17 de out. de 2011

Presente de Noel

Ainda não é Natal. E nem o Noel é o Papai. Esse Noel é o Rosa, um compositor da música brasileira cujo centenário foi comemorado em 2010.

O sambista precursor do Brasil ganhou uma homenagem do Instituto Memória Musical Brasileira e da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro.

No último dia 13, o Espaço Cultural Leila Diniz, em Niterói, abrigou o lançamento do livro e mostra Noel é 100.

Quarenta caricaturas do compositor foram selecionadas num concurso. Duas delas são de desenhistas de Piracicaba: Lucas Leibholz, premiado no Salão Internacional de Humor, e este que vos digita.

Por coincidência, nossos trabalhos estão expostos lado a lado, como você pode ver na minha foto junto à caricatura. A página dupla com a minha participação no livro, de capa dura e edição primorosa, está embaixo da foto.

Estive em Niterói na noite de lançamento do livro e da mostra. Conheci ao vivo vários colegas de traço, sendo ciceroneado pelo cartunista e agitador cultural Zé Roberto Graúna. Outros colegas me receberam com papos e sorrisos: Marco Souza, Glen Batoca e Renan Cristian.

A mostra Noel é 100 fica aberta até o dia 3 de novembro. Detalhes aqui.

15 de out. de 2011

Enquanto seu Lobo não vem

(Tira da série "Variações desvairadas". Publicada no Jornal de Piracicaba em 9.11.2000. Nesse tempo eu tinha opiniões definitivas a respeito de tudo. Hoje, já é diferente. Pra começar, há um pouco de respeito)


O texto abaixo é do tempo em que eu escrevia ficção baseada em manias reais. Lembrei dele ao visitar meu amigo Arnaldo Nogueira Jr., mentor do Projeto Releituras, no Rio de Janeiro. O final da nossa conversa foi justamente sobre Edu Lobo, um gosto em comum. Na volta a Piracicaba, lembrei de outra coisa: tinha escrito a fábula desafinada justamente em homenagem ao Arnaldão.


Era uma fabulosa tarde domingueira. O rapaz saiu de casa, respirou, olhou-se no seu espelho interno só para verificar como continuava sendo o máximo, pegou o carro e foi-se.

Na fabulosa e formosa tarde domingada, o negócio era beber. O rapaz, porém, não queria saber disso. Seu negócio era arrumar um disco de vinil do Edu Lobo, ídolo de seu pai, cujo coração dava mostras de fraqueza, causada por fraquezas várias anteriores. O velho não queria partir de coração partido, queria ouvir o disco que não ouvia há anos. Por não mais tê-lo em mãos, pediu ao filho que o procurasse. E lá se foi o filho a Sampa, terra em que se plantando tudo dá, buscar num sebo o tal disco para o pai semi-moribundo.

O filho do pai desconfiava que o pai resistiria por um tempo finito, com ou sem Edu Lobo. Mas demonstrava certa frieza de sentimentos, pois confiava que encontraria o raio do LP no mesmo dia.

A fabulosa tarde domingueira deu os sinais de que decepcionaria as esperanças do moleque no carro. Veio uma tempestade no meio do caminho. Nuvens pretas dominaram o céu, outrora azul-anil nas entranhas do Brasil-zil. Difícil conduzir o carro numa rodovia molhada, repleta de outros veículos, escura tal qual o sono de um pesadelo.

Centenas de quilômetros e pedágios depois, nada de mais grave ocorreu na viagem. Três horas de viagem, o rapaz chegou a um longínquo sebo de vinis em São Paulo. Era fim de expediente, o dono da loja resmungou em ter que atender a um retardatário, por fim deixou-o procurar o que desejava. Uma fortuna, o Edu Lobo. O filho do lobomaníaco pagou. E voou para casa.

O pai aguardava o rebento no leito de morte, fraco mas animado ao constatar que o filho cumprira seu desejo.

Os olhos do velho brilhavam como nunca. E, num gesto surpreendente, catou o disco do Lobo, rasgou a capa, sacou do vinil e o quebrou em dezenas de pedacinhos. Ao filho, perplexo com a cena, o quase-morto sentenciou:

— Essa é minha lição e meu legado, carregue-o para toda a vida, meu filho. Eu adorava a música desse cara, mas vejo que isso não me serve em nada numa hora destas. Jamais se apegue em excesso às coisas desta vida!

Feito o discurso, o pai do rapaz fechou os olhos e embarcou num sono sem fim. O rapaz propriamente dito não sabia se ficava triste com o passamento do velho ou se se contorcia de raiva com o gesto derradeiro do distinto progenitor...

13 de out. de 2011

"Noel é 100", um livro nota 10

Depois da alegria do lançamento do livro infantil A Pipa Avoada, meu e da Maria Luziano, no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, eis que chega outro lançamento.

