24 de jul. de 2011

Corrigir textos: decisão acertada

De caneta vermelha em punho e dois diplomas na parede, Adriana Patrício dedica-se a seu trabalho de revisora

O primeiro erro que Adriana quis corrigir na vida foi o próprio sobrenome: Patrício. Para seus colegas de escola, a menina que sentava na última carteira da classe “não tinha sobrenome”. Alta e magra num tempo em que Gisele Bundchen sequer despontava no horizonte, a estudante empenhou-se em ser a "melhor aluna média" de sua classe (“Nunca tirava dez nas provas, só oito ou nove”).

Após completar os centímetros que faltavam em sua estatura, ao mesmo tempo em que concluía a faculdade, Adriana adotou uma profissão que rende fortunas aos fabricantes de canetas vermelhas: a revisão profissional de textos.

De nome tão comprido quanto sua estatura, Adriana Maria Jorge Patricio (“com acento no I, segundo a regra”, diz ela) cresceu com a pressão amigável para que se tornasse advogada. Era o ofício de suas tias por parte de pai, um bancário aposentado.

A mãe, que ainda trabalha num cartório, esbarrou na discreta resistência da filha em seguir o caminho das leis: “Até hoje ela teima que eu faça um concurso público”.

Apesar de ter saído da PUC de Campinas com dois diplomas – bacharelado e licenciatura em Português e Inglês – e atender clientes em cidades como Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro, Adriana diz que seu irmão, procurador de trinta e três anos, é a “inteligência excepcional” da família: “Eu sou normal”.

Orgulhosa, a mana desfila os méritos do mano prodígio. Aos dezoito anos, ele galgou o pódio em vários vestibulares: primeiro lugar na PUC em Campinas, segunda colocação na Unimep em Piracicaba, quinta pontuação na Unesp em Franca. O vigésimo lugar do irmão no vestibular da USP ela comenta em tom de brincadeira: “Nesse ele foi piorzinho...”.

A irmã do papa-vestibulares, em sua fase de encarar o dilema da escolha de curso, calculou o óbvio: não encararia profissões que a obrigassem a realizar cálculos. “Nas matérias de Física e Química, sempre passava com sufoco”. Acabou optando por Letras, um curso mais adequado a uma aluna exemplar de português.

O desejo de trabalhar com revisão de textos ganhou força com a decisão de abandonar os postos de professora de inglês e de secretária bilíngue, “área pela qual não tenho o menor apreço”, diz a dona de um vocabulário assustador aos que não têm apreço a dicionários.

O empurrão inicial para a profissão diferente veio pelas mãos de um editor em Campinas, que apostou na novata formada em Letras. Em Americana, cidade-natal da agora free-lancer, recebeu o empurrão que faltava, de uma antiga professora de ensino médio.

Se o boca a boca espalha ao mundo as virtudes de uma revisora feito Adriana, garantindo sua sobrevivência, a língua afiada da profissional aponta as falhas mais comuns a quem coloca palavras no papel. “Erros de acentuação lideram a lista, ainda mais com as confusões geradas pelo desconhecimento da nova ortografia.”

As concordâncias verbal e temporal também costumam sofrer maus-tratos na sua aplicação. “Em um livro, por exemplo, é comum a pessoa começar a contar algo no presente, depois passar para o passado e terminar no futuro”.

A dedicação ao trabalho, que exige disciplina e concentração absolutas para as correções nos textos, não impede Adriana de levar uma vida até certo ponto normal. Nas conversas entre amigos, por exemplo, ela se controla para não fazer dos papos um jogo dos sete erros. “Se um amigo fala: "estou soando muito com esse calor", eu não vou interrompê-lo e dizer: "quem soa é sino, você está suando".

Enquanto limpa o suor derramado pela maratona diária, Adriana acalenta o sonho de trabalhar numa editora. Faz mistério sobre um provável livro de sua autoria: “Deixa para uma próxima matéria...” O que não a impede de encerrar a conversa com uma frase de efeito. “Se o futuro a Deus pertence, nada cai do céu, não é? Temos que correr atrás”, diz, revisando o velho ditado.


