6 de abr. de 2010

Sandy, eu te amo!

Tá bom, o título dessa postagem é impactante... mas tem lá sua dose de exagero. Eu simplesmente gosto da Sandy, e digo alguns porquês. E contextualizo a bagaça toda também.


Nem lembrava que ela surgiu num programa com o papai a tiracolo e o irmão na tabelinha. Desde Shirley Temple, está comprovado que sempre dá pra faturar uns trocados a mais com filhos talentosos.


No caso de Sandy, os trocados viraram milhões, graças ao talento do pai cantor que deu um empurrão generoso nos filhos, e depois pelo talento deles próprios, que transformaram o empurrão em movimento permanente, para a frente e avante.


Gostei do canto do cisne da carreira dela com o irmão, o CD Acústico MTV. Nem precisava do Marcelo Camelo pra dar aval cantando junto. O pop despretensioso de Sandy, embora envolto em orçamentos e cifras nada despretensiosas, me parece mais interessante que as paupérrimas pretensões emepebísticas-universitárias do ex-Hermano.


Falando em MPB, há os defensores da tradição da "boa música", dispostos a trucidar garotas como a filha de Xororó. Meia dúzia de velhotes metidos a roqueiros, se tanto, babam em suas dentaduras pra exaltar Celly Campello, como se ela fosse superior à Sandy. Esquecem-se que a cantora de Lacinhos cor de rosa veio do interior de São Paulo, feito Sandy. E Celly era tão pop quanto a irmã de Júnior.


Mas não adianta argumentar. No juízo desses dinossauros, o pop pré-histórico será sempre melhor que o pop do tempo das bolsas Vuitton. É tudo pop, seja qual seja a época, mas no tempo deles era melhor, então...


Falando em comércio... Sandy sempre cantou embalada para consumo, junto com o irmão. E daí? Quem canta sem código de barras tatuado na bunda? Ou vocês preferem ouvir o mendigo do violão na esquina do seu shopping preferido? Isso se ele não for expulso e dedurado aos policiais da região pelo meganha uniformizado do shopping.


O ex-mendigo Seu Jorge sacou que não dava pra ser "alternativo" ou "marginal" e conseguiu saltar da calçada para o shopping, e daí para o mundo. Com direito a atuações em Hollywood e versões de músicas de David Bowie.


Como Sandy não é David Bowie, para tudo que ela faz sempre haverá uma matilha de chatos tentando desqualificá-la. A interpretação dela, por exemplo. Sempre cantou repertório pop baixos-teores, e sempre disseram pra ela mudar, que aquilo tudo não prestava. Aí ela foi cantar jazz, e passaram o trator em cima dela, pra variar.


Agora Sandy ressurgirá com um disco-solo de composições próprias, e certamente dirão que ela compõe mal. Não é ela a insuportável: seus críticos, ditadores de gostos ao gosto da classe média sem classe alguma, é que são.


E há mais motivos para dizerem que ela é uma otária. A carreira universitária dela, por exemplo, certo? Ela estudou letras na PUC de Campinas ... pecado mortal para uma suposta idiota pop. E as escolhas de par dela, então... Ela é casada com outro Lima, o Lucas. Um idiota-família, certo? Certo, ao menos no juízo dos críticos. Ou falta de juízo.


Ser pop, para Sandy, é ser a pecadora se confessando em pleno Vaticano, nas vistas do papa. Com todas as suas qualidades inadmissíveis e seus defeitos alardeáveis, milhares de cantoras e cantores dariam as suas gargantas para ser como ela: certinha, bonitinha, caipirinha, simplesinha, milionária... e... e...


Ora. E talentosa, uai.


PS em 07.04.2010: Aos que amaram minha defesa a esta artista singular, recomendo a leitura desta postagem aqui. Beijos.

Em vez de Páscoa, rock rural

Teve chuva e frio no domingo passado, além do feriadão de Páscoa. Um ser humano normal ficaria em casa, rodeado de familiares, enchendo a pança de bacalhau e chocolate.

O escritor destas maldigitadas foi literalmente mais longe: viajou quase duzentos quilômetros para ver Sá e Guarabyra em São Paulo, no Sesc Vila Mariana. Era o segundo show de lançamento do CD Amanhã, gravado com o falecido Zé Rodrix (programa do espetáculo ao lado, clique para ampliar).

