4 de abr. de 2009

Eu ouvi um CD da Banda Calypso

Depois de ler o título deste post, muita gente vai abandonar este blog. Quem ficar, senta que lá vem história. A história da Banda Calypso.

Liderada pelo guitarrista Chimbinha e a vocalista Joelma, a banda se fez sem apoio de gravadoras, televisões e apresentadores paquidérmicos.

Em depoimento à revista Trip, Chimbinha conta como o sucesso veio, ainda nos anos 90. Sem grana para que as rádios tocassem suas músicas, o músico se utilizou de um expediente curioso. Em Belém do Pará, divulgou o primeiro CD da Calypso nas "rádios de poste", alto-falantes que tocavam o material.

Com o sucesso nessa mídia tão peculiar, as rádios "normais" começaram a tocar a banda. E 50 mil CDs tiveram distribuição gratuita em todos os espaços em que Joelma e Chimbinha faziam shows.

Milhões de CDs vendidos depois, o resto da história vocês sabem. Ou fingem que não.

Meu contato inicial com a banda se deu em gôndolas das Lojas Americanas, repletas de discos dos Calypso. E através de comentários familiares sobre a voz aguda e os "quilinhos a mais" de Joelma. Ignorando tais mimos à vocalista, escolhi o Acústico, de 2008, para uma audição.

As músicas da banda, ao contrário do que poderia supor este ouvinte de bossa nova e MPB, não funcionaram como castigo ou tortura psicológica. Joelma é a versão feminina de Zezé di Camargo. Cantor que também não me soa inaudível. Se fosse, isso só denunciaria minha surdez crônica.

"Doce mel", a segunda faixa do Acústico Calypso, passa perfeitamente numa prova dos nove pop. É melhor que muita bagaceira de bandas pop-rock dos anos 80. "Fórmula mágica" é outro exemplo. "Máquina do Tempo" também. Títulos atraentes, sons pop pra valer.

As canções são todas parecidas umas com as outras. Podem exalar um romantismo barato. E daí? A miscelânea chamada música pop é um repeteco permanente, mais ainda a partir do rock and roll. Tem muita música maravilhosamente elaborada por aí, mas que é um porre de ouvir. E certos deuses da MPB vivem de encher o saco dos mesmos ouvintes que os elevam ao Olimpo, adivinhem com quê? Com romantismo barato. Em MPB, no entanto, romantismo é qualidade. Na Banda Calypso, é defeito.

Joelma e Chimbinha são gênios da canção pop atual. Com o seu cancioneiro popular, varrem para debaixo do tapete parte da classe média metida a besta do século 21. Ou quase toda ela.

2 de abr. de 2009

Eu no Bis

O novo blog-portal Bis está no ar, dentro do site da MTV. É aberto à participação dos internautas.

André Forastieri, que comanda a empreitada com Bel Marcondes, explica melhor o lance aqui.

Na estréia do Bis, um desenho meu foi selecionado para o site.

Clique no quadrado para ir a ele. Cada um no seu quadrado...

29 de mar. de 2009

O teatro do Olivier

Imagine uma Cozinha Maravilhosa da Ofélia no teatro. Tirando a senhora quituteira e acrescentando um Fusca verde-oliva, é mais ou menos o que acontece no espetáculo Olivier Fusca e Fogão.

Olivier Aniquier é o cozinheiro francês que ganhou espaço na televisão como apresentador. Nunca vi uma performance sua na TV, mas vi seu talk show culinário no Teatro Municipal Dr. Losso Netto, em Piracicaba, a 170 quilômetros de São Paulo.

A performance começa com um telão, onde o público acompanha, com trilha sonora nordestina, o olhar de alguém visitando feiras, lugares e pessoas pitorescas do Brasil.

Alguns minutos depois, ainda no telão, o astro da peça aparece saindo de um fusca. Em seguida abre-se a cortina, e ele aparece no palco empurrando o carro. A cozinha vai sendo montada pelo próprio Olivier em pleno tablado. A idéia é fazer pratos fáceis para uma noite romântica a dois. Os casais são recrutados na platéia e orientados a fazer a comida na hora.

A agilidade e o carisma do apresentador garantem o sucesso da noite, principalmente entre o público feminino. Durante a peça, Olivier arrisca uns passos de samba e interage com o Fusca para garantir a ausência de "barrigas" entre um prato e outro.