Atualização às 18h21 de 24.07.2011: Este texto foi produzido para o curso de Redação Jornalística do Senac Piracicaba, em novembro de 2010. A ilustração é um grafismo baseado em foto de Adriana feita por Ana Carolina Miotto, nossa colega de curso. Após a postagem do texto aqui no blog, minha amiga "perfilada" pediu para acrescentar seu novo passo na carreira, dado após a conclusão do curso: a mudança para o Rio de Janeiro, devidamente empregada como "Editora de Produção" numa editora. Felicidades, capricorniana danada!

22 de jul. de 2011

Todo dia ele faz tudo sempre igual

O celular toca. Tocar é apelido. Ele berra. Não é um ringtone com a canção do gás. Não é a canção de ninar que anestesia seu sono madrugadeiro. É o barulho-padrão, entre tantos barulhos-padrão, oferecidos de brinde na memória do aparelho. E você puxa pela memória. É o som que você mesmo programou para lhe acordar.

O remédio é acordar. A vítima do som-celular dorme de sono próprio, sem sono-tarja-preta. A tarja-preta imaginária é a dos olhos, relutantes em abrir. Vem uma coceirinha ali, um bocejo acolá. A lembrança do pesadelo que o fez arrebentar o estrado da cama se dissipa. O dia começa. O sol nasce para todos, com ou sem celular gritalhão.

A porta do banheiro bate com o estrondo de um elefante embriagado. A escova de dentes está lá, toda amigona, esperando a aplicação da pasta bucal, toda espumosa. Nos cantos mais insuspeitos do céu da boca, a sua, o fio dental cumpre a função que cabe a ele: eliminar lembranças de jantares passados. O fiapo de manga, por exemplo, incomoda até agora.

Pensamentos retidos são eliminados no primeiro esvaziamento diário de bexiga. Tal eliminação urinária provocará queixas femininas. Haverá investigação dos respingos em locais impensáveis pela mente do respingador. A limpeza de corpo e alma tem sua conclusão na chuveirada ensaboada, na retirada da barba indesejada, no enxágue das dobrinhas, na tolha enrolada no corpo em direção ao quarto. E no rastro respingado pelo corredor.

Escolhe-se a roupa para encarar o trabalho provedor do leite infantil. Seleciona-se o sapato que poderá sapatear diante do chefe intransigente. Toma-se o café que o deixará com hálito justificador de pedido de divórcio. Tranca-se a casa, pigarreia-se com a fumaça do escapamento do automóvel. Portão da casa fechado, e a história continua no lugar onde o Judas perdeu as botas, local de trabalho do nosso personagem motorizado.

O dia do dileto trabalhador acaba, antes que o chefe acabe com o subordinado. O estresse é tanto, que o lar-doce-lar é um perigo para o estressado, diabético em potencial. Mas ele nem sabe da possibilidade da moléstia, porque não faz exame médico periódico. Saúde equilibrada é uma doce ilusão.

Na chegada à choupana, tudo o que nosso personagem quer é comer qualquer coisa, vestir qualquer coisa, assistir qualquer coisa. Porém, o celular, em sintonia plena com o desejo de paz mundial, emite uma boa vibração. É a convocação da namorada saudosa. O trabalhador suspira, imaginando uma noite daquelas de arranhar parede.

A noite termina, a madrugada avança, o berro seguinte do celular alerta o cidadão para o cumprimento de seus deveres diários. Os deveres profissionais. Os deveres conjugais da noite passada ele deixou na coluna dos haveres. Pelo menos até a noite seguinte. Ou a namorada seguinte.

20 de jul. de 2011

Muy amigo

De vez em quando, solto uma saraivada de frases de efeito e observações jocosas no meu Twitter. Pego algum tema e espremo até o bagaço pedir clemência.

No dia em que escrevo estas linhas, temos uma efeméride singular: o Dia do Amigo. Seguem as melhores frases e pitacos sobre amizade e suas variantes. Haja coração, amigo. Como disse o outro.

