4 de ago. de 2010

Xeque-mate?

No final do mês, estarei em um encontro de xadrez. Não para jogar, mas para fazer caricaturas ao vivo durante os jogos. Segue o flyer do evento ao lado. Para ver melhor, clique na imagem.

Já tive contato com esse jogo como espectador, há uma dezena de anos. Foi num campeonato promovido por um colégio particular de Piracicaba, num clube. Eu fazia texto e diagramação de um jornal institucional do tal colégio.

Aos meus olhos de repórter de ocasião, era espantoso o silêncio que se fazia durante as partidas. Sem falar nos lances repentinos disparados pelos competidores, que podiam decidir uma partida em segundos.

Agora, o xadrez volta ao meu cotidiano por um dia, trazendo de brinde o craque Mequinho, que eu conhecia apenas da música "Super-Heróis", do Raul Seixas e do Paulo Coelho.

Vai ser divertido.

30 de jul. de 2010

Animais!

O texto a seguir saiu numa página de humor que eu editava no jornal Tribuna Piracicabana, de 2001 a 2003. Outros textos dessa época você confere no Releituras, um site-referência da literatura no Brasil, editado por meu amigo Arnaldo Nogueira Jr.

O elefante e o rinoceronte não se bicavam.

O elefante achava que seu grito, "fuóóóóó", existia para alertar os bichos de injustiças, desmandos, falta de ética e outros penduricalhos que servem pra gente dizer que está revoltado.

O rinoceronte, pelo contrário, achava que sua simples presença servia para mostrar aos bichos quem é que mandava naquela birosca, que esse negócio de injustiças e desmandos e falta de ética era denúncia vazia, talvez coisa daqueles passarinhos caga-sebo — ou caga-regras? — , doidos para ver o circo pegar fogo, uma palhaçada.

Vendo que a coisa iria degringolar e alguns bichos inocentes pagariam pela animosidade da paquidérmica dupla brigona, o tucano resolveu chamá-los para uma prosa conciliatória. Disse que os senhores elefante e rinoceronte poderiam decidir suas diferenças à vista de todos os "habitantos" da floresta. Que não valeria soco abaixo da linha da cintura, que resolvessem a contenda, pois estava em jogo o equilíbrio ecológico do mundo e outros patatis-patatás de uma conversa do gênero. Bom diplomata que era, o tucano ficou aliviado e espalhou a boa nova ao respeitável público.

Quando chegou o grande dia da batalha entre o elefante-ofegante e o rinoceronte-mastodonte, a floresta mobilizou-se para o espetáculo. Uns apostavam no ofegante, outros no mastodonte, os mais velhos olhavam aquilo com tédio, as macacas de auditório gritavam como nunca.

Preparados os competidores, o tucano deu o tiro que matou a ansiedade da platéia e iniciou o embate. Um urro se ouviu, o elefante achou que o tiro do tucano tinha saído pela culatra, e estava certo. O leão, que dormia, acordou danado da vida com o barulho e acabou com a festa. E foi aí que os dois competidores caíram na real... ou melhor, viram quem é que era o legítimo, o verdadeiro, o autêntico rei da cocada preta.

(A)moral: quem tem o rei na barriga sempre perde a majestade

5 de jul. de 2010

Professores e alunos do humor

Em 2011, completo vinte anos de carreira. E o Salão de Humor de Piracicaba é uma lembrança permanente desde os anos 80.

Minhas primeiras visitas ao evento aconteceram ainda no Teatro Municipal. Numa delas, vi pela primeira vez um exemplar do Pasquim, em sua versão paulistana. Na mostra principal, nomes como Luigi Rocco e Ronaldo Cunha Dias estavam todo ano entre os cartunistas selecionados. O primeiro, aliás, se casaria com uma piracicabana. Essa cidade tem visgo mesmo.

De 1989 pra cá, fui alimentando o desejo de virar cartunista. No mesmo ano, fui aluno da Oficina de Quadrinhos de Jal e Gual, organizadores do Troféu HQMix. Em 1991, virei profissional da área. Depois, o namoro com o evento aumentou.

