do infarto iminente. Mas copiem as frases direitinho, por favor. E confiram se as palavras definitivas do Verissimo, da Lispector ou do escritor da moda são deles mesmos.

Os amantes da literatura agradecem. Os amantes de plantão, tentem sossegar o facho. Ao menos nas redes sociais.


2. Você tem uma vocação literária.

Trabalha por ela. Deixa que ela comande sua vida. Atravessa as inquietações naturais da existência, amplificadas pela sua sensibilidade ímpar: essa que nunca lhe deixa em paz.

Passa ao largo das benesses da vida, usufruídas por quem não carrega o mundo nas costas, feito você, o escritor de plantão. Finalmente, se vai.

O tempo passa. Sua obra é "compartilhada", destroçada, deturpada e banalizada por uma multidão de iletrados que jamais lerá um livro inteiro seu. De preferência, os fragmentos da obra que mais se assemelhem a lições de moral, conselhos ao estilo autoajuda, frasezinhas de agendinha.

E ainda há quem queira ser escritor.

4 de dez. de 2011

Sócrates (1954 - 2011)


Há dois anos, eu estava suspirante na Avenida Paulista, em São Paulo.

Tinha feito na cidade tudo o que precisava, o que gostaria, o que não precisava. Uma pena danada ter que voltar à minha cidade em plena sexta à tarde. Resolvi ir ao Conjunto Nacional, na gigantesca Livraria Cultura, esperar o horário do último ônibus de volta.

Na Livraria, fui andar pelos andares todos. Após olhar todos os CDs e DVDs possíveis e imagináveis, fui ao andar do Teatro Eva Herz. Olhei uma placa, que anunciava a transmissão, naquele fim de tarde, de um programa de rádio chamado Fim de Expediente.

Uma vez ao mês, aquele teatro era utilizado pela rádio CBN para acomodar o público do programa, conduzido principalmente pelo ator Dan Stulbach.

Olhei a placa. Ela anunciava a distribuição gratuita de ingressos ao respeitável público dali a... cinco minutos! Sem piscar, me coloquei como um dos primeirões da fila. De graça, até programa de rádio na testa.

Na fila, após meia hora, puxei papo com um casal. Animado por estender um pouco minha estada paulistana, saquei de alguns jornais, onde desenho as pessoas nas capas, e comecei a caricaturar meus interlocutores.

Após as risadas e o agradecimento dos pombinhos pela cortesia inesperada, olhei para trás e presenciei outro ser improvável. O ex-jogador e atual médico, irmão do Raí, ex-craque da Seleção Brasileira de Futebol, estava com duas pessoas numa roda. Era ele... o doutor Sócrates!!

(Leia a crônica completa aqui)