Tive lá minhas ressalvas ao espetáculo. A principal é o recurso da interação com o Fusca, nomeado pelo protagonista como bom companheiro de andanças Brasil afora. Se Olivier fosse de fato um ator, saberia manejar esse recurso com mais competência e humor.

Outra ressalva fica no "falar pra dentro" do cozinheiro. No começo da peça, não entendi bulhufas do que ele falava. Com o tempo correndo, me acostumei e compreendi melhor as palavras do francês. Ele deve saber dessa dificuldade, pois ironizou o fato no palco.

A duração prolongada da função também incomodou. Duas horas vendo alguém cozinhar é cansativo. Vai ver, fiquei mordido por não ter saboreado um dos pratos divididos com a platéia.

Terminada a comilança, Olivier mostrou no telão a homenagem que um bloco de Carnaval fez a ele há dois anos, no Rio de Janeiro. Cortina fechada, boa parte do respeitável público saiu achando Olivier uma delícia. Não só no sentido gastronômico do termo.

27 de mar. de 2009

Proibidões

Um é o Rei, a outra é a Rainha.

O Rei vai fazer cinquenta anos de carreira. A Rainha está chegando perto dos cinquenta. De idade.

O futuro Rei começou querendo trilhar o tapete vermelho da bossa nova. Os arautos do papa João o elegeram bobo da corte. Jovem guarda da nascente música pop brasileira, proseguiu impávido. Até ser elevado a Rei da música popular verde-amarela.

A futura Rainha começou nada tímida, roçando o cetro de outro Rei, o do futebol. Adotada por um russo mancheteiro, a serva cresceu e apareceu. Até que uma tevê com ares imperiais deu um trono à loira nada burra.

Em comum, o Rei e a Rainha têm o gosto por atitudes excêntricas. E por novas atitudes que só confirmam a excentricidade das atitudes anteriores.

O Rei proibiu o acesso aos seus súditos ao seu primeiro álbum de canções, com sabor de bossa nova. Mas pôs nas lojas um álbum recente em que cantava... bossa nova.

A Rainha proibiu aos seus súditos o acesso a um filme em que tratava um garoto com todo o amor. Mas declarou a um programa de tevê que, de seu leito, costuma explodir em prazeres múltiplos.

Como súdito, eu me confundiria para atender a tais majestades. Deve ser mais fácil a carreira de bobo da corte.

Maria Rita e Moacyr Franco

Os amigos sabem da minha paixão por músicos em geral. Os leitores deste blog devem ter desconfiado.

Os chegados sabem que eu gosto de registrar essa paixão em artigos do tipo "olha com quem eu falei hoje". Johnny Alf é o exemplo mais recente.

Com a Maria Rita a conversa foi por e-mail. Na época, ela estava em plena turnê do primeiro CD. E tensa, por causa da expectativa do público e da imprensa.



O Moacyr Franco eu conheci pessoalmente. Ele vestido de Jeca Gay. Os dois, entrevistado e entrevistador, sem saber onde enfiar as respectivas caras.

Clique nas imagens para ampliar e ler os textos.

20 de mar. de 2009

Cruzes!

Ninguém acredita em braços cruzados. No tempo em que os sindicatos lutavam por salários maiores em vez de esmolar manutenção de empregos, a polícia metia cacetada nos trabalhadores. Pelo menos eles apanhavam de macacão. As cores escuras dos uniformes escondiam as manchas de sangue.

Sem macacão, os ex-grevistas empunham seus olhos de vidro e caras de pau em plena calçada. E continuam levando cacete da polícia. O que nos leva a pensar que bom mesmo deve ser trampar de policial. Sempre vai ter alguém pra levar porrada. Serviço para os trabalhadores de farda não falta.

Mais fácil acreditar em pernas cruzadas. As mulheres fizeram verdadeiras cruzadas contra sua transformação em mulheres-objeto pelos companheiros. Reivindicações mais que justas na maioria das vezes.

No entanto, como o ser humano sempre dá alguma mancada, sendo feminista ou feminino, não demorou para a falta de simancol derrubar a credibilidade de muitas militantes. Hoje, muitas querem apenas falar mal dos homens de um jeito cool. E serem fãs da Ana Carolina. De pernas cruzadas.