- Amigo não é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves. Quem faz isso é carcereiro, não amigo...
- Amigo tem apenas dois órgãos: ouvido e ombro.
- Hoje é dia pra chegar no cachorro bravo, que late na grade quando você passa, e dizer: "Amigo, amigo"? Desconfio que não é uma boa ideia.
- Amigo é aquele que mora no nosso coração, sem pagar taxa de condomínio.
- Não, amigos da Geração Y. Quando Roberto e Erasmo compuseram a música com o verso "um milhão de amigos", não estavam falando do Facebook.
- Não existe amizade desintereressada. O primeiro interesse que a move é o desejo de ser amigo.
- Amigos, amigos. Um negócio à parte.
- "Quero morrer amigo seu", diz alguém a outro alguém que dá uma bola fora. Tem amigos que são de morte mesmo.
- "Vamos ser amigos" você sempre escuta de quem você não queria ser exatamente amigo.

18 de jul. de 2011

O Ombro Amigo

O Ombro Amigo não tem conexão USB. Ele tem conexão com o Ouvido. Um bom Ouvido garante a qualidade de uso do Ombro Amigo.

O Ombro Amigo não tem placa-mãe. É uma mãezona a todo instante.

O Ombro Amigo não tem embalagem fosca. Ele é transparente.

O Ombro Amigo não descarrega a bateria. Sua bateria é o descarrego.

O Ombro Amigo não tem casos de contraindicações. Ele lida com usuários do contra, em muitos casos.

O Ombro Amigo não tem código de barras. Ele é que segura a barra dos outros.

O Ombro Amigo nunca corre o risco de ser deslocado. Ele não só não é deslocado, como se adapta a qualquer ambiente. De preferência, ambientes de risco.

O Ombro Amigo tem prazo de validade invencível. Ele só se dá por vencido quando o usuário se cansa dele, em busca de outro Ombro Amigo.

Num Ombro Amigo não se faz upgrade: troca-se por outro Ombro Amigo.

Procure o seu Ombro Amigo hoje mesmo. Ou deixe pra lá, que um Ombro Amigo sempre vai te procurar.

17 de jul. de 2011

Antologia de ruidos noturnos

É noite. Chega-se em casa. O portão não abre. Emperrado.

A chave não gira na fechadura. Vem uma irritação. Quebra-se a chave. Um suspiro é emitido. O celular sai do bolso. O chaveiro mais próximo é acionado.

A calçada acolhe uma bunda. A calça limpa, o cimento sujo. Um palavrão ecoa na noite. O vizinho acende a luz. Pensa que é briga.

Apaga-se a luz. Nada demais. A luz do poste apaga. A lua ilunina o céu. Um gato faz uma ode à lua. O chaveiro demora. A irritação reaparece. No chão, uma pedra. O gato foge. A pedra passa longe do bicho.

O vizinho solta um grito impublicável. O gato é dele.

Um carro acende o farol. Ouve-se um esvaziar. O pneu furou. Do carro, sai um pedido de socorro. O estepe sai do porta-malas. O socorrido ajuda no transporte do pneu.

O pneu cai no pé do motorista. Outro grito pungente se ouve. O vizinho abre o portão de sua casa. Vê o que há. O pneu rola pela rua. Os envolvidos no socorro saem correndo. O estepe fujão desliza pelo asfalto.

A rua aquieta. O chaveiro dorme sossegado em casa. Como um anjo.

16 de jul. de 2011

Homem à beira de um ataque de nervos

(Ao lado: uma charge de 5 de janeiro de 2008)


O que não falta é blog feminino à beira de um ataque de nervos. Graças a dicas amigas, virei um pesquisador informal da literatura cotidiana da mulherada.

Não deixa de ser interessante esse passeio, imóvel na cadeira da escrivaninha. O que dá pra notar, numa primeira olhada, é a transposição da catilinária oral das moçoilas para os caracteres virtuais.

Umas mais, outras menos, todas são autorreferentes. E todas tem em comum a eterna perseguição à cara-metade, além do secular desprezo aos insensíveis que não as valorizam. Eles mesmos: os homens, cujas doses de falastrice são bafejadas nos botecos da esquina.

Todas os blogs e blogueiras consultados esmiuçam sentimentos - seus e dos outros - com uma habilidade que deixaria Jung e Freud, cada um no seu quadrado, estupidamente pasmos.

Na qualidade de confidente amador de três ou quatro amigas cultivadas nas redes sociais, acabo de aderir ao estilo desabafo-blogueiro. A discrição habitual do autor vai chutar o balde, ao menos por breves linhas. É o momento de confessar algumas miudezas da minha rotina. E reclamar delas, é claro. Das miudezas, não das mulheres.