Hoje, em Niterói, no Rio de Janeiro, será lançado, às sete da noite, o livro "Noel é 100". Trata-se de uma obra com 40 caricaturistas selecionados para homenagear o centenário do compositor Noel Rosa.

Dois desenhistas de Piracicaba estão no livro: Lucas Leibholz e eu.

Mais detalhes, é só clicar no convite.

12 de out. de 2011

No Dia da Criança, a Pipa Avoada levanta voo...

... e aterrisa no Salão Internacional de Humor de Piracicaba, às 3 da tarde, neste dia 12 de outubro.

O livro-poster terá distribuição gratuita e limitada, no Armazém 14 do Parque Engenho Central, em Piracicaba.

Eu e a Maria Luziano, os autores da obra, estaremos à disposição do público, autografando os exemplares.

Quem não puder estar com a gente, levando seu exemplar d'A Pipa Avoada, poderá acessar a edição virtual aqui no blog. Em breve, muto breve.

Também pretendemos fazer lançamentos do livro-poster em escolas e instituições que desenvolvam trabalhos junto a crianças. Interessados, entrem em contato via e-mail.

Para saber mais sobre o livro e os autores, leia aqui.

Para ler os livros anteriores, feitos com crianças em oficinas de arte, clique aqui, aqui, aqui e aqui.

11 de out. de 2011

José Vasconcelos, um pioneiro do humor

Entrevista e perfil do humorista José Vasconcelos, realizados por este que vos digita para o jornal de humor Rio, que eu editava em 2004. Uma homenagem ao precursor do stand up no Brasil.


O Zé saiu de trás da cortina, só deixando o rosto de fora. Daria uma ótima foto, se houvesse uma câmera ali. Minutos depois, ele chega e me fala:

- Desculpe não estar dando a atenção que você merece.

Uma gentileza sem par. No teatro, assistindo ao show, tentava entender o porquê de certo público não dar a atenção merecida a Zé Vasconcelos. Naquela noite, umas cem pessoas, em sua maioria com certa idade - a terceira - prestigiaram o espetáculo daquele senhor. E, olha, ele tem histórias pra contar.

Depois de ultrapassar a inevitável barreira de produtores e assessores do artista, encontro Zé Vasconcelos no palco do Teatro Municipal Dr. Losso Netto, em Piracicaba, interior de São Paulo. Interior que ele adotou, "para ter sossego", após o fracasso de um empreendimento grandioso, a Vasconcelândia.

Nesse tempo de parques aquáticos e temáticos, seria até fácil colocar em pé um projeto como esse. Em fins dos anos 60, porém, faltaram os apoios necessários para concretizar o sonho. "Eu acreditei demais nas pessoas", diz Vasconcelos.

"Levei o projeto à Embratur, pedi apoio ao ministro Andreazza, que não veio. Me associei a um investidor alemão, que disse: 'Sem estrada, sem negócio!' Para dar certo, uma estrada teria que ligar a Via Dutra à Fernão Dias. Falei também com o governador de São Paulo, que não liberou a estrada".

O show continuou, é claro. Vasconcelos continuou fazendo espetáculos de humor e gravando discos.

No cinema, Zé apareceu em breves e marcantes participações. Em 1947, imitou Ary Barroso em Este mundo é um pandeiro, estrelado por Oscarito. Como astro principal, participou de Os homens traem... e as mulheres subtraem, em 1970. Segundo uma reportagem da revista O Cruzeiro, à época, "o filme é calcado nas principais figuras que José Vasconcelos criou e assim o artista se convenceu a filmar".

O filme Onde anda você, de Sérgio Rezende, lançado em 2004, também traz o comediante em seu elenco.

Já que é pouco comum alguém decidir-se um humorista, pergunto a Zé de onde saíram as primeiras graças. Ele diz que as fez no colégio, imitando artistas e locutores, muitos deles conhecidos do público nas ondas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, há décadas.

Ary Barroso, um dos primeiros multimídias de sua época, atuando como locutor de futebol, animador de auditório e que compôs canções como Aquarela do Brasil, foi um deles. Outros ídolos eram Luiz Jatobá, Oduvaldo Cozzi e César de Alencar - este, uma das inspirações de Silvio Santos.

"Aliás, num concurso de locutores da Rádio Guanabara, ganhei o primeiro lugar, disputando com o Silvio e o Chico Anysio". Isso nos anos dourados do rádio, que tinha tanta força, naqueles anos 40 e 50, quanto a televisão tem hoje.

Em seguida, Zé estreou no teatro. Fez vários espetáculos de humor musical, um gênero "que não existe mais". Rádio, sinônimo de diversão, Professor de música, Ópera A Minuta... O espetáculo-solo, porém, foi o seu pulo do gato. Danny Kaye, comediante norte-americano, era, para Zé, a inspiração maior.