Ai do homem que insinuar vulgaridade nessa cruzada, a de pernas. Será vilipendiado e esculhambado até a centésima geração. Isso se ele não virar uma espécie em extinção. Porque não dá pra cruzar com mulher chata.

Pronto. Em poucos parágrafos, consegui mostrar meu lado retrógrado e machista. Embora parentes próximos me achem mesmo um aboiolado. Isso de trabalhar escrevendo e desenhando o dia todo, e em casa, não deve ser coisa de homem. Que cruz para carregar, meu Deus.

(Texto porco e desenho chauvinista: Érico San Juan)

18 de mar. de 2009

Mallu, chateando os chatos

O povo brasileiro, até prova em contrário, é um povo que adora dar palpite em tudo. Da vida do vizinho ao último discurso do presidente.

Um dos últimos assuntos em que o brasileiro médio resolveu meter seu espaçoso nariz foi a vida de Mallu Magalhães. Cantora e compositora surgida na internet, em pouco mais de um ano saltou do MySpace ao Domingão do Faustão.

Muitos se irritam com o jeitão desencanado-sonso da adolescente. Vários se chateiam com as opiniões imaturas da artista sobre casa, família, escola e ícones pop. Todos ficam de orelhas em pé com seu namorado Marcelo Camelo, também cantor e compositor.

Adolescentes costumam desempenhar o papel de párias sociais, num mundo nada preparado para acolher pessoas em transformação. E nem precisam ser transformações na sociedade, na família e em outras sagradas instituições. Bastam as transformações no corpo, na cabeça e na cara de cada vítima. Em Mallu não foi diferente. Aliás, não é.

Tão nova, coitada, Mallu desperta uma inveja danada. Sentimento que faz murchar flores, alegrias e almas. "Como pode? Alguém que nem terminou o ensino médio virar artista?", dirão os chatos de plantão. Mallu, para raiva dos olhares atiradores de faquinhas, provou que pode sim, ué!

O tempo dirá se Mallu Magalhães será uma artista legítima ou uma popstar mala. Palpiteiros não faltarão. Inclusive este que vos digita. Amém!

(Caricatura e texto: Érico San Juan)

16 de mar. de 2009

Depois da Dercy...

... mais um ser sui-generis bateu as botas: Clodovil.

Tudo bem que ainda temos o Paulo Maluf pra render nossas (cof! cof!) homenagens. Mas tem um porém.

Depois que o ex-prefeito, ex-governador e ex-candidato bater as botas (ou sapatos Vulcabrás), quem os humoristas irão sacanear? Um ex-BBB qualquer?

Assim não brinco mais, droga.

14 de mar. de 2009

Toscos e felizes

Tem ruindades que a gente aceita na boa. Não chego ao exagero de achar que tudo que é tosco é bom, mas certas ruindades têm lá seu charme, mesmo que essa virtude seja sempre questionável.

Como tenho muita simpatia pela chamada cultura de massa, vou me limitar ao relato de certas ruindades vindas dela.

Vejam o Tiririca, por exemplo. Antes do fim do século passado, quando cantores de sucesso ainda vendiam milhões de discos, o clone do falecido Zacarias fez um disco independente no Nordeste e foi descoberto por um desses produtores com grande tino comercial (ou olho gordo para sucessos, dependendo do ponto de vista).

Rapidamente, o ex-banguela lançou um CD com a inesquecível canção Florentina, um prodígio de concisão musical e agressão ao bom português (a língua, não o bigodudo dono do boteco da esquina).

Após seu sucesso efêmero, o palhaço estilo cirquinho de periferia emplacou uma carreira de humorista na televisão. Em suas performances, ri mais que o próprio espectador. Este, por sua vez, chora de saudade do Zacarias.

E o Roberto Justus? Não bastasse ele ser objeto de chacotas de noventa por cento dos humoristas nacionais, por causa da pose de bom moço somada à emoção de um manequim de vitrine, demitiu outros candidatos a bons moços e boas moças em plena arena televisiva, às vistas de uma seleta audiência. Provavelmente composta de ricos ou desempregados, dado o horário avançado do programa.

Dando sequência aos atos inusitados fora do seu ambiente normal de trabalho, o publicitário gravou um CD como cantor, somente com clássicos da música internacional. Para repartir o pagamento de tamanho mico, chamou Afonso Nigro, ex-integrante do grupo Dominó, famosa boy band dos anos 80. Ter sobrevivido às unhadas e gritos de adolescentes enlouquecidas já torna Afonso um especialista em tarefas ingratas, como a produção do mais bem cuidado CD de cantor de churrascaria da atualidade.