A falta de chocolate na pança deve ter retardado a percepção do meu direito de ir e vir. Cheguei em cima da hora de um show que começava às seis da tarde, achando que começaria às sete da noite. Se o funcionário do Sesc não tivesse me dado um "psiu", me convocando a entrar no teatro, eu iria ouvir apenas o barulho dos meus passos de volta ao metrô mais próximo.

Após a busca da cadeira especialmente reservada, bem no meio do teatro, deixei as malas embaixo dela e contemplei a entrada da dupla no palco, junto à banda (Pedrão Baldanza no baixo, Fábio Santini na guitarra, Constant Papineanu nos teclados e Alexandre Soares na bateria).

No palco, só dava cabelo branco, a começar pelos cabelos dos cantores e compositores Luiz Carlos Pereira de Sá e Guttemberg Néri Guarabyra. Sá e Guarabyra para os íntimos: nada menos que toda a platéia. Esta também de cabelos brancos, alguns tingidos.

Sá é o front-man da dupla. Nos intervalos entre as canções, ele desfila seu charme de jornalista, ex-funcionário do Itamarati e compositor consagrado do Rock Rural. O rótulo, aliás, é a única coisa que parece tirar seu humor.

Já o humor do parceiro Guarabyra parece inabalável. E a única coisa que parece tirar o humor do autor de Casaco Marrom é atender fãs após o espetáculo. Terminada a função, o cabeludo compositor faz as vezes de "peixe ensaboado", segundo a língua ferina de Sá: desaparece rapidinho.

Zé Rodrix é o grande ausente da noite. Tem uma presença vital no CD Amanhã, o terceiro de músicas inéditas do trio, um reencontro após três décadas. Após a separação, Sá e Guarabyra seguiriam em dupla, Zé seguiria para a carreira-solo e a publicidade.

Os parceiros dedicam o show a Rodrix, óbvio. E cantam o clássico Casa no Campo, de Zé e Tavito, com direito a presença do último na platéia. Evitam as canções roqueiras que o parceiro lançou no próprio trio (Hoje é dia de Rock, Mestre Jonas). Mas arriscam interpretar um solo dele no CD Amanhã (a faixa-título).

O desfile de clássicos de Sá e Guarabyra domina a noite, com a presença da banda e sem ela, em números-solo, voz e violão, dos dois parceiros, em momentos distintos. Os hits mais esperados deixam os fãs desesperados pela demora em ouvi-los (Roque Santeiro, Dona, Sobradinho, Espanhola). Como se essa estranha espécie não suspeitasse que a apoteose final se daria com tais canções.

Ao fim e ao cabo do espetáculo, os parceiros se abraçam, os fãs vão para o saguão tirar as fotos ao lado dos ídolos, e eu vou ao encontro da primeira metade da dupla, já que a outra metade tinha se mandado. Faço uma caricatura de Tavito, o compositor de Rua Ramalhete e produtor do CD Amanhã (foto de Marlene Alves, ao lado), e me mando.

Posso não sacar nada de música, muito menos de rock, mas alma rural é comigo mesmo. Piracicaba que o diga. Ou melhor, digo eu mesmo no meu sotaque piracicabano. Sá e Guarabyra também me dizem muito, ainda.

28 de mar. de 2010

De Harpo à harpa

Harpa eu só tinha visto em filme dos irmãos Marx. Parava tudo, e cada irmão fazia a sua cena. Na sua deixa, Harpo Marx tocava harpa, fosse qual fosse o momento do filme.

Na última sexta, no teatro do Sesi Piracicaba, consegui ver uma harpa nas mãos de uma pessoa diferente, e ao vivo, num show só para elas. O plural se refere a Cristina Braga, harpista do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, e a seu instrumento. Era um espetáculo de música popular brasileira, a tal MPB. Voz e harpa.

O show trouxe a harpista e um acompanhante ao violão. Cristina tem uma voz tão sussurrante que em alguns momentos fiquei sem entender o que ela cantava. E mesmo em canções mais pops, ágeis ou dramáticas, o sussurrar se mantinha. Um sopro de palavras.

Gostei do arranjo blues para Inutil Paisagem, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira. Mas o músico de coração da harpista chama-se Heitor Villa-Lobos, de cujo repertório ela tocou o que talvez seja minha peça preferida: Melodia Sentimental. Sem a letra de Manuel Bandeira, mas emocionante mesmo assim.

Várias canções inéditas do repertório do CD novo da intérprete, a ser lançado em maio pela Biscoito Fino, foram mostradas no show. E Cristina mexeu com o instrumento ora como harpa, ora como violão. Mexeu comigo também. Em tempos de pirataria deslavada, vou reservar uns tostões para comprar o CD, um mimo que vai se tornando tão raro quanto... uma harpa.