Copo sujo de café, por exemplo. Tem coisa mais chata que levantar de manhã e ver uma pia cheia de copinhos de vidro, daqueles parecidos com copos de patê? Eu gosto de café, mas não aprecio observar o rastro que o café deixou no fundo dos copos. Se o inferno é aqui, ele tem gosto de café expresso em copo deixado na pia. Pronto para que eu o lave.

O banheiro é outro cômodo incômodo. Quando a gente entra no box para a chuveirada matinal, emite o suspiro de bem-viver que acompanha os bons banhos. Mas o suspiro vira muxoxo imediato. O pé tateia o ralo, o ralo denuncia a presença de um punhado de cabelos, pelos e o que mais for de viscoso acumulado no dia anterior.

Solução: dar um breque no banho, catar aquela meleca e jogar no lixo. No banho seguinte, é a mesma coisa. Um esforço repetitivo, quase um ritual. Haja esforço mental positivo para não arrancar o ralo. Só pra não ter que ficar catando aqueles chumaços de cabelo que teimam em nos besuntar os pés, banho a banho.

Para não arrancar os cabelos que me restam, melhor parar por aqui. Os feios e bonitos que me perdoem, mas resmungar é fundamental.

13 de jul. de 2011

Homens sofredores, machos sofríveis

Mulher é engraçada. Não é algo prudente a dizer diante de um exemplar do sexo oposto. É pedir pra ser humilhado e espezinhado com requintes de crueldade. Mas prossigamos com esta descrição de um episódio corriqueiro do cotidiano masculino, que tem lá sua graça.

A mulher pode gargalhar com a presença do exemplar do sexo nada exemplar. Esse que veste a máscara metrossexual-por-uma-noite. Que faz por breves momentos algo que jamais faz com tamanho esmero no seu dia a dia: arruma-se, penteia-se, escova-se, sorri-se.

O don-juan segue pra balada mais próxima disposto a causar. Mas só o que consegue é causar constrangimento. Por estar vestindo a carapuça de bobo-da-corte. Mesmo disposto a fazer a corte, ariscando-se a levar uma cortada.

Superadas as barreiras da entrada da balada, do barulho da trilha sonora da balada, da dança desengonçada que prenuncia a esperança do acasalamento imediato na balada, a mulherada olha de longe os patetas metidos a galãs. E sorri.

Entre tapas e beijos sertanejos, os pretendentes vão chegando junto. Os candidatos a meteoros da paixão começam a procura das caras-metade. A mulher ri porque saca a palhaçada. Percebe segundas intenções de primeira. O papel da fêmea zelosa é jamais dar mole e sim jogar duro. E o homem fantasiado mete suas fantasias no saco, literalmente.

Vários, quase todos, derramarão suas mágoas pro santo. Ou emitirão uivos ébrios para a lua, entre golfadas de bebida expelida na calçada mais próxima.

No final da noite, mulheres rirão dos homens e para os homens. Os motivos de tanta risada serão os mesmos de sempre. Mas a graça feminina continuará até o final dos tempos. Ou a próxima ressaca dos metrossexuais da hora, mano.

8 de jul. de 2011

Humor Moreno


Ele se parece com muita gente. Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Alceu Valença: todos esses artistas da música são imitados pelo Moreno.

Embora traga o nome do filho do Caetano em seu sobrenome, João Cláudio é filho do Piauí. Aquela terra que Juca Chaves ironizava nos anos 70, sem sentir na pele o calor dos nativos piauienses. Um calor de mais de 40 graus.

João Cláudio Moreno tem o humor do nordestino, da língua talhada a faca. Trabalhou com o nordestino-mór Chico Anysio, com quem aprendeu que é necessário rir de si mesmo. Sem nunca perder de vista a seriedade quando preciso. Seriedade exercitada por João Cláudio em suas entrevistas, monólogos que vão muito além da cultura de Google de tantos humoristas.

João tem um nome pra lá de popular. O comediante Moreno não é tão popular assim. Se santo de casa não faz milagre, João Cláudio leva sua casa, o Piauí, para todo lugar que vai. Milagre é ele aparecer na TV, às vistas da audiência plana. O que prova o velho ditado, agora com um toque de modernidade: santo de plasma não faz milagre.