O entrosamento com outros cartunistas na cidade gerou mostras paralelas no Salão, de um grupo chamado Pamonhas de Piracicaba. O nome, depois rechaçado por um ou outro membro mais mal-humorado do grupo, só confirmou o óbvio: pamonha de casa não faz milagre.

Após ser selecionado algumas vezes para a mostra principal, ser jurado de seleção e organizar uma mostra de tiras feitas pelos ex-Pamonhas, o Salão de Humor me deu a chance de dar aulas de humor gráfico para professores das redes municipal e estadual de ensino de Piracicaba. Esse conhecimento está sendo repassado aos alunos para que participem do Salãozinho de Humor, uma versão infanto-juvenil do evento, já na oitava edição.

Na oficina, ministrada junto à artista plástica e arte-educadora Belê, as professoras-alunas demostraram uma vontade imensa de absorver e interagir com a linguagem do humor.

É um desafio, para as alunas e para os professores, destrinchar, feito um frango caipira, os mistérios do humor em cartum, charge, caricatura e tira. Mas a teoria harmonizou-se com a prática, gerando exercícios de criação muito interesantes. E engraçados!

O que era um aprendizado informal do humor, por meio do contato anual com o Salão, torna-se um aprendizado sistemático, por meio das oficinas agora promovidas com frequência pelo próprio evento, para crianças e adultos.

A satisfação de ser escolhido para repassar esse conhecimento, como cartunista "formado" pelo Salão, não poderia ser maior. Que o riso continue forte e saudável, entre as novas e as velhas gerações.

3 de jul. de 2010

A mulher que eu amo (ou amava?)

Eu admiro a coragem do Roberto Carlos. Ia dizer que aprecio a cara de pau dele, mas não é essa a expressão. É "coragem" mesmo.

Pra começar, ele sobreviveu a cinquenta anos de carreira. Popstar que se preze ou morre no meio do caminho e vira mito - vide Michael Jackson, Elvis Presley e Paulo Sérgio - ou sobrevive à roda-viva, envelhecendo em público sem pudor das rugas da voz e da alma. Roberto, desnecessário dizer, escolheu a segunda alternativa.

Que coragem!

Antes de ser Jovem Guarda, nosso Rei tentou ser Bossa Nova, sendo imediatamente rejeitado pelos mauricinhos da Zona Sul carioca. Até gravou aquele disco "Louco por você", uma salada de sub-bossas, quase-rocks e anti-versões. O cantor considera sua estréia em LP ruim por um detalhe pequeno: a desafinação numa das faixas. E engavetou o vinilzão.

Mais coragem pro currículo.

Depois do sucesso da Jovem Guarda, onde enfiava ouvidos abaixo das menininhas o acompanhamento vagabundo daquele órgão pilotado por Lafayette, dando aos seus rocks e baladas uma vestimenta de música de igreja no domingo, o cantor virou adulto.

Rasgando a voz, feito um sub-negão da Motown, resolveu incorporar suíngue à sua música, na trilha da moda dos nascentes anos 70. Isso antes de virar um romântico incorrigível e duradouro, com pitadas de fé explícita, bem antes dos padres-cantores gravarem seus discos.

Haja coragem!

E coragem é o que me motivou a escrever algumas linhas sobre a mais nova canção de Roberto Carlos, divulgada na novela das nove da Globo, Viver a Vida.

A canção se chama "A mulher que eu amo", de autoria somente do cantor. A música saiu no CD da trilha sonora da novela, foi liberada para download pago em alguns sites e ganhou as avenidas da web.

Percorri as tais avenidas e conheci "A mulher que eu amo". Conheci a música, não a mulher da música.

Como os fãs de Roberto Carlos devem saber, a mulher que a tal letra descreve e exalta só pode ser a falecida esposa dele. É sabido que o cantor tem composto exaltações sem fim à finada, e que reforçou esse sentimento para além da arte, nas entrevistas concedidas após o trágico desenlace.

E a canção só reforça a minha opinião sobre a coragem de Roberto Carlos. Exaltar uma mulher falecida usando verbos no presente não é pra qualquer um. Como também não deve ser fácil ser Roberto Carlos em tempo integral. Mas isso vocês já sabiam.