25 de mar. de 2010

Metrô das Onze

Ouvi dizer que a TV Globo fará um especial homenageando Adoniran Barbosa. 2010 é o ano do centenário de nascimento do compositor.

Adoniran Barbosa compôs aquela pérola chamada "Trem das Onze". A moçada do século vinte e um deve achar a canção coisa de avôzinho. Talvez porque seja interpretada pelos Demônios da Garoa, que parecem a dinastia do Fantasma, o Espírito que Anda: vivem morrendo e sendo substituídos, e o público nem nota.

O fato é que Adoniran morreu há décadas, e uma de suas últimas grandes intérpretes foi Elis Regina, que cantou com ele "Tiro ao Álvaro". Pena que ela também se foi: desta para uma melhor, espero.

E é aqui que eu queria chegar. Nas cantoras. E voltar ao especial da Globo.

O Som Brasil era um programa de Rolando Boldrin, exibido todos os domingos pela emissora, no começo da última década de 80. Depois de ter apresentador trocado - saiu Boldrin, entrou Lima Duarte - e sair do ar, o programa virou apenas uma marca.

O nome Som Brasil foi retomado pela Globo, para especiais mensais temáticos com artistas da MPB, vivos, mortos ou muito vivos. Se vivo, o homenageado canta alguns números para a platéia, geralmente velhos sucessos seus, revezando-se com novos cantores e cantoras.

Lembrei das cantoras e fiquei imaginando o que elas vão fazer com a obra de Adoniran Barbosa. A primeira coisa a ser limada nas interpretações será uma característica forte do compositor: o sotaque caipira. E isso me irrita pra mais de metro (me enfurece pra caramba).

Patricinhas e mauricinhos cosmopolitas odeiam ser associados a atraso, a involução, e sotaques denunciam tudo isso. Só irão cantar Adoniran porque é "clássico". Sabe como é: cantar clássicos confere credibilidade a carreiras ascendentes. Mesmo que, no fundo, elas prefiram cantar Caetano.

Cheio de esperanças na sensatez da humanidade, vou aguardar sentado mais esse programa Sono Brasil...

22 de mar. de 2010

Ligue já!

Nesta segunda-feira, tive uma experiência de quase-morte.

Sendo as segundas dias lerdos por natureza, em particular por conta da energia restante dos churrascos e feijoadas e macarronadas do dia anterior, consumidos para aguentar o resultado do futebol, não é de se admirar que a semana seja aberta com experiências sui-generis.

A quase-morte deste sedentário cidadão quase ocorreu após mais e mais e mais exercícios. Pra variar, no curso de teatro que frequento na unidade do Sesi em Piracicaba. Falta de ar momentânea não chega a ser quase-morte, oras, mas tô pegando as manhas de dramatizar um pouquinho essas linhas. É teatro, afinal. "Tudo brincadeira", como diz meu sobrinho após uma rotineira sessão de chutes na minha canela.

Alunos chegando, e já chegados entre si - alguns até demais, o que o teatro não faz - tiveram os primeiros experimentos da noite.

"Siga-o-chefe" testou paciências em legítimos exercícios de masoquismo mútuo consentido. Minha curvilínea companheira de aulas anteriores fazia movimentos circulares, rotativos e espaciais com as mãos em revezamento, e eu tinha que me virar, literalmente, pra seguir esses movimentos. Na vez dela me seguir, segurei o tchan, não a torturando com os movimentos que ela tinha feito pra mim. Foi só ouvir uma frase dengosa de desaprovação ("Ah, não faz desse jeito comigo!"), e meu instinto de justa vingança brochou. O que um estudante de arte dramática não faz por uma mulher.

Bolas jogadas de duplas para duplas, cada vez em quantidades maiores, testaram a coordenação motora da turma. Ainda bem que isso era só, e tão-somente, um teste. Se feito num palco, com ingressos pagos e platéia lotada, a brincadeira dos bate-bolas iria fazer rolar, coxia abaixo, os receptores das bolinhas, e não as ditas-cujas.

O jogo da caça de ratos por gatos, com troca de identidade a cada bicho capturado, fez a galera entrar em parafuso. "Quem sou eu, afinal?" Mas entre mortos (de cansaço pelas correrias insanas) e feridos (pelo pega-pega animalesco), salvaram-se todos.