Justus é ousado, sem sombra de dúvida. Mas ter lançado o CD por uma gravadora multinacional deve ajudá-la a se aproximar cada vez mais da bancarrota.

Daria para listar muitos outros toscos. Pena que levantar essa lebre provoque discussões acirradas e surras homéricas entre facções rivais, feito um clássico Palmeiras versus Corinthians, com direito a Ronaldo se arrastando pelo campo. Por via das dúvidas, melhor apitar o final da partida e colocar a lebre no chão. E zerar o estoque de metáforas, tão toscas quanto os personagens desta crônica.

(Caricaturas e texto: Érico San Juan)

75 anos de um outro João

Vocês me dão licença pra falar de um músico de quem gosto muito? Obrigado.

Ele é acreano, mas viveu a vida toda no Rio de Janeiro.

Esteve ao lado de João Gilberto e Tom Jobim na gênese da bossa nova, mas nunca participou do movimento.

Foi aos Estados Unidos tocar jazz, mas acabou impregnado de latinidade.

Passou a vida semi-anônimo, mas depois dos sessenta de idade tornou-se uma instituição da música popular, dentro e fora do Brasil.

O humor, o ritmo e o sol da sua música encantam minha existência.

E quem quiser que cante outra. Como João Donato sempre fez.

(Caricatura e texto: Érico San Juan)

Certa noite numa sexta-feira 13...

Era meia-noite de uma sexta-feira 13. A tremedeira se apoderava daquele ser alérgico a morcegos, quartos escuros e sextas-feiras 13.

Um lobo começou a uivar no horizonte. Para aquele ser medroso e supersticioso, parecia que o lobo estava a centímetros de distância, tão impressionante o uivo a gongar nos ouvidos do infeliz (o medroso, não o lobo).

A luz do quarto se apagou. O ser medroso ficou aterrorizado de verdade. Era muito azar de uma só vez. Bem que ele queria estar bem longe dali, quem sabe a sós com a namorada. Mas se lembrou do insuportável: a namorada o abandonara semanas antes. Tanto azar naquela sexta-feira 13 só podia ser praga da ex-amada.

Como que atraído pelos maus agouros acumulados em tão poucos minutos, um morcego voou na direção do melindrado homem. O desventurado começou a passar mal, sentindo o ar faltar. A dois passos do pobre homem, o morcego parou. Era o fim!

Num passe de mágica, surgida dos ares misteriosos da noite, o morcego tomou feições humanas, estufou o peito e proferiu a ameaçadora sentença:

- Quer casar comigo, bofe?!

(Publicado no blog da Revista MAD)

11 de mar. de 2009

Eu na MAD - 3

A revista MAD está apagando sua primeira velinha na editora Panini.

Uma amostra da edição de março está aqui. Os eventos para comemorar o aniversário da revista estão aqui.

Neste número, fiz uma sátira ao filme Crepúsculo. E um "cartum fotográfico" na seção Salada Mista.

A revista MAD 12 está nas melhores bancas do Brasil, a 6,50.

2 de mar. de 2009

SketchCrawl - Dia de Desenhar na Rua (Piracicaba)

Ao lado, o cartaz do SketchCrawl Piracicaba (clique na imagem para ampliá-la).

A ilustração é do Edu Grosso, ativo participante de salões de humor mundo afora, além de versátil artista plástico.

O evento foi realizado neste sábado, dia 7 de março. Cerca de vinte artistas retrataram as proximidades da Casa do Povoador, às margens do Rio Piracicaba.

Os trabalhos serão reunidos numa exposição. Mais detalhes em breve.

Dica no Blog do Noblat

Clique aqui para ler o comentário que Ricardo Noblat, colunista do jornal O Globo, fez sobre nosso blog.

28 de fev. de 2009

Discutindo a relação

Num fim de semana calorento, acessei um certo site de relacionamentos, muito popular entre as pequenas multidões que usam a internet. Na página inicial, acessei a seção de "amigos". Passei os olhos na lista dos merecedores dessa distinção. Espantado, constatei que mais de cinquenta por cento daqueles rostos eu nunca vi mais gordo, magro, bronzeado artificialmente ou alterado por botox.