De qualquer forma, o Rei ainda não perdeu a majestade. E a coragem.

29 de jun. de 2010

De Pires na mão

Moro em Piracicaba, a terra do rio cantado por Tião Carreiro.

Tendo nascido na cidade, e conhecendo o que rola na margem direita e na margem esquerda do tal rio, tenho uma relação discutível com a terrinha. Principalmente quando quero discutir a relação.

Nas vezes em que estou em paz com a terra-mãe, vou atrás das minhas raízes, mesmo que para isso eu ande quilômetros de distância. Como bom caipira, gosto de inventar moda. Se eu fosse músico, seria moda de viola. Como sou cartunista, fico nas piadas de caipira. Às vezes sou a vítima das piadas.

Há quatro anos, reatei uma amizade com sotaque dos anos 90. Liguei para o amigo, morador da capital paulista, e lá fui eu bater um papo com ele. Entre papos, cervejas e sanduíches, ele me contou que ouvia a rádio Cultura ao nascer do sol, todo santo dia. E no raiar da programação da rádio, havia um espaço para os causos de Cornélio Pires, humorista e folclorista de Tietê (a cidade, não o rio).

No cafezinho após o banquete, o amigo me confessou a vontade de traduzir a obra de Cornélio Pires, legítimo desbravador da cultura caipira do começo do século vinte, para os quadrinhos. E coloquei mais lenha na fogueira, sugerindo que fizéssemos o trabalho em parceria.

Animado com a perspectiva do trampo em conjunto, voltei a Piracicaba. Um mês ou dois depois, a animação aumentou.

Uma palestra sobre Cornélio Pires abriria a semana dedicada a ele, realizada todo ano em Tietê. Só que, numa exceção honrosa, a palestra seria em Piracicaba, no Sesc local.

Chegando ao auditório, encontrei o secretário de cultura de Tietê, Pedro Macerani, acompanhado do historiador Benedito Pedro Silvestrim, mais conhecido como Fuzilo, uma autoridade em Cornélio.

O secretário exibiu dois filmes realizados pelo pioneiro da gravação de músicas caipiras. Dois curta-metragens da década de 20: um mudo, outro sonoro.

O segundo filme trazia a primeira gravação, em áúdio e imagem, da dupla Mandi e Sorocabinha, realizada antes mesmo da primeira gravação de disco caipira, também feita por Cornélio Pires. O primeiro videoclipe sertanejo!

O historiador trouxe uma palestra toda planejada e escrita com esmero de detalhes. Ao chegar no Sesc, ficou sabendo que não iria falar sozinho, tendo sua fala reduzida às suas intervenções num debate após a exibição dos filmes.

Mas o "seu" Fuzilo deixou a maior surpresa para o final da noite. Ele saíra do hospital direito para a palestra, pois sofrera um ataque do coração há pouco tempo.

Mais um tempinho, e o meu coração também sofreu certo abalo. Mas de alegria, quando pisei em Tietê, a terra de Cornélio, onde há um museu dedicado à vida e obra do caipira pioneiro.

Sem eira nem beira, desci na rodoviária da cidade e perguntei pelo tal museu. Tietê estava às moscas, ou nem isso, as moscas pareciam estar de folga. E tinham razão, pois era feriado municipal...

Como o leitor da capital deve saber, espaços culturais em cidades do interior costumam fechar em feriados. Se até o leitor sabe, daria sorte: eu não sabia.

E fui ao centro de Tietê, a quatro ou cinco passos da rodoviária, procurar mais sobre a cidade e o museu de Cornélio Pires.

Numa banca de revistas, ao saberem do meu projeto de quadrinhos sobre o símbolo da cidade, me deram o telefone do "Seu" Fuzilo, o simpático historiador citado linhas atrás. Acabei não indo, para não perturbar o descanso do recém-enfartado em pleno feriado.

Antes tivesse ido. Pouco depois da minha visita a Tietê, "Seu" Fuzilo descansaria para todo o sempre.