Anda-que-anda, respira-que-respira, e o clímax da aula chegou. Interpretamos, sem direito a comissão, autênticos televendedores, no melhor estilo Shop Tour. Sem terno e sem gravata, mas com uma vontade louca de empurrar a potenciais consumidores produtos indispensáveis, bonitos e funcionais. Nas duplas, um vendia e o outro era o produto, este em contorcionismos inimagináveis para corpos balofos - exceção honrosa feita às mulheres do curso.

A cada pergunta da platéia, o produto oferecido virava algo diferente. Um celular de dois metros de altura, vendido por uma telemoça de dicção lamentável, foi uma oferta da noite. Um abajur de mil e uma utilidades, outra. A oferta derradeira foi uma cadeira para idosos, que virava massageadora e esteira. Bem que o intérprete da cadeira podia ganhar um produto desses: tava precisando, coitado.

Finda a aula, levamos pra casa um folheto anunciando um show de harpa, para daqui a três dias, naquele mesmo espaço do Sesi. Para quem encara tamanha gama de atividades, cada qual mais bizarra que a anterior, acreditar na existência de uma harpista de música popular brasileira é fichinha.

No nosso curso, graças à mui-querida professora Fátima, as fronteiras do inacreditável se alargam a cada dia. Se duvidarem, com trilha sonora de harpa e tudo.

17 de mar. de 2010

Micos e pinguins

O aquecimento global está fervendo nas bocas do mundo. Em homenagem a ele, um pinguim apareceu em plena aula de teatro. Foi na última segunda-feira, no Sesi Piracicaba, vinte e tantas pessoas aplaudindo um desajeitado bater de asas. Claro que não teve só isso.

Antes da aparição da ave rara, alongamentos, esticamentos e relaxamentos em geral abriram a aula. Os laboratórios prosseguem, agora mais numerosos. Muita experimentação em grupo, como num exercício em duplas que consistia num bate-bola, com a dita redonda existindo de forma imaginária. Se eu achava que um ser humano tinha limites para a emissão de suor, essa foi a chance de contrariar a tese. Ou pode ter sido a emoção de admirar a minha companheira de atividade, dona de curvas que batem um bolão. Vá saber.

A proposta de divisão em dois grupos para a adivinhação de títulos de filmes, interpretados por pessoas escolhidas dos ajuntamentos, rendeu risos sem fim. Em algumas adivinhações, parecíamos intérpretes de sinais para surdos-mudos, daqueles que aparecem antes dos programas de tevê. A tradução simultânea dos grupos para os filmes viajava a lugares nunca dantes imaginados. Gabriela Cravo e Canela, por exemplo, transmutou-se em uma singela escalada de montanha...

E teve o pinguim. A última interpretação de nome de filme coube a este que vos digita. Já com o corpo dolorido pelos exercícios anteriores, restou a este animal incorporar o outro, com bater de asas e tudo. Os aplausos encheram o ambiente, parecido com a calota polar derretendo. Se a ave fosse um desenho animado, estaria na disputa pelo Oscar. Mas era o Brasil e outro animal invadiu o local: um mico devidamente pago, com boleto e tudo.

Após os tradicionais avisos de fim de aula, todos saímos com a sensação de noite ganha. Mesmo sem troféu de homenzinho careca para enfeitar a estante. Mas um pinguim de geladeira cairia bem como prêmio de consolação.

9 de mar. de 2010

Dia da Mulher - e de teatro também

Ontem, Dia Internacional da Mulher, participei de outra aula do curso de teatro promovido pelo Sesi de Piracicaba.

Desta vez, a aula não foi no palco do teatro da instituição, mas no andar superior. Para os calouros na arte do fingimento com técnica, tivemos a agradável sensação de estar subindo degraus acima no aprendizado. Que não foi fácil, como sempre, mas sem desafio a vida não tem graça.

A primeira parte da aula se deu com os alunos agrupados em duplas, deitados em colchões, nos inevitáveis alongamento, aquecimento e relaxamento. Estalos em diferentes corpos e partes deles foram a trilha sonora daquele momento. Sorte que a minha parceira de sacrifício dominava a ginástica. Na minha vez de alongá-la, pelo menos ela saiu viva e andando.

Os exercícios feitos em trânsito, com movimentos frenéticos de pernas, braços, bocas e olhos, sugeriram um engarrafamento humano. A sorte é que nesse espaço não havia gente xingando a mãe do desavisado transitante ao seu lado.

Após as sequencias de exercícios, cada aluno leu e interpretou, ao seu modo, um texto previamente escolhido. O que mais se ouviu foram textos poéticos, geralmente de autores consagrados, como Manuel Bandeira, Fernando Pessoa e Vinicius de Moraes.