Há imitadores e imitadores. Quem imita a vida com arte, captura a alma de um povo. Com liberdade incondicional, Moreno prende a atenção até dos politicamente corretos. Eles que se cuidem, que pessoas feito João Cláudio estão aí para preservar o direito de rir e vir.

6 de jul. de 2011

Diário de um pegador noturno

Há grandes pegadores nesse mundão velho sem porteira. Comigo é assim: sou grande pegador. O objeto da pegação não é bem o que você está pensando, infelizmente. Sou grande pegador, sim. De ônibus.

Vez por outra, pego ônibus em ponto estratégico na avenida principal do meu bairro. Atrás do ponto, fica um terreno vazio, daqueles que vão até onde o Judas perdeu as botinas. Não raro, o ponto fica deserto em altas horas da noite. Em horas baixas idem.

Numa noite de compromisso inadiável, fui ao ponto esperar o ônibus. Dez minutos após meu posicionamento glúteo no assento, eis que aparece uma estraga-prazeres. Trazendo na face a cara de bunda mais bundona da redondeza.

É sabido que os pontos de ônibus e as redes sociais da internet são lugares onde a simulação de intimidade é instantânea. Entre pontos e redes, uma diferença apenas: nos pontos de ônibus, não há simpatia hipócrita de cara. Rola neurastenia sincera, na cara.

A caruda me perguntou se o ônibus-tal tinha chegado. Eu falei que tinha chegado o ônibus-xis, e nâo o ônibus-tal. Ela reclamou que o ônibus-tal tinha um motorista lerdo. Respondi que nem todo motorista era lerdo. Ela teimou que o motorista lerdo do ônibus-tal, que não tinha chegado e não chegaria tão cedo, era lerdo sim senhor.

Mudando ligeiramente de assunto, a dona da bolsa continuou o interrogatório.

Ela perguntou se eu tinha medo de ficar sozinho no ponto à noite. Respondi que não. Ela perguntou de novo a mesma coisa, arretada com meu espírito de porco em não querer responder o que ela desejava ouvir. Falei que não adiantava ter medo. Ela retrucou com conselhos para ficar esperto naquele lugar escuro, porque se não me cuidasse um dia seria assaltado. E coisa e tal. O ônibus-tal que era bom não chegava.

Nesse ponto do paredão, uma terceira pessoa chegou para trazer a boa nova: o ônibus-tal chegou! Tomamos nossos assentos, a caruda recolheu-se à sua bunda-molice.

Fosse este humilde cronista um pegador convencional, e não um reles pegador de ônibus, tomaria vergonha na cara e compraria um carro. Enquanto o dia da redenção automobilística não chega, o jeito é esperar o próximo ônibus. Com a minha própria cara de bundão.

29 de jun. de 2011

Mexericas da Candinha

Adoro mexericas. Muita gente compartilha da preferência, mas chama as mexericas de tangerinas. Esse nome, "tangerinas", eu só conhecia de comerciais de sucos na televisão.

O espanto carimbou meu rosto quando soube que "mexericas" e "tangerinas" eram a mesma coisa. O gosto do suco adocicado, esparramado na garganta após mordidas nos gomos laranjas, mudou com a descoberta.

E haja descoberta frutífera. O Wikipédia, novo pai dos burros do século XXI, diz que mexericas possuem outra denominação: "bergamotas".

Para este mexeriqueiro sem Candinha, "bergamota" tinha semelhança com o nome "marmota", bichinho dentuço dos desenhos animados norteamericanos. O outro nome para a mexerica rimava com "bota".

Tanto "marmotas" quanto "botas" abundavam nas animações das sessão-pipoca da molecada, eu incluído. Nada animadoras eram as broncas maternas, caso não consumíssemos as sobremesas com todas as frutas possíveis e imagináveis. As mexericas entre elas.

Do jeito que vai e vem o mundo atual, onde faltam árvores e sobram desarvorados, é capaz de me discriminarem por chamar "mexericas" de "mexericas". Porque o certo seria "tangerinas", certo? Aí virá outro dedinho no meu nariz, e ele sempre vem, proclamando que correto mesmo é chamar "bergamota" de "bergamota". Ora, ora!