Eu sou o espetáculo marcou a estréia de Vasconcelos como o primeiro one-man show brasileiro, um sujeito de inúmeros talentos: canto, dança, representação e humor afiado, na ponta da língua e dos cascos.

A Tupi, primeira emissora de TV do país, inaugurada em 1950, acolheu o humorista, no primeiro programa do gênero na telinha, A toca do Zé. E estrelou superproduções televisivas, já nos anos 60, como Foguete ao sonho. "Nesse programa, usávamos seis estúdios e uma orquestra!", diz ele. Também fez O mundo alegre de José Vasconcelos, programa de música e entrevistas.

Os discos, tirados ora de seus espetáculos país afora, ora com gravações exclusivas, se sucederam a partir dos anos 60. Vários deles via Odeon, atual EMI: Eu sou o espetáculo, O espetáculo continua, As sete vidas do Doutor Mania, Não há cupido que aguente, e, pela RCA, atual Sony, Ria com José Vasconcelos.

A veia musical do veterano artista é outro de deus múltiplos talentos. No espetáculo atual, Vasconcelos toca a Rapsódia Nordestina ao piano, homenagem a seus pais, que o trouxeram de Rio Branco, no estado do Acre, ao Rio de Janeiro, onde tudo começou para ele.

Com Garoto - violonista morto aos 40 e tantos anos, resgatado por Chico Buarque e Vinicius de Moraes com Gente humilde, melodia do violonista letrada pelos dois compositores em 1970 - o humorista compôs Sorriu pra mim (gravada por João Gilberto) e São Paulo quatrocentão, que ganhou concurso promovido pela Prefeitura de São Paulo, na década de 50.

Antes que chegue a "hora mágica" de Zé Vasconcelos (hora do espetáculo, lógico), pergunto sobre a atual fase do humor na televisão brasileira, no cinema, no mundo. "O fim do vaudeville acabou com o humor. Desapareceram os redatores".

Ele se mostra decepcionado com o uso do sexo no humor dos programas mais populares. A gente fica tão habituado com essa exibição da baixaria que parece acreditar que sem isso, não há humor. Zé Vasconcelos, em seu espetáculo, consegue atuar sem que haja piada alguma com material apelativo - no sentido exposto acima. E a graça sai.

O show atual de Zé termina com uma referência ao seu trabalho com a terceira idade, por meio de palestras destinadas a esse público muito especial. A continuação da vida sem os filhos, que casam e mudam, o estímulo à convivência familar depois dessas mudanças inevitáveis, são alguns dos assuntos abordados por ele com os idosos.

Vasconcelos é um humorista que atravessa gerações, um humanista que anima os corações.

E fecha o pano. Até a próxima risada.

10 de out. de 2011

Homens que são uma graça

Mulher se amarra em homem engraçado. Mas quando a mulher fica com a cara amarrada, homem acha uma desgraça.

Mulher estima homem engraçado. A não ser que ele faça graça para outra mulher.

Mulher venera homem engraçado. Se tiver a cara do Gianecchinni, então...

Mulher curte homem engraçado. Não gosta de homem desgraçado, nem esgarçado, muito menos esganiçado.

Mulher admira homem engraçado. Mas não fica procurando namorado no circo, em pleno picadeiro.

Mulheres gostam de homens engraçados. Porque são tragicômicas.

Mulher adora homem engraçado. Mas vá em qualquer roda feminina: elas só ficam rindo dos homens.

Mulher ama homem engraçado. Depois que ele a conquista pelo humor, ela trata de proclamar um "relacionamento sério".

Mulher aprecia homem engraçado. Mas ai do homem se ele rir da mulher.

Mulher preza homem engraçado. A não ser que tenha a cara do Costinha.

9 de out. de 2011

O peso de alguns quadrinhos sob medida

Tudo bem. Você deve gostar das "tirinhas" que saem nos jornais, revistas e internet.

Deve apreciar autores como Angeli, Laerte e Fernando Gonsales. Pode ser fanático por Mauricio de Sousa, que começou a Turma da Mônica ainda nas páginas de jornais.

Se for da Geração Internet, provavelmente acompanha o trabalho de Arnaldo Branco, Allan Sieber, André Dahmer e Orlandeli. Autores diferentes, épocas diferentes, veículos diferentes e cabeças diferentes.

Só que existe um outro tipo de história em quadrinhos. Geralmente desprezada pelos próprios autores do gênero, porque "não dá liberdade" para o autor. É a história em quadrinhos feita para empresas, com abordagem didática.