As exceções ficaram por conta da encenação silenciosa de uma ilha deserta por uma dupla (onde um dos atores era o vento), a interpretação intimista, mais pra tímida, de uma canção de Ivete Sangalo, uma cena de cotidiano sem palavras e uma enérgica leitura de um texto recheado de palavrões dirigidos a uma sociedade mais podre que qualquer insulto.

Este que vos digita experimentou a leitura, com direito a trejeitos aflitos, de um texto onde era descrita a via-crúcis de um ex-fumante, em tempo real, numa noite de fim de semana. Nunca fumei na vida, mas a aflição até que caiu bem no personagem. As palmas dos colegas da platéia acalmaram a aflição natural do candidato a ator.

O passo seguinte se deu com a divisão do grupo todo em células menores. Coube a cada grupelho a encenação de um poema de Drummond (aquele da "vida besta, meu Deus"), só que em imagens. Todos, pelo que vi, conseguiram pegar o espírito da coisa, uns mais, outros menos. Pena que, na vez do meu grupo, não dava pra ver o que nós próprios fazíamos. Um monitor de tevê cairia bem naquele momento.

Após os avisos de fim de aula e a assinatura de presença, saímos desconjuntados, em cérebro e físico, mas felizes. E prontos para a próxima aula, "eterna enquanto dure", como diria Vinicius de Moraes. A citação do Poetinha mostra que também captei o espírito feminino do dia 8 de março.

5 de mar. de 2010

Johnny Alf

Um a menos na música do Brasil.

Fiz uma visita a Johnny ano passado, e compartilhei aquela tarde de sábado com os leitores do blog.

Leia o relato aqui.

2 de mar. de 2010

Reclamações de tiozinho (parte 1 de muitas)

Se você é jovem demais para ter ouvido falar em Ford bigode, elepê, filme de máquina fotográfica e jornal em preto e branco, não leia as reclamações a seguir.

- Todo mundo quer ter "seguidores" no Twitter. Depois falam mal de Jesus, que tem seguidores desde o seu nascimento.

- Todo mundo quer ter "amigos" no Orkut e redes sociais similares. Mas mal conversa com as pessoas da própria casa.

- Todo mundo tem opinião nas caixas de "comentários" dos blogs. Mas vá arrancar mais que uma frase coerente, articulada e realmente opiniática dessa turma. O povo grita, grita e ainda se esconde em pseudônimos. Pensam que são super-heróis, com identidade secreta. Mas seus IDs são públicos, qualquer hacker os descobre facinho.

- Todo mundo pensa que é "artista" diante da internet. Todo mundo tem blog, todo mundo quer ser o vídeo do dia, a modinha do YouTube e do Twitter. Mas não quer fazer porra nenhuma além de um vídeo tosco. Fazer um segundo vídeo tosco com a mesma repercussão vai ser um milagre. Tão impossível quanto ser um BBB famoso pelo resto da vida.

- Todo mundo compra gato por lebre e ainda acha que é gato siamês. Um exemplo recente é essa água suja com rótulo, que não é nem refrigerante e nem água pura da fonte. Vocês sabem de que água estamos falando...

Os tópicos acabam, mas o mau humor diante das modernidades cibernéticas não. Dá-lhe, fígado azedo! Não há antiácido que chegue.

1 de mar. de 2010

Só pra gente sensível

"Teatro não é coisa de viado!"

Com o impacto desta frase, terminou a primeira aula de teatro que tive no Sesi da Vila Industrial, em Piracicaba. Aula de duas horas, uma por semana, a ser realizada até dezembro de 2010. Considerando que este ano teremos eleições, que em si são um teatro só, resolvi pegar carona nesse clima e aprender como é que se representa.

Os teatros do Sesi são espaços de intensa programação. Frequento o teatro da instituição em Piracicaba há tempos, principalmente para acompanhar a programação anual de teatro de bonecos, arte que eu adoro desde moleque, quando via na tevê o Muppet Show e o Bambalalão.

No teatro da cidade, a professora Fátima ensina representação, em módulos básicos e avançados, para turmas de todas as idades. Sou do módulo básico. Não fosse calouro, deixaria de cometer um erro básico: ir de calça jeans ao curso. Os exercícios de relaxamento, alongamento e concentração deixam qualquer roupa em trapos. As costas, as pernas, os pés e a coluna também. Roupa dá pra trocar, corpo não.