Antes que o caldo da fruta entorne pra valer, o jeito é efetuar uma discreta retirada destas linhas. Para desfrutar da minha sobremesa predileta, sem interferências linguísticas de qualquer espécie. Apenas da minha língua, sorvedora das tais bolas alaranjadas.

25 de jun. de 2011

Chico e suas chorumelas chiques

Juro. Eu queria falar bem do Chico Buarque. Não vai dar.

Na última semana, alastrou-se pela internet a nova canção do novo CD de Chico Buarque, singelamente intitulado com o apelido do artista: Chico. Após tantos vinis cravados na história da MPB, um novo disco do carioca até cai bem em plena era do MP3.

O CD anterior, por sinal, se chamou "Carioca". Como se alguém, a essa altura do campeonato ganho pelo Politheama, duvidasse da cidadania fluminense do torcedor do time homônimo.

Assim como a cor de parte do uniforme do time do homem cordial, o filho de Sérgio Buarque possui olhos de cor verde. Olhos que garantiram parte do público inicial de Chico, lá nos míticos anos 60 do século passado.

As agora senhoras de meia-idade não queriam saber se o garotão tinha influências da Bossa Nova. Se largara a Faculdade de Arquitetura, se morria de timidez. Ou se fora empurrado à força para cantar no palco de um dos festivais da TV Record.

Os festivais acabaram, veio a ditadura militar. E a fama de Chico Buarque foi dividida com a fama de Robin Hood sufocado pelos milicos. Vieram as canções censuradas como "Apesar de Você". Os discos antológicos como "Construção", "Meus Caros Amigos" e "Calabar".

À beira dos quarenta anos, veio mais, além da idade da razão. A calmaria da abertura política. O relativo silêncio forçado pela onda do pop-rock-carbono praticado pela geração 80. E o envelhecimento: afinal, nem Chico Buarque é um Homem de Ferro.

Nos últimos CDs, o poeta tem navegado pelas águas calmas da "melhor idade". Até aí, nada demais. Um dia teremos todos a mesma aura crepuscular, a mesma capacidade de resmungar a respeito do nosso fim de linha. E as mesmas dores nas costas.

Mas sempre há um porém, e uma bateria de perguntas nada retóricas.

Será que as fãs do Chico anterior têm paciência para aturar seu tesão honorário falando desse crepúsculo? Quiçá toleram a ausência absoluta de qualquer traço de samba em sua obra atual? Porventura aguentam a influência jobiniana escancarada no cancioneiro recente do velho Francisco?

Eu sei, eu sei. Nenhum songbook recente, por mais lamentoso, impedirá que uma senhora, plantada na primeira fila do novo show de Chico Buarque e escorada por filhos e netos, grite elogios impublicáveis ao artista.

No entanto, quero crer que a credibilidade angariada pelo trovador-jogador se deva aos serviços prestados em priscas eras. E não ao repertório de agora.

Bem que eu avisei. Juro que adoraria falar bem do Chico Buarque. Já que não contive a soltura de minha língua, o jeito é encarar a dura realidade. Descrita não num querido diário, mas num blog mesmo. O que dá na mesma.

24 de jun. de 2011

Cabeçadas de Feriadão

1) Saio pra conferir a roupa lavando na máquina. No céu azulzão, um casal de pássaros voa em direção ao infinito.
Um céu tão azul quanto os flocos de sabão em pó na máquina.

Isso é poesia, ou vontade de lavar logo as roupas que faltam?


2) Saio pra comprar ração pras gatas. Distraído, dou uma cabeçada na placa de trânsito.

A placa diz o que tenho de fazer, ainda todo zonzo: "PARE".

18 de jun. de 2011

Pulga que pariu!

Não tem horas que dá uma vontade louca de virar uma pulga, pra passar despercebido diante da multidão?

Pois é. Isso aconteceu comigo, e justo num espetáculo de circo de pulgas. Se você não entendeu, por favor dirija-se ao próximo parágrafo. Nem precisa retirar ingresso na bilheteria.

Uma companhia de teatro carioca veio a Piracicaba encenar espetáculo num teatro que traz teatro e música o ano todo, de graça.