Ainda bem que sempre há as exceções que confirmam a regra. Uma tira de quadrinhos com o tal perfil "didático", mas criativa, é Pesado e Medido. O autor dos personagens é Pedro Luiz Montini, meteorologista que organizou a assessoria de divulgação e publicações do Ipem-SP, o Instituto de Pesos e Medidas paulista.

Montini e o Ipem publicaram um livro de tiras com os personagens citados. E conseguiram espaço no Salão Internacional de Humor de Piracicaba para expor o trabalho. A mostra de Montini está no Parque Engenho Central, no mesmo espaço da mostra principal do evento.

Quem for ao Salão, poderá conhecer as tiras expostas em dimensões maiores. E levar para casa um exemplar do livro do Ipem.

A primeira característica marcante de Pesado e Medido é o estilo de Montini. Ele aboliu tudo o que poderia poluir o visual da tira. Adotou as silhuetas, o contraste preto e branco, as formas geométricas, para expressar as situações e as gags.

O que poderia soar repetitivo ficou atraente. Afinal, tiras limitam-se à movimentação de pessoas falantes num espaço reduzido. Nada mais apropriado que reduzir ao essencial os recursos narrativos e visuais.

A tira de humor não é um quadro da Mona Lisa. E nem por isso deixa de ter o seu valor.

Outro acerto de Montini foi a opção pela piada solta, sem compromisso didático. Embora aborde temas relativos aos objetivos e serviços do Ipem, o autor preferiu explorar as disparidades da dupla, reprodutora da dinâmica das duplas cômicas do cinema e televisão.

Estão, e estiveram aí, Martin & Lewis, Abbott & Costello, Didi & Dedé, O Gordo & o Magro, Leandro Hassum & Marcius Melhem para não nos deixar mentir. Pesado é o cidadão rotundo da dupla. Medido é o cidadão desprovido de quilos extras.

Cada página do "Ipem-SP em Tiras" traz uma piada visual da dupla. E o que pode haver de explicação necessária para informar o leitor sobre a instituição está numa legenda abaixo dos quadrinhos, e não em discursos quilométricos saídos das bocas dos personagens.

O recurdo do didatismo disfarçado de encantamento pode enfraquecer a ação narrativa e afastar o leitor da história. Está aí também o mestre Monteiro Lobato para não nos deixar mentir. Quando usou o recurso do "instrui-diverte" nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo, não se deu bem.

Pedro Luis Montini, o autor das tiras mais divertidas e originais nas quais pus os olhos nos últimos meses, merece uma projeção maior, para além das fronteiras do Instituto de Pesos e Medidas. No site do Instituto, é possível baixar a versão virtual do livro.

Nem só de Angelis e Mauricios vive o leitor de quadrinhos. Desculpa aí.

7 de out. de 2011

Dando ouvidos às margens plácidas

À margem do palco, vi um casal plácido tocando flauta e violoncelo. No final, o público soltou um brado retumbante.

Na noite dessa sexta, o teatro do Sesi Piracicaba, na Vila Industrial, trouxe o casal Renato e Angelique Camargo, o Duo Bico-de-Pena, para encantar os poucos felizardos ocupantes das cadeiras.

A violoncelista não me era estranha, embora suas sobrancelhas a deixassem com cara de poucos amigos. É o que pensei, quando a vi no DVD com o show de Guilherme Arantes. Pouco amigo o compositor não foi, no trato com a equipe que gravou o DVD, músicos como Angelique incluídos. Ela só foi elogios ao cancionista.

Canções, aliás, deram o tom da noite do Duo Bico-de-Pena no Sesi. Trata-se do projeto Suíte das Crianças. No contato com meninos e meninas na escola dos filhos do casal, em sessões de música naquele lugar, a ideia de um CD com repertório mezzo erudito-mezzo popular cresceu.

Numa cooperativa do bem mas olhando a quem, músicos e artistas plásticos e o dono de um estúdio de gravação, todos pais de alunos e amigos entre si, contribuíram para que o novo CD de Renato e Angelique Camargo viesse ao mundo. Com o nome Suíte das Crianças.

Um CD inspirado na atmosfera infantil, não necessariamente infantil. E nada infantilóide, que Deus nos livre e guarde disso. Como muitos CDs infantis atuais, um disco para não encher o saco dos adultos. Como disse John, do Pato Fu, a respeito do CD da banda, Música de Brinquedo. Como também são nada sacais os CDs do eu-infantil de Adriana Calcanhotto, a Partimpim.

Na noite do espetáculo do Duo Bico-de-Pena, Renato ia explicando ao público, com placidez digna de um monge, cada faixa do CD a ser executada no palco em seguida. Trajando roupas informais, condizentes com o calor nada plácido da cidade, pareciam um casal envolto em atmosfera budista. E são mesmo. Os dois saíram de São Paulo, junto aos filhos, para a nova moradia no sul do Brasil. Numa comunidade budista.