Assim como nas minhas aulas de radialismo no Senac de Limeira, no ano passado, tive contato com uma turma muito heterogênea. De adolescentes que encaram a obrigatória apresentação para os colegas como uma tortura chinesa, passando por balconistas de farmácia com uma baita saúde que eu vou te contar, até senhoras que farão das aulas um passatempo que compensará a distância dos filhos emancipados. O que achei impressionante foi a timidez da maioria para gestos simples, como abraços apertados e o olhar nos olhos. Por saber até onde vai a minha timidez, nunca deixo de me espantar com a timidez alheia.

Houve espaço até para discursos que cairiam muito bem como testemunhos num púlpito, diante do pastor da vez. Alunos de uma turma anterior, presentes como visitas, aconselharam os novatos a viver profundamente a experiência do aprendizado. "Depois disso, vocês nunca mais serão os mesmos!", proclamou o convertido aos deuses do teatro.

Ah, e teve a frase lá de cima, sobre a suposta boiolice dos praticantes do esporte teatral. A tal sentença veio após um depoimento de fim de aula, onde um colega secundava o entusiasmo do conselheiro do parágrafo anterior. "Teatro mexe com o seu eu, ele já está mexendo com o meu".
Estou louco pra ver a próxima aula. O que vai ter de sensibilidades reprimidas aflorando não estará no gibi. Teatro mexe com a gente mesmo.

Chico e Mano Brown, pra mim é tudo igual

Presta atenção nessa pergunta. Você já prestou atenção em letra de música? Ou melhor. Presta atenção em letras de canções?

Há um senso comum, por exemplo, que as letras do Chico Buarque são boas. Nem cabe entrar no mérito da questão, porque desafiar o senso comum às vezes é besteira. Então fiquemos com a verdade estabelecida. As letras do dono dos olhos azuis mais comentados dos anos 60 são papa-fina, e fim de papo.

Numa aula de português de década e meia atrás, uma letra de Chico despertou a atenção deste digitador: O Meu Guri. Nem lembro se a análise da canção na aula valia nota. Até aquele momento a canção me era velha conhecida e cantada nota a nota. Jamais parei para ler o encarte do vinil e atentar para os duplos sentidos da historinha do moleque marginal pré-tráfico. Cantar qualquer letra não fazia diferença. Podia ser russo que surtiria o mesmíssimo efeito.

Mas houve o porém, que ele sempre vem. No momento da análise, saquei a genialidade do velho Chico. E dá-lhe adjetivos hiperbólicos. Contador de história genial, rei das metáforas, o máximo. Claro que sem a harmonia corpóreo-intelectual da professora das melenas amarelas não haveria análise buarqueana que sobrevivesse à minha apreciação. Mas não se pode exigir tudo de um espinhudo espectador de aula de português.

O tempo passou e o repertório pós-adolescente do moleque metido a besta aumentou. Houve a fase jobiniana, após a morte do maestro-compositor da Bossa Nova, onde amigos normais eram chutados do meu convívio, caso manifestassem rejeição ou ignorância a respeito de Tom Jobim. O que quase fiz com outra professora, que declarou a obra de Tom imprestável, ao contrário da de Chico Buarque. Bom... se essa outra mestra também tivesse cabelos cor de ouro, talvez eu levasse em conta o juízo dela. Ou a falta de.

Desde então, outras músicas e canções passearam por estes ouvidos, em vitrolas, aparelhos 3 em 1, tocadores de MP3, até as caixas de som vagabundas do computador. De letristas inacessívelmente intelectualizados a criadores dos hits com duração até o próximo verão, ouvi de tudo. E continuei a gostar apenas de música. A diferença é que deixei de me importar com as possíveis consequencias que isso possa trazer ao meu convívio social, já tão reduzido por natureza, mas que beleza.

Podem anotar nos seus caderninhos. Vinicius de Moraes, Roberto Carlos ou MC Leozinho, pra mim tudo é música!

E tenho dito. Com todas as letras.

[Após a feitura das maldigitadas acima, descobri apreciar um CD pelas as suas letras, ou versões, feitas por Guilherme Arantes para canções americanas dos anos 70. O curioso é que Guilherme não costuma ser considerado um letrista de primeira linha. O que prova que as exceções só confirmam a regra. E as idiossincrasias alheias, como as minhas, podem ser relativizadas com um singelo PS]

17 de fev. de 2010

Cartola afogado

Arnaud Rodrigues foi redator e personagem de humor na TV, principalmente junto a Chico Anysio.
Lançou discos (um deles com o clássico Vô Batê Pa Tu), apareceu na novela Roque Santeiro como o Cego Jeremias e no programa A Praça é Nossa.
E nos últimos anos de sua vida se torna cartola de futebol em Tocantins, e vai a pique junto com uma lancha - não num rio ou no mar, mas em um lago.
O destino de cada um é mesmo imprevisível. Como o final de uma piada.