As matinês de alguns sábados do ano costumam abrigar peças infantis. E criança é o que não falta nessas sessões-pipoca. É possível medir a presença desse público a quarteirões de distância do lugar. Pelos decibéis de entusiasmo.

Superada a fila e os avisos de boa educação da equipe do teatro, chega a hora da função.

Um ator desempenha a função de mestre de cerimônias, com direito a cartola e fraque típicos dos picadeiros - só faltou a barriga saliente de desenho animado. Outros dois atores fazem as vezes de assistentes de palco.

A sensação da exibição de um legítimo circo de pulgas, com todo os recursos cênicos possíveis, era transmitida com perfeição aos espectadores infantis e adultos. E dá-lhe "pulgas" trapezistas e cantoras, argentinas e espanholas...

“Só não trouxemos pulgas brasileiras”, disse o MC, no final, à senhora gorda na primeira fila. “Se a senhora quiser, pode preencher uma ficha lá fora. Pra fazer um cadastro da sua pulga, tá?”

As risadas não superaram o rubor nas faces rotundas da espectadora. No entanto, os primeiros sorrisos vieram no clímax comum a qualquer peça de teatro contemporâneo: a interação com o público!

Na ribalta, o mestre de cerimônias anunciou que uma das pulgas do espetáculo saltara platéia afora. Luzes acesas, o MC apontou o dedão em linha reta, na direção adivinha de quem.

Como uma pulga acuada antes do banho no cão hospedeiro, remexi as cadeiras no assento aveludado. Sem direito a latir, subi ao palco.

O que é a vida. Tive que rir das piadas do ator-condutor do show, tive que fingir que urrava de dor na operação "retirada de pulga de couro cabeludo". O que o MC tirou de verdade foi caspa, mas isso foi um detalhe tão pequeno de nós dois...

No fim e ao cabo da operação, vieram as palmas e os assobios. E eu passei o resto do show amaldiçoando os deuses do teatro, do circo e de quem aparecesse na minha frente.

Meia hora após o mico, espetáculo terminado, saí a passos largos do teatro. Numa próxima vez, prometo habitar o canto mais escuro possível do local. Se possível, sendo confundido com as pulgas que habitam as poltronas normalmente, sessão após sessão.

17 de jun. de 2011

Marchando com todo o gás

No lar-adoçante-lar, a gente é ensinado a encarar as coisas de frente. Senão isso é covardia diante da vida.

Porém...

Alguém devia - na rua, no lar ou no bar - nos dizer o contrário de tudo isso. Porque em algum momento a gente precisa fazer o oposto: sair da frente. Pra manter a sanidade mental, pra ruminar desconsolado diante da impossível vitória. Até pra não levar cacetada e consequentes treze pontos no nariz.

Quem leva a faixa no protesto da vez, combinado na rede social entre trocentos seguidores, quer aparecer mais que os outros, embora morra sem admitir o óbvio (ou perder a ternura, que é mais bonitinho). No mínimo, periga aparecer uns dois segundos no telejornal da noite. E posa de herói quando volta pra casa. Todo felizinho.

A glória acaba quando os pais reclamam que o protestante chegou mais tarde que deveria. E o desmascarado ativista, como consolo, vai choramingar na rede social a seus fiéis seguidores.

Todo mundo curte a atitude do líder de fim de semana. Que não vai poder ir pra balada no dia seguinte, como castigo pelo desserviço prestado à autoridade paterna.

Imagina se a massa disforme de seguidores de redes sociais resolvesse fazer diferente. Vamos dar asas à nossa imaginação suína. De espírito de porco mesmo.

O povo marcha em plena avenida Paulista, sexta-feira, na hora do rush. Os poderes constituídos já estão avisados e aparelhados. A liminar esperada para impedir a multidão não aparece. As equipes de televisão têm seus sacos preenchidos até o limite, pela espera dos andarilhos atrasados.

Chega o grande momento. O cara a cara com a lei e a ordem. Os seguidores estancam, paralisados. E fazem o que nenhuma polícia, Datena ou motoristas presos no trânsito esperavam: uma espantosa marcha. À ré!

A juvenília nerd entende, num átimo de segundo, o que é encarar a vida de frente. E cai fora, galopante na direção contrária, para pasmo geral e irrestrito. Isso é que é ser do contra.