Mas teve um "porém", que isso sempre tem. O dono da banca, um dentista, me levou à sua casa a minutos dali, e me presenteou com vários livros de Cornélio Pires. Isso porque ele nunca tinha me visto na vida.

Voltei a Piracicaba sem visitar o museu em Tietê e sem ter voltado a ver o velho Fuzilo. O desejo de revisitar o velho Pires em quadrinhos, junto ao meu compadre em São Paulo, permanece.

Um dia desses a gente volta a tomar um café e retoma esse desejo. E o realiza.

7 de jun. de 2010

Salões de Humor de Piracicaba

Piracicaba e seus salões de humor começam a dar as caras.

O Salão Universitário de Humor, promovido pela Unimep desde 1992, abre na próxima sexta-feira.

Nesta segunda-feira, foram escolhidos os trabalhos da mostra. O dono deste blog participou do júri de seleção.

Já o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em sua edição de número 37, está com inscrições abertas para o envio de cartuns, charges, caricaturas e tiras.

O Salãozinho de Humor, versão paralela do evento para crianças, também abriu inscrições.

Durante o mês de junho, uma oficina estará ensinando humor gráfico a professores das redes municipal e estadual de ensino da cidade.

Sou um dos orientadores da atividade, ao lado da artista plástica Elisângela Mathias.

Os professores repassarão o conhecimento adquirido na oficina aos alunos, para que participem do Salãozinho.

A temporada do humor em Piracicaba está apenas começando. Mais novidades em breve.

3 de jun. de 2010

Um baita de um filho da mãe

Na véspera do último Dia das Mães, em 8 de maio, corri o risco de ser chamado de filho... da mãe.

O cenário era São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Fui chamado a desenhar caricaturas ao vivo para os clientes da loja C&C.

O risco de ser xingado era grande. Mas o povo que ganhou as caricaturas feitas na hora curtiu o presente. E me deixou correr riscos apenas no papel.

Outras peripécias caricaturescas você confere aqui.

25 de mai. de 2010

Futebol de Salão


Bem poderia ser esse o nome da exposição organizada pelo Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Mas não é. O nome é apenas Futebol.

A mostra reúne cartunistas e artistas plásticos de Piracicaba. Todos fazendo trabalho com o tema acima. Vai ter artistas dente de leite, cartunistas com anos de bola no pé, até artistas plásticos a um passo de pendurar as chuteiras.

A exposição Futebol abre na próxima quinta-feira, às 8 da noite, no Engenho Central, em Piracicaba, com coquetel e tudo. Os leitores do blog estão convidados.

13 de mai. de 2010

No dia 13 de maio...

...130 tiras de um personagem afrobrasileiro (é assim que se diz?).

12 de mai. de 2010

Torcedor é tudo igual

Apesar de ser mais uma voz discordante da escalação da Seleção do Dunga, sou da paz.

Não é o que acontece nas caixas de comentários dos blogs. Principalmente as dos blogs de televisão, onde analfabetos funcionais se estapeiam para discordar do colunista da vez.

Descobri um novo tipo de torcedor. O torcedor de celebridades. Uma espécie que quer torcer o pescoço de quem falar mal da sua celebridade favorita. E com um português de fazer inveja a qualquer torcedor de time grande.

6 de mai. de 2010

Eu pago minhas contas com café

Ontem, recebi um e-mail tentador.

Uma fábrica de café da região de Piracicaba está promovendo um "concurso cultural".

Ilustradores, designers e publicitários podem enviar um logotipo especial para o aniversário da marca. O prêmio ao ganhador? Uma máquina de café. Com café para abastecê-la durante seis meses.

Sou grande consumidor de café. Mas isso não me fará largar minha profissão de ilustrador, cartunista e designer para me tornar revendedor de café.

(Se o concurso fosse de refrigerante, talvez eu pensasse no caso. Tem uma escola bem na frente da minha casa...)

5 de mai. de 2010

Um Glauco a mais nunca é demais

Os cartunistas de Santos, ao lado de colegas do interior e da capital paulista, estão homenageando Glauco na exposição "De Dona Marta a Geraldão - o legado de Glauco".