19 de jan. de 2010

Depois ainda falam mal do Datena

O impacto dos desabamentos e mortes em Angra dos Reis foi substituído pelo espanto com o terremoto no Haiti. Mesmo assim, o Gugu Liberato tirou uma casquinha da tragédia brasileira, indo lá construir uma casa nova para uma desabrigada.

O que tem me deixado distante da televisão é a falta de simancol das emissoras, empenhadas em faturar audiência com a desgraça alheia, tanto em Angra quanto no Haiti.

Revoltante a atitude de uma repórter global numa tentativa de resgate de vítima do terremoto. A intrépida jornalista empunhava um microfone, pronta a arrancar um depoimento da vítima perdida nos escombros.

Lembrei de outra atitude cretina de outra repórter global nas últimas Olimpíadas. A ginasta Daiane dos Santos, cercada de expectativas por uma conquista de medalha para o Brasil, não se saiu bem nas competições em que participou.

Provas terminadas e resultados divulgados, lá foi a repórter da Globo colocar a ginasta no paredão: "Por que você perdeu?" Conformada com a derrota, Daiane respondeu o que uma pessoa sensata, mas triste, responderia numa hora dessas.

Não satisfeita, a repórter insistiu no interrogatório, talvez esperando uma lágrima ou um pedido de perdão ao povo brasileiro. Que não vieram.

Os departamentos de jornalismo deveriam se misturar aos departamentos de shows das televisões. No fim das contas, é tudo espetáculo mesmo.

15 de jan. de 2010

O humor do velho Chico

Tá aqui um pitaco sobre Chico Anysio que eu gostaria de dar desde o fim do ano passado. A natural dispersão das festas me impediu de dá-lo antes. Vai agora.

Vi na Globo o especial de Chico Anysio, o humorista mais amado do Brasil durante décadas.

Chico começou no rádio como redator de humor, teve músicas gravadas por intérpretes como Dolores Duran, inventou com Carlos Manga o programa em que se vestia de diversos personagens, sentiu o gosto verdadeiro da fama em sua onipresença na tela mais cobiçada pelos artistas, caiu no ocaso após ver seu último projeto, a Escolinha do Professor Raimundo, fora do ar.

A família do humorista esteve representada nos últimos anos na tevê por seus parentes: a sobrinha diretora Cininha de Paula, e principalmente Bruno Mazzeo, protagonista do Cilada, programa da TV a cabo que acabou ano passado.

Já o programa especial Chico e Amigos, conduzido pelo veterano Mauricio Sherman, trouxe vários personagens que o velho comediante um dia encarnou. Popó, Haroldo, Justo Veríssimo, Coalhada, contracenando com atores como Milton Gonçalves e Lima Duarte. O último bloco trouxe uma bela ideia: o Professor Raimundo numa sala de aula formada apenas pelos personagens de Chico, todos feitos por ele, numa combinação virtual bem interessante.

A imprensa e o povo elogiaram o programa. Ninguém disse o óbvio: o velho Chico não possui mais condições físicas de realizar um programa como os de antigamente. Era visível que suas vozes, outrora tão diversas nos vários personagens, reduziram-se a um sopro rouco invariável. E nenhum dos tipos se move em cena.

A idade e as limitações impostas por ela poderiam tornar qualquer crítica a Chico um exercício de incompreensão e crueldade. E o artista também tem todo o direito de querer voltar à arena onde um dia reinou absoluto.

Só que as novas gerações jamais olharão um programa de Chico Anysio atual, feito esse exibido pela Globo, e acreditarão que o idoso protagonista seja o gênio que seus pais e avós tanto assistiram em outros momentos. É o mesmo caso de Roberto Carlos, em seus especiais anuais.

Vemos essa turma mais pelo que foram do que pelo que são hoje, numa deferência (e reverência) por serviços prestados.

3 de jan. de 2010

Chega de rituais

Passei incólume pelo Natal e pelo Ano Novo. E pelo meu aniversário, um acontecimento do terceiro dia de cada ano. Meu estômago é um só; as celebrações, muitas.