A combinação de dois instrumentos aparentemente díspares - flauta e violoncelo - ficou apenas na aparência. O casal misturou Bach a Dorival Caymmi, composições próprias a canções de Tom Jobim e Chico Buarque, frevos brincalhões a sons pungentes.

Com sua atitude despojada, os músicos convenceram a todos que não há fronteiras para a beleza. Esses obstáculos somos nós, os ouvintes de salto alto, quem colocamos, entre música popular e música erudita.

E que venham mais suítes, mais crianças, mais enlevo e mais leveza às nossas vidas, em mais espetáculos semelhantes. Carinho e paz eu já recebi nas palavras de Renato e Angelique, na dedicatória do meu CD. Que assim seja.

6 de out. de 2011

Frases toscas de autoajuda pra mural de rede social

Quando você assume sua desimportância, é hora de se dar o devido valor.

Não fique chateado se for uma pessoa ímpar. Um dia você acha seu par.

Fuja de quem se acha o máximo. Gente assim não te dá a mínima.

Tenha uma alma leve. Fazer uma dieta também ajuda.

Ame os animais, as florestas. Mas cuida deles: a vida não é só amar.

De uns, a gente cuida. De outros, a gente tem mais é que se cuidar.

Viva a vida. Assim você não enche o saco citando a Clarice Lispector.

4 de out. de 2011

Com vocês, A PIPA AVOADA!

Depois de quatro livros feitos em parceria com crianças em oficinas de arte (disponíveis para leitura aqui, aqui, aqui e aqui), resolvi chamar uma amiga pra entrar nessa brincadeira.

O resultado da minha parceria com a designer Maria Luziano é o livro-poster A Pipa Avoada.

Em geral, as parcerias em obras infantis funcionam assim. O desenhista ilustra o texto do escritor. Nesta parceria, fizemos tudo ao contrário.

O escritor do livro-poster - este que sempre vos digita no blog - pediu alguns desenhos à ilustradora. A partir dos desenhos, criou a história.

No dia 12 de outubro, lançaremos o livro-poster em tarde de autógrafos, no Salão Internacional de Humor, no Engenho Central, em Piracicaba, a partir das 15 horas.

Enquanto os autógrafos não chegam, vou dando os retoques finais no livro. Esperando não ficar tão avoado como a personagem principal da história. A pipa, é claro.

3 de out. de 2011

Indireta

Indireta: cacetada enrustida.

Indireta: maldizer sem nome aos bois.

Indireta: todo mundo fingindo que não é com você.

Indireta: ofensa sem créditos. E sem crédito.

Indireta: recurso de linguagem. Típico de linguarudos.

Indireta: drible de corpo. Sem corpo a corpo.

Indireta: um jeito de falar na cara. Sem mostrar a cara.

Indireta: pra quem a recebe, é flecha venenosa de efeito letal. Pra quem a emite, tem um efeito tão legal.

Indireta: não há inocentes entre os envolvidos.

2 de out. de 2011

Orgulhosos & blasés

O orgulhoso morre mas não se entrega. Ou melhor: morre, sim. Mas puxa seu pé na cama à noite.

O orgulhoso não dá o braço a torcer. O filho da mãe torce seu braço primeiro.

O orgulhoso não se entrega. Ele entrega você antes. Porque, além de orgulhoso, é um baita dedo-duro.

O homem orgulhoso tem o nariz empinado. A mulher orgulhosa tem a bunda empinada.

O orgulhoso tem salto alto. Seja homem ou mulher.

Orgulhosos tem uma argumentação imbatível. Eles que batem em quem discordar deles. Nunca são batidos. São "imbatíveis".

O orgulhoso estufa o peito pra falar das suas conquistas. E deixa os humildes com falta de ar.

Orgulho pouco é bobagem. Aliás, orgulho demais é uma baita bobagem.

Orgulhoso não cede. Não dá, não vende e não empresta.



Blasé não me diz respeito. Mas os blasés também não respeitam muita gente, não.

Blasés são monocórdios. Sabem que despertam um sono invencível nos seus interlocutores. Mas sabem que a plateia irá escutá-los mesmo assim.

Blasés não são sonsos. São chatos mesmo.

A única expressão corporal possível do elemento blasé é a mãozinha no queixo.

A única expressão verbal possível do blasé é "meu querido".

Blasé só usa blaser.

Atitude blasé é a indiferença estudada. Mas há blasés com indiferença analfabeta-funcional também.

Atitude blasé é algo deprê.

29 de set. de 2011

Juízos desajuizados

Emitir um "Ah", assim seco, é sinal de indiferença. Emitir um "Aaaaaahh", assim prolongado, faz toda a diferença.