A mostra tem vinte desenhos, entre charges, ilustrações, tiras e caricaturas. Será na Gibiteca Municipal de Santos. Abre no próximo sábado, às quatro da tarde, e vai até 10 de junho.

Quem puder ir, está convidado. Meu desenho da mostra está ao lado. Para vê-lo maior, é só clicar na imagem.

30 de abr. de 2010

Não vou falar do Homem de Ferro

Vou falar, sim, da saúde de ferro dos velhinhos que precisam de remédio dado pelo governo.

Segunda-feira é um belo dia. Estimulante. Um marco da semana, de qualquer semana. Estímulo era o que eu precisava. Para encarar uma fila imprevisível no posto onde se busca o remédio.

O sol da última segunda-feira estava cumprindo seu papel com fervor. Na farmácia, umas cem pessoas aguardavam a vez de pegar seu remédio. Cem pessoas antes de mim, é claro. Todas resignadas com a falta de sorte, ou de dinheiro, que as fazia encarar aquele lugar uma vez ao mês.

Três horas e infinitos cafés depois, fui atendido por um funcionário pra lá de antipático, que deixou toda a simpatia pra lá. Peguei o remédio da minha mãe e tomei o caminho de volta pra casa. Na farmácia, dezenas de velhinhos, seus filhos e netos, ainda aguardavam a vez.

Se os velhinhos ainda tem saúde suficiente para esperar tanto tempo por um remédio, eu é que venho perdendo a minha saúde a cada vez que piso naquela farmácia. Pela cara de tacho dos funcionários, pelas horas de trabalho perdidas, pelos cafés pagos e enfiados goela abaixo, pela segunda-feira jogada no lixo. Mas mês que vem tem mais.

Pelo jeito, o verdadeiro Homem de Ferro é o aposentado brasileiro.

25 de abr. de 2010

Uma notícia que vai mudar a sua vida

A nova Miss São Paulo, eleita neste sábado, é de Piracicaba.

Estou emocionado. E, por que não dizer, realizado. É um reconhecimento a Piracicaba, que tem coisas boas. Aliás, tem coisas e tem boas também.

Quem falar agora que os piracicabanos são pamonhas, vai levar uma voadora com sotaque e tudo. Não por causa da nova Miss São Paulo. Mas porque eu não aguento mais ouvir piada velha. E ruim.

23 de abr. de 2010

Maria Alcina e Adoniran: bela tabelinha

Começo de abril, e escuto de um amigo: "Você só gosta de coisas de velho!". Após o julgamento sumário, sem defesa e sem perdão, fiquei com uma vontade doida de sacar uma bengala para acertar a cabeça do muy amigo.

Pensei nisso, ainda com certo ódio no coração, quando papeava com um amigo mais recente. Quase um mês depois, e os dois estávamos na entrada do novo show de Maria Alcina, de passagem por Piracicaba, no Sesi local.

Esse amigo recente não sabia que o maior sucesso da cantora foi uma canção de Jorge Benjor antes de ser Benjor: Fio maravilha. Ignorava que ela tinha sido jurada no programa do Raul Gil. E tampouco sabia que seu último sucesso foi a antológica Prenda o Tadeu.

Meio desanimado por ser um dinossauro precoce, tomei meu assento no respeitável público, quase todo ele ultrapassando os quarenta anos. Pra piorar minha reputação, o espetáculo trazia o repertório de outro master, Adoniran Barbosa, numa homenagem ao seu centenário.

Saudosa Maloca e Trem das Onze, canções entoadas há décadas pelos Demônios da Garoa, fazem o público pensar que a obra de Adoniran resume-se a isso mesmo: a dois lamentos de fim de noite pra velhinhos bêbados cantarem em uníssono desafinado.

Mas o show mostrou o contrário, fazendo o favor de calar a minha boca rabugenta. E Maria Alcina, nada rabugenta, abriu a dela no palco, junto à bateria de Gustavo Souza e o violão de Sérgio Arara, este o diretor musical do show.

A artista distribuiu à platéia fartas doses de energia e senso de humor, presentes no gestual exagerado, na voz de trovão e na presença cênica vital. A Carmen Miranda reencarnada só valorizou a obra tão peculiar de Adoniran Barbosa.