Fazer protestos, teclando fechados em seus quartos, demora mais a arder os olhos que um gás de pimenta fumegante nas narinas. O ardor jovem não resiste a um monitor LCD novinho em folha.

14 de jun. de 2011

Uma animação "desanimada". E comovente

Vi um desenho animado de chorar. Não é uma animação ruim. Pelo contrário: é emocionante.

Trata-se de Mary e Max, de Adam Elliot. O longa-metragem, de 2009, foi feito com bonecos de massinha, na técnica de animação conhecida como stop-motion, onde se filma cena a cena, movimento a movimento dos bonecos e cenários.

Usando um mote relativamente explorado em cinema e literatura - a troca de cartas entre personagens aparentemente incompatíveis - , o diretor extrai inesperada humanidade dos protagonistas da animação. E nos faz sentir, os espectadores, meros bonecos desarticulados, capazes de toda a desumanidade possível.

Mary mora na Austrália, tem mãe alcoolista e pai ausente, sofre humilhações na escola, tem um vizinho que perdeu as pernas na Segunda Guerra Mundial. Max mora nos Estados Unidos, em Nova Iorque. Obeso, transita de emprego em emprego e frequenta os Comilões Anônimos.

Por um desses acasos que podem determinar o destino de uma pessoa (no caso, o destino dos personagens-chaves da história), a mãe de Mary, cleptomaníaca não-assumida, foge do Correio após mais um de seus pequenos roubos.

Na fuga, a menina é levada pela mãe com uma tira rasgada da lista de endereços do Correio. Antes do roubo, Mary tinha escolhido na lista um nome para se corresponder.

Na companhia de um gato caolho e um peixe substituído de tempos em tempos, Max recebe a carta da garotinha, que vai se revelando e crescendo carta a carta. Ele encontra um estímulo para a vida na atenção que a menina lhe dedica, e lentamente se abre também.

A animação de Adam Elliot tem algo de grotesco, se comparada às produções da Disney, e agora da Pixar. As animações das duas produtoras, agora unidas num mesmo conglomerado, mantém a tradição de roteiros excelentes mas açucarados, para agradar a toda a família.

Já a "desanimação" Mary e Max carrega nos cenários monocromáticos, na dramaticidade das situações, nos descaminhos que a menina e o senhor percorrem ao longo dos anos, separados apenas pela caixa de Correio.

Fazia tempo que não chorava diante de uma tela. Mary e Max me fez derramar as lágrimas que andavam longe dos meus olhos.

12 de jun. de 2011

Segundas intenções de segunda

Mulher pensa que homem é tudo trouxa.

Na qualidade de representante do sexo masculino, só afirmo o seguinte, com todas as letras: ela tem razão.

Todo homem pensa que mulher tem que cair na sua rede. Não uma rede social, onde bagres e bugres se misturam a cobras e lagartos, numa alegre lambança ecológica.

A rede à qual me refiro é a tal usada em mares e rios. Aquela pra pegar peixes ao menor vacilo. Isso, naturalmente, antes da politicamente correta "pesca esportiva".

Tudo bem, homem curte o esporte de fisgar beldades e barangas desavisadas. O que esse atleta sexual ignora é a facilidade de sua presa dar a conta a ele, sem que o pretenso maratonista se dê conta.

Como no dia em que liguei para uma destinatária das minhas primeiras intenções, que eram apenas sair em busca de um lugar onde pudéssemos executar minhas segundas intenções.

Ao telefone, ela alegou ter um trabalho a entregar à sua chefe no dia seguinte. Até aí, nada demais. Não fosse o dia seguinte um feriado...

De fato, homem é tudo trouxa. Se perigar, analfabeto funcional também. Na verdade, homens são todos trouxas. Concordãncia que não melhora em nada a condição masculina.

11 de jun. de 2011

O blog ultrapassou as dez mil visitas

É pra comemorar?

Por ora, agradeço aos visitantes, seguidores e diletantes.

A casa é de vocês!

2 de jun. de 2011

"Fazer o bem sem olhar a quem"...

... que frase singular, né?

Hoje em dia, a frase é bem outra:

"Ser 'do bem' sem olhar pra ninguém".


(Este é um post-homenagem aos humoristas politicamente incorretos do meu Brasilzão de Deus.

Obrigado).