"É hoje". Frase simples, mas tão plena de significados. Até os que você nem imagina.

Acabei de ouvir alguém desejando "parabéns" a outro, com todas as sílabas da palavra pronunciadas átonas. Não é sincero.

Você quer achar o seu lugar no mundo. Quando acha, ele está ocupado. E aí?

O amor não é cego, não. Ele é meio embaçado, só.

Quando vejo uma mulher dizendo "Seu lindo!" a alguém, sempre acho que é um jeito que elas arrumaram de elogiar sem parecerem melosas.

Individualismo? Não é comigo.

Só há um jeito da mulher não discutir relação na hora do jogo de futebol. É ela se casar com jogador de futebol.

Tem tanto emoticom em linguagem de internet, que quando alguém coloca um ponto final e nada mais, assusta a gente.

O que seria do equilíbrio mental do ser humano sem o exercício das perguntas retóricas?
Não precisa responder.

27 de set. de 2011

Quebrando tudo

Conversa de boteco é algo inebriante. Seja pelos comes e bebes, principalmente os bebes. Seja pela conversa, pelo ambiente. Pena que para cada prazer haja um ônus. No caso, a conta.

Descontando a conta, o que aconteceu no Ponto de Cultura Garapa, em Piracicaba, ontem à noite, contrariou a rotina de uma segunda-feira comum.

O escritor e dramaturgo Mário Bortolotto esteve no Ponto para um papo sobre sua vida & obra. A conversa se deu no clima informal que o nome do projeto pedia. Bem "conversa de boteco" mesmo.

A conversa com Bortolotto teve a mediação de Fátima Monis, orientadora do núcleo de Artes Cênicas do Sesi Piracicaba, e do jornalista Romualdo da Cruz Filho, d'A Tribuna Piracicabana. Papel que ambos desempenharam com a maior das boas intenções. Temperada com opiniões definitivas dos debatedores a respeito do universo do entrevistado.

Talvez para estabelecer o clima de informalidade ao papo, o entrevistador e um ou outro perguntador trataram Bortolotto com certa intimidade - um havia estudado com o autor em Londrina, o outro havia tomado umas e outras com o escritor em Parati. O convidado não passou recibo a nenhum dos dois candidatos a amigões. No entanto, justiça seja feita, tratou-os com a cordialidade possível.

Bortolotto mostrou-se um cara muito convicto de sua entrega ao ofício de escritor. "Eu me registro nos hotéis como escritor. Mesmo que eu seja um escritor ruim, eu sou um escritor". Renegou qualquer rótulo, a começar pelo de "dramaturgo". Rejeitou a sacralização a todo instante. E respondeu com a firmeza que só os verdadeiros artistas emprestam à arte.

Tudo isso sem desrespeitar ou satanizar os colegas e amigos que fizeram outras opções, como escrever para a televisão ou encenar um teatro mais digerível. Mario está na dele, e pronto. Pronto para o que der e vier.

"Eu fiz a opção por uma vida mais pobre, fazendo o que eu gosto de fazer. Por isso não duro mais de um ano com a mesma mulher. Chega uma hora que elas perguntam: 'E aí'? Como é que é?", disse Bortolotto, numa das muitas vezes em que fez o público gargalhar.

Lá pelas tantas, a geladeira do lugar, que trouxe o combustível necessário para a plateia de Mario, foi ficando vazia. A conversa esquentou com o autor expondo sua relação com a crítica. Ele simplesmente não quer saber de críticos, bons ou ruins, embora admita o diálogo com o falecido Alberto Guzik - um crítico que, no fim da vida, virou ator.

Bortolotto não vê autoridade em quem se dispõe a analisar o que ele faz. "Você se dedica por um ano a escrever e montar uma peça, pra vir um crítico e detonar sua peça? Ele não sabe o que você passou pra fazer aquilo. Quem sabe é o autor. E o diretor".

O jornalista-debatedor quis jogar a responsabilidade do discernimento na leitura de uma crítica nas costas do espectador-leitor, no que foi rechaçado por Bortolotto. O melhor reconhecimento para o autor, ao menos no clima de piada de boteco, é "uma garrafa de Jack Daniels".

Pouco a pouco, a postura transparente do escritor efetuou uma quebradeira nas pretensões intelectualóides dos perguntadores de plantão. Por pouco não me quebrei todo também. Não com supostas perguntas desastradas, mas com a cadeira escolhida para me sentar.

Cadeira nova em folha, mas daquelas parecidas com as utilizadas em escolas infantis. Os pés da cadeira vieram abaixo, e este que vos digita beijou o chão sem o menor amor. Ato falho.