O set list trouxe uma geral de Adoniran, entre o romântico e a tragicômico, num dialeto ítalo-caipira. As músicas "assinadas" por Peteleco, mascote vira-lata do compositor, mereceram um segmento à parte. As mais conhecidas, citadas linhas atrás, abriram e fecharam a noite.

Maria Alcina vestiu figurinos diferentes nas duas partes do espetáculo, costurando-as. Na primeira parte, exibiu um arranjo de cabelos à la Brazilian Bombshell junto à malha colante preta e à camisa zebrada. Na segunda parte, a intérprete encarnou um legítimo pierrô bufante.

Uma ou outra canção foram vestidas de efeitos sonoros eletrônicos, arriscando desagradar aos defensores de um Adoniran mais "chorado". Só que não notei lágrimas rolando nas cadeiras. Todo mundo mexia, sim, mas nas próprias cadeiras, dançando sem parar. E dançariam mais no pedido de bis.

Numa dessas coincidências felizes, em pleno dia de São Jorge a platéia sambou ao som do primeiro sucesso de Maria Alcina, justamente o "Fio Maravilha", jogador perna de pau eternizado apenas na música de Benjor. Já Maria Alcina ainda bate um bolão. Não em futebol, mas em arte. Que não tem idade.

11 de abr. de 2010

Benito Di Paula é o máximo!


Além da minha homenagem ao cantor, compositor e pianista na caricatura logo acima, deixo o link de uma ótima entrevista com Benito Di Paula feita por Bruno Ribeiro.

Esse depoimento de Benito ao Bruno só confirma o óbvio ululante: artista também é gente, viu gente? Seja ele popular, erudito, brega ou marciano.

10 de abr. de 2010

Há quarenta anos, Paul bancou o estraga-prazeres....

... e acabou com os Beatles, aquela simpática banda de Liverpool que todo o mundo amava.

Não há ser humano razoavelmente informado em todos os países razoáveis que ignore a existência de Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr. E não há ser humano razoavelmente idoso que não tenha lamentado a dissolução do grupo.

Hoje os integrantes do conjunto (vivos, mortos ou muito vivos) são discos reeditados de tempos em tempos, livros que alimentam os mitos e livros que os descontroem, otários que não detém seu catálogo de canções e o perderam para outra lenda (Michael Jackson, você sabe), até videogames.

Todo o mundo está inundando a internet com depoimentos e reportagens sobre o quarteto fantástico. Como este blog às vezes segue a maré para não se afogar nela, segue abaixo um testemunho pessoal.

Os Beatles entraram na minha vida numa fita cassete, há uns vinte e poucos anos, lá na idade das pirâmides. Ou melhor: em duas fitas. Uma era do disco Help!. A outra, a coletânea 20 Greatest Hits. Curti a música básica e brincalhona da primeira fita. Fiquei besta com a evolução musical do grupo nas fases cobertas pela coletânea.

Com o tempo, fui ouvindo os outros discos, agora em CDs. Finalmente, no ano passado, comprei a maioria dos novos CDs remasterizados. Nas novas audições, passei a ter mais apreço pelo Álbum Branco (com as esquisitices de John & Yoko e tudo) e o Abbey Road.

As aventuras-solo dos Beatles passaram pelos meus ouvidos, idem. O disco Ringo, de 1973, é adorável. De George Harrison, mora no meu coração o insuperável All Things Must Pass. De Paul, a coletânea All The Best!. De John, o álbum Rock´N´Roll.

Se você ainda quer saber melhor quem foram esses tais de Beatles, há a "biografia definitiva" feita por Bob Spitz. Anthology, em CDs e DVDs, é a "biografia definitiva" na visão dos componentes do grupo.

Por coincidência - ou não? - estas linhas terminam ao som de "Because", uma das faixas mais emocionantes do último disco dos Fab Four. O fim que era apenas o começo. De uma lenda.

(Falei bonito, hein? Clichê total, mas bonito).