29 de dez. de 2009

Igual de novo

No Ano Novo teremos eleição, Copa do Mundo, Roberto Carlos e Ronaldo no Corinthians, brigas entre países, televisões e famílias.

O cardápio de repetições , porém, não pára por aí.

A esperança num futuro melhor, o bom humor, o andar para a frente e o dinheiro no bolso para uma vida digna devem continuar também, com o primeiro ítem desta frase puxando os demais.

Que venha 2010!

11 de dez. de 2009

Quatorze cabeças pensam melhor que uma



Na foto, da esquerda para a direita, os seguintes elementos: Danilo, Giovanna, Vinicius Savoi, Érico, Nivaldo, Carlos Alberto, Daniel, Paulinho, Thais, Silvia, David, Lucila, Luciana e Carmelina. Faltaram o Luis e o Jorge.

Apesar dos olhos vermelhos, minha turma do curso de Radialista, que esteve religiosamente às terças e quintas de 2009 no Senac de Limeira, mandou muito bem.

Entre alunos e professores, orientadores e palestrantes, chuvas e trovoadas, salvaram-se todos.

9 de dez. de 2009

Mais uma voz ecoando no espaço

As chuvas continuam, os cães passam, a caravana passa e eu me formei locutor de rádio.

A formatura foi no Senac de Limeira, ontem à noite.

Não é uma notícia que abale as estruturas da sociedade, mas eu queria que os leitores deste espaço soubessem disso.

Obrigado pela atenção.

5 de dez. de 2009

Dois flagrantes de gentileza

1. Andando pelo centro da minha cidade, ia subindo até a praça central. Andando a passos largos, antes de atravessar a rua, quase ia topeçando num pedaço de madeira que impedia o caminho. Um cara magro, de cabelos brancos, surgiu do nada, e tirou a madeira da frente. Segui meu caminho, olhei para trás. Tanto a madeira quanto o inesperado benfeitor haviam sumido.

2. No fim de noite da última quinta-feira, fui a uma padaria bem animada com colegas de um curso cuja última aula tinha acabado, numa cidade da minha região. A padaria tinha gente saindo pela quadrilha e não pelo ladrão. Muita gente, enfim. Após meia hora, tive que ir embora à rodoviária, para voltar à minha cidade. Desci do carro da turma e corri para o ônibus. Lá, vi pela janela a turma me acenando em despedida. Eles tiveram a gentileza de ficar e verificar se eu não perderia o ônibus...

Haja coração, como diria o Galvão.

2 de dez. de 2009

A voz do Silvio

No momento em que digito estas linhas, meio mundo já deve ter falado e especulado sobre o locutor que trabalhou a vida toda junto a Silvio Santos.

No título da postagem, não me refiro à voz do Homem do Baú. Estou falando da voz que o dono do SBT empregava.

A voz de Luiz Lombardi Neto era inconfundível. Homem que uma apresentadora da Record, confiando demais em sua ignorância, chamou várias vezes, ao vivo, de Carlos Lombardi, este um noveleiro bobagento da Globo.

A mim, que acompanho de forma irregular o desempenho dominical do "patrão" e seu fiel escudeiro desde moleque, a morte de Lombardi causa estranheza. Primeiro, pela proeza de morrer dormindo. Segundo, pela fama num meio onde a imagem é tudo, ou quase.

O locutor mais famoso depois de Lombardi na televisão brasileira talvez seja Dirceu Rabello, atuante nas chamadas de todos os programas da Globo. A vantagem de Lombardi sobre o locutor global é que o primeiro era conhecido pelo nome.

Se você perguntar a um telespectador da Globo quem é Dirceu Rabello, terá uma interrogação no lugar da resposta. Lombardi tinha uma voz, mas tinha um nome também. Nome mais que conhecido pelas "colegas de trabalho" de Silvio Santos.

O empregador de Lombardi já declarou que o segredo de seu sucesso talvez fosse a voz. O empregado de Silvio também fez sucesso com a voz, mas não descobriu o segredo da fortuna, como seu patrão. Carinhosa ou ironicamente, o locutor do SBT deixa sua voz gravada no inconsciente coletivo de três gerações, de donas de casa a nerds incorrigíveis.

PS. A morte de Lombardi acontece na mesma semana em que concluo meu curso técnico de radialista locutor no Senac, em Limeira. Não sei se gostaria de ter a mesma voz empostada do falecido empregado do SBT, mas adoraria ter um emprego garantido pelo resto da vida, como o Lombardi. Aguentar um patrão como o Silvio já são outros quinhentos, mas não se pode querer tudo nesta vida.