Feitas as conclusões, os agradecimentos e o tradicional "quadro de avisos" dos responsáveis pelo Ponto, cerrou-se a porta de aço do boteco da vez. E a vida continua com outros papos, peças e livros por aí.

Mário Bortolotto vai nessa levada, seguindo seu caminho. Ele e quem se dispuser a acompanhá-lo: aos botecos e pela vida afora.


Pra quem aprecia PS, seguem os créditos do projeto, retirados do release no blog do Rodrigo Alves: "A realização do Conversa de Boteco tem o apoio do Sesi, Tusp/Piracicaba (Teatro da Universidade de São Paulo), Casvi, Ponto de Cultura Garapa, Bar Cruzeiro e Apite! (Associação Piracicabana de Teatro)"

25 de set. de 2011

Careca de saber

Vocês sabem como são as mulheres. Quando elas querem alguma coisa, vão até o fim.

Um dos objetivos das mulheres da minha sagrada família é a interrupção da minha calvície. Só que a calvície insiste em contrariá-las.

Moleque, saltitante e feliz, os cabelos do garoto que fui eram como os da minha mãe. A cabeça era coberta pelos fios suaves do DNA materno. Por bons anos, um tom castanho-escuro compunha a cabeça do nerd que só queria saber de gibis e desenho e afins.

Essa cabeça escurecida, que de modo algum queria ser obscura, alcançou os dias indecisos da adolescência. E a indecisão chegou ao auge com a decisão impossível: encrespar os cabelos. De encrespado, mesmo, só o temperamento do cidadão exótico.

E veio a idade adulta. A idade da razão, a idade em que suas razões parecem inquestionáveis. As mulheres da família ficavam mais e mais alarmadas, ao observarem meus cabelos em estado de revolta permanente, manifestada pelos insurgentes com a fuga da minha cabeça.

Adiantava me vangloriar de uma cabeça supostamente privilegiada, teimando em fugir do analfabetismo funcional, se os cabelos não pensavam o mesmo? Nós, eu e meu cérebro, chegávamos ao dilema-Tostines: a cabeça ficava quente porque os cabelos caíam, ou os cabelos caíam por conta da cabeça quente?

Ó, dúvida cruel. Pena que os cabelos não tinham a menor dúvida em abandonar o crânio.

O tempo passou, que ele sempre passa. Depois de inúmeros banhos, cabelos caindo ralo abaixo e fugas premeditadas do espelho, chegou o momento de encarar a dura realidade. A cabeça do adulto genioso dispunha de um mísero chumaço irregular bem na frente da testa.

E o dilema continua. Valerá a pena domar o chumaço solitário com gel, para que ele não se perca ao vento?

Ter ou não ter um tufo indomável na testa, seu Shakespeare? O senhor dramaturgo era careca, ao que me consta. A caveira da peça Hamlet também...

24 de set. de 2011

Cada uma!

Perguntas de criança. Feitas a mim no Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Neste sábado.

- Você não é o Érico San Juan?
- Sou.
- Que deu palestra na minha escola?
- Sim.
- Mas faz um tempão, já!
- Quanto tempo?
- Três meses!

- Você é o Érico San Juan mesmo, né?
- Sou.
- Você é famoso?

Engasguei com a saliva.
Desatei a rir.
- Mãe! O Érico não sabe que é famoso!

Criança diz cada uma!
O Pedro Bloch tinha razão...

22 de set. de 2011

Além dos livros, pousando num CD

Analfabeto ora funcional ora emocional, assumo a cota que me cabe de analfabetismo e insensiblidade. Mas tudo tem sempre um porém.

Graças à descoberta das redes sociais, passei a conhecer artistas com os quais jamais imaginaria ter qualquer contato. Duas dessas artistas pertencem a uma categoria à qual depositei pouca atenção até agora: a dos poetas.

O primeiro e real arrebatamento com um conjunto de poemas já foi declarado neste espaço. Arrebatamento do qual custei a me recuperar. Ainda carrego neurônios sequelados com o livro "Fresta por Onde Olhar".

O arrebatamento seguinte não foi repentino como o anterior. Leituras de crônicas, poemas e mensagens virtuais vieram antes do pacote entregue pelo carteiro do bairro: o CD "Algo além dos livros", A autora dos poemas declamados no disco é Carla Ceres.

A produção do CD foi a premiação pelo pódio da autora no concurso literário do Grupitrupiartes, coletivo de artistas de Volta Redonda, no Rio de Janeiro. Primeira vez que vejo um autor ser premiado com um CD, e não com a edição em livro da sua obra premiada.

Carla escreve crônicas para os sites Digestivo Cultural e Diário do Engenho. E participa de tudo quanto é concurso literário desta e de outras terras, único reconhecimento que se traduz em alguns trocados para o cartucho de tinta de cada dia da impressora.