9 de abr. de 2010

"Culture-se"

Um projeto muito legal nasceu em Piracicaba. Trata-se da revista Fusão Cultural, editada mensalmente pela editora Bennu, da jornalista Rafaela Silva.

A revista tem distribuição gratuita em pontos escolhidos da cidade, mas pode ser lida também no seu site, com as mesmas características da versão impressa.

A Fusão Cultural de abril traz um pequeno artigo meu na nova seção "Arte é...", na página 9.

Para os internautas que odiaram os artigos recentes do blog sobre Sandy e a Banda Calypso, a revista publica junto ao meu texto uma foto ao melhor estilo coluna social.

Portanto, já é possível ver a cara desse polemista inconsequente que sou... só não cuspam na tela ou na revista porque é feio.

6 de abr. de 2010

Sandy, eu te amo!

Tá bom, o título dessa postagem é impactante... mas tem lá sua dose de exagero. Eu simplesmente gosto da Sandy, e digo alguns porquês. E contextualizo a bagaça toda também.


Nem lembrava que ela surgiu num programa com o papai a tiracolo e o irmão na tabelinha. Desde Shirley Temple, está comprovado que sempre dá pra faturar uns trocados a mais com filhos talentosos.


No caso de Sandy, os trocados viraram milhões, graças ao talento do pai cantor que deu um empurrão generoso nos filhos, e depois pelo talento deles próprios, que transformaram o empurrão em movimento permanente, para a frente e avante.


Gostei do canto do cisne da carreira dela com o irmão, o CD Acústico MTV. Nem precisava do Marcelo Camelo pra dar aval cantando junto. O pop despretensioso de Sandy, embora envolto em orçamentos e cifras nada despretensiosas, me parece mais interessante que as paupérrimas pretensões emepebísticas-universitárias do ex-Hermano.


Falando em MPB, há os defensores da tradição da "boa música", dispostos a trucidar garotas como a filha de Xororó. Meia dúzia de velhotes metidos a roqueiros, se tanto, babam em suas dentaduras pra exaltar Celly Campello, como se ela fosse superior à Sandy. Esquecem-se que a cantora de Lacinhos cor de rosa veio do interior de São Paulo, feito Sandy. E Celly era tão pop quanto a irmã de Júnior.


Mas não adianta argumentar. No juízo desses dinossauros, o pop pré-histórico será sempre melhor que o pop do tempo das bolsas Vuitton. É tudo pop, seja qual seja a época, mas no tempo deles era melhor, então...


Falando em comércio... Sandy sempre cantou embalada para consumo, junto com o irmão. E daí? Quem canta sem código de barras tatuado na bunda? Ou vocês preferem ouvir o mendigo do violão na esquina do seu shopping preferido? Isso se ele não for expulso e dedurado aos policiais da região pelo meganha uniformizado do shopping.


O ex-mendigo Seu Jorge sacou que não dava pra ser "alternativo" ou "marginal" e conseguiu saltar da calçada para o shopping, e daí para o mundo. Com direito a atuações em Hollywood e versões de músicas de David Bowie.


Como Sandy não é David Bowie, para tudo que ela faz sempre haverá uma matilha de chatos tentando desqualificá-la. A interpretação dela, por exemplo. Sempre cantou repertório pop baixos-teores, e sempre disseram pra ela mudar, que aquilo tudo não prestava. Aí ela foi cantar jazz, e passaram o trator em cima dela, pra variar.


Agora Sandy ressurgirá com um disco-solo de composições próprias, e certamente dirão que ela compõe mal. Não é ela a insuportável: seus críticos, ditadores de gostos ao gosto da classe média sem classe alguma, é que são.


E há mais motivos para dizerem que ela é uma otária. A carreira universitária dela, por exemplo, certo? Ela estudou letras na PUC de Campinas ... pecado mortal para uma suposta idiota pop. E as escolhas de par dela, então... Ela é casada com outro Lima, o Lucas. Um idiota-família, certo? Certo, ao menos no juízo dos críticos. Ou falta de juízo.


Ser pop, para Sandy, é ser a pecadora se confessando em pleno Vaticano, nas vistas do papa. Com todas as suas qualidades inadmissíveis e seus defeitos alardeáveis, milhares de cantoras e cantores dariam as suas gargantas para ser como ela: certinha, bonitinha, caipirinha, simplesinha, milionária... e... e...