A mais recente distinção ao trabalho de Carla veio na classificação para o Mapa Cultural Paulista, concurso bienal promovido pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. A autora representa a cidade de Piracicaba, na primeira etapa eliminatória do concurso.

Voltando ao portão de casa, em estado de graça arranquei o embrulho das mãos do carteiro. Ele me olhou com o estômago embrulhado, empunhando o recibo para a minha assinatura, e foi-se dali.

Antes de colocar o CD no aparelho, olhei a bonita capa de Sara Bentes: um pastel com uma menina correndo de costas para o ouvinte do CD. A interpretação dos poemas de Carla coube ao locutor Adib Khoury. Os comentários musicais ficaram a cargo de "Pepe" Gonzales, Tiago Leme e Carlos César.

O espanto que precedeu a audição do disco veio com o nome do redator da contracapa: Nigermauro Bruno Brasil. Embora cumpra a função de situar minimamente o ouvinte no trabalho poético de Carla Ceres, o tom do texto da contracapa está mais para aqueles discursos de formatura empolados e rebarbativos. Texto tão exagerado quanto os adjetivos "empolado" e "rebarbativo".

Esses senões à embalagem do CD não diminuem, em absoluto, a autora dos poemas. Efetuada a minha rabugice, fui ao que realmente interessava: o olhar diferenciado que só os artistas de coração aberto emprestam ao mundo. Investindo-me uma vez mais no papel de divagante ocasional, dá pra dizer que o mundo nem sempre devolve com juros esse empréstimo. Azar do mundo.

O que me agradou nos poemas foi a sensação de proximidade com o leitor (no caso, do ouvinte) que a autora, com habilidade rara, nos proporciona. Sem prejudicar a beleza das imagens, das metáforas, do estilo elegante, Carla cria versos que despertam a vontade do querer mais, e mais, e mais.

Ou você, caro leitor, não se identifica com odes à timidez, uma timidez que pode ser a sua? Ou com a reflexão presente em "Nosso modo de existir"? Ou quem sabe com um "Alvorecer" iluminado pela poesia de hoje, e não a poesia d'antanho?

A música das palavras nos devolve a sensação de ser, existir e levantar voos numa vida de descobertas, alegrias, angústias. Para desaguar na plenitude de experimentar uma poesia além de adjetivos pomposos, juízos incompletos e imperfeições resenhísticas.

Vá ao blog de Carla Ceres, e prove das amostras dessa poeta com seus próprios olhos. Depois me conte o que achou.

PS. Infelizmente, não consegui reproduzir a capa do CD comentado. A título de ilustração, segue a caricatura que fiz da autora, na capa do meu jornal Caricaras.

4 de set. de 2011

Caricaturas na Caterpillar, Sesi e Salão de Humor

Nas últimas semanas, o que mais tenho desenhado é caricatura ao vivo.

De 8 a 12 de agosto, participei da Sispat 2011, na Caterpillar Brasil. Em vários turnos, inclusive nas madrugadas, fiz um total de 500 caricaturas de funcionários da empresa.

Neste primeiro fim de semana de setembro, houve o Meeting Sesi-SP, no CAT Mario Dedini, na Vila Industrial, em Piracicaba.

Numa tarde de sábado e numa manhã de domingo, 180 caricaturas foram criadas e entregues a uma turma de passagem pelo Sesi para as competições esportivas.

Para fechar o fim de semana com chave de ouro e canetas esvaziadas, dediquei a tarde desse domingo ao inicio da maratona de caricaturas no Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

Cerca de 100 visitantes do Salão levaram para casa suas caricaturas feitas nas capas do novo Jornal Caricaras, o jornal que é a cara de quem o adquire. Entre casaizinhos, mães, pais e filhos, todos sorridentes como nunca.

Em breve, tem mais caricaturas no Salão de Humor. Assim que eu comprar canetas novas...

(Os registros das minhas performances na Caterpillar foram feitos pela Ana Gava. A quinta foto da série é da Alessandra Argenton Barbosa. Para ver as imagens maiores, clique nelas).

3 de set. de 2011

Encontros marcados

Há doze anos, fiz algo inusitado: conheci um escritor ao vivo, fora de Bienais e eventos literários. Entrei em contato com ele, que me recebeu em sua casa.


Era um autor da minha infância. Culto, articulado, engraçadíssimo. A cara dos livros dele.


Fiquei muito amigo do escritor. Hoje, recebi do amigo a melhor notícia do meu dia. Ele conseguiu se recuperar de uma doença grave. E lançará dois livros em 2012.


Semana que vem, após doze anos do primeiro encontro marcado, terei um segundo. Desta vez, com uma escritora.


A literatura faz milagres. Entre eles, o da aproximação além-livros. E eu acredito em milagres.

1 de set. de 2011