Ora. E talentosa, uai.


PS em 07.04.2010: Aos que amaram minha defesa a esta artista singular, recomendo a leitura desta postagem aqui. Beijos.

Em vez de Páscoa, rock rural

Teve chuva e frio no domingo passado, além do feriadão de Páscoa. Um ser humano normal ficaria em casa, rodeado de familiares, enchendo a pança de bacalhau e chocolate.

O escritor destas maldigitadas foi literalmente mais longe: viajou quase duzentos quilômetros para ver Sá e Guarabyra em São Paulo, no Sesc Vila Mariana. Era o segundo show de lançamento do CD Amanhã, gravado com o falecido Zé Rodrix (programa do espetáculo ao lado, clique para ampliar).

A falta de chocolate na pança deve ter retardado a percepção do meu direito de ir e vir. Cheguei em cima da hora de um show que começava às seis da tarde, achando que começaria às sete da noite. Se o funcionário do Sesc não tivesse me dado um "psiu", me convocando a entrar no teatro, eu iria ouvir apenas o barulho dos meus passos de volta ao metrô mais próximo.

Após a busca da cadeira especialmente reservada, bem no meio do teatro, deixei as malas embaixo dela e contemplei a entrada da dupla no palco, junto à banda (Pedrão Baldanza no baixo, Fábio Santini na guitarra, Constant Papineanu nos teclados e Alexandre Soares na bateria).

No palco, só dava cabelo branco, a começar pelos cabelos dos cantores e compositores Luiz Carlos Pereira de Sá e Guttemberg Néri Guarabyra. Sá e Guarabyra para os íntimos: nada menos que toda a platéia. Esta também de cabelos brancos, alguns tingidos.

Sá é o front-man da dupla. Nos intervalos entre as canções, ele desfila seu charme de jornalista, ex-funcionário do Itamarati e compositor consagrado do Rock Rural. O rótulo, aliás, é a única coisa que parece tirar seu humor.

Já o humor do parceiro Guarabyra parece inabalável. E a única coisa que parece tirar o humor do autor de Casaco Marrom é atender fãs após o espetáculo. Terminada a função, o cabeludo compositor faz as vezes de "peixe ensaboado", segundo a língua ferina de Sá: desaparece rapidinho.

Zé Rodrix é o grande ausente da noite. Tem uma presença vital no CD Amanhã, o terceiro de músicas inéditas do trio, um reencontro após três décadas. Após a separação, Sá e Guarabyra seguiriam em dupla, Zé seguiria para a carreira-solo e a publicidade.

Os parceiros dedicam o show a Rodrix, óbvio. E cantam o clássico Casa no Campo, de Zé e Tavito, com direito a presença do último na platéia. Evitam as canções roqueiras que o parceiro lançou no próprio trio (Hoje é dia de Rock, Mestre Jonas). Mas arriscam interpretar um solo dele no CD Amanhã (a faixa-título).

O desfile de clássicos de Sá e Guarabyra domina a noite, com a presença da banda e sem ela, em números-solo, voz e violão, dos dois parceiros, em momentos distintos. Os hits mais esperados deixam os fãs desesperados pela demora em ouvi-los (Roque Santeiro, Dona, Sobradinho, Espanhola). Como se essa estranha espécie não suspeitasse que a apoteose final se daria com tais canções.

Ao fim e ao cabo do espetáculo, os parceiros se abraçam, os fãs vão para o saguão tirar as fotos ao lado dos ídolos, e eu vou ao encontro da primeira metade da dupla, já que a outra metade tinha se mandado. Faço uma caricatura de Tavito, o compositor de Rua Ramalhete e produtor do CD Amanhã (foto de Marlene Alves, ao lado), e me mando.

Posso não sacar nada de música, muito menos de rock, mas alma rural é comigo mesmo. Piracicaba que o diga. Ou melhor, digo eu mesmo no meu sotaque piracicabano. Sá e Guarabyra também me dizem muito, ainda.