Estou falando uma língua desconhecida a vocês? Aqui cabe uma explicação aos "tiozinhos", "avozinhos" ou outros parentes-diminutivos que nunca ligaram um computador, mas sabem ao menos o que é internet. No site de relacionamentos supracitado, você só entra indicado por um "amigo virtual". Uma vez dentro do site, acontece o inevitável: uma solidão instantânea se apodera do seu ser.

Para justificar a sua súbita presença no "espaço virtual" e dar um peteleco na carência que o invadiu, você se encarrega de arrumar outros "amigos virtuais" o mais rápido possível. Ao contrário de muitas correntes, que prometem dinheiro ou coisas piores aos seus adeptos, a corrente dos "amigos virtuais" do site garante a sensação de que você jamais estará sozinho, mesmo tendo à sua frente apenas uma tela de computador. É o caminho para a felicidade, ainda que fugaz. Mas não se pode querer tudo de uma vez e ao mesmo tempo, oras.

A sigla QI (Quem Indica), tão eficiente no mundo real, é artigo de primeira necessidade no "mundo virtual" da internet. Em outras palavras: se você não tiver muitos "amigos virtuais" no "mundo virtual", há o risco de você perder seus amigos reais do mundo real, dependendo da porcentagem de radicalismo da sua comunidade.

O efeito psicológico desse boicote costuma ser devastador, principalmente entre humanos que mal espremeram sua primeira espinha ou levaram seu primeiro trote na faculdade. Mas não há defesa possível para minha suposta maturidade. Assim que entrei na "comunidade virtual", fui acometido da mesma carência de afeto comum a um portador de acne ou calouro de faculdade.

Os sites de relacionamentos despertam nos seus usuários os instintos mais primitivos de um ser humano, geralmente relacionados à infância. Há casos de homens de terno e gravata que disputam chupetas com filhos, sobrinhos ou netos. Pais de família resgatam aquele olhar carente e pidão há muito esquecido no tempo e no espaço. E há marmanjos que participam de eventos onde todos se vestem de personagens de quadrinhos e desenhos animados. Como vêem, não são só os espinhentos e universitários que padecem com as novas tecnologias.

Em matéria de adaptação, sou aquele que sempre tropeça na mesma pedra no meio do caminho. Mas a teimosia, se não me leva a desviar do caminho, pelo menos ajuda a não quebrar o pé com a dita pedra. Sou do tempo em que o elepê estava sendo substituído pelo CD, o José Sarney tingia o bigode de preto e não de acaju, o símbolo sexual do Brasil era a Maitê Proença e não uma mulher-fruta qualquer.

Nesse tempo, amizades se faziam na escola, no trabalho e em outros ambientes reais. Ao constatar que não conheço pessoalmente metade dos meus "amigos virtuais", concluo, desolado, que sou mesmo de outro tempo. Mas os mesmos "amigos" podem apontar os respectivos dedos indicadores na direção do meu nariz e dizer que isso não passa de papo de tiozinho. E sem aspas!

21 de fev. de 2009

Johnny Alf, música e coração


Meu disco preferido de Johhny Alf, com o encarte gentilmente autografado pelo artista 


Alfredo José da Silva, mais conhecido por Johnny Alf, é um dos precursores da bossa nova, estilo forjado por Tom Jobim, João Gilberto, Carlos Lyra e Roberto Menescal. Após mais de cinquenta anos de carreira, restou ao humilde Alf - cantor, compositor e pianista - a crença obstinada em seu trabalho musical, até os dias do novo século. Crença que o mantém vivo e atuante aos quase oitenta anos de idade, a serem completados em maio próximo.

Por acreditar no ser humano por trás de Ilusão à toa, O que é amar, Eu e a brisa, Luz eterna e Redenção, canções imortalizadas nos corações dos admiradores da música brasileira, tomei o trem para Santo André, onde Alf reside, para conhecê-lo pessoalmente. Uma atitude que me faria esquecer da frustração carregada por mais de dez anos, quando perdi uma rara chance de vê-lo, ele e sua banda, num show no Sesc Piracicaba.

Em plena recuperação de uma doença grave, o músico e compositor me recebe com poucas e boas palavras. Observando o desconhecido de sua poltrona, como um pacífico mestre que sabe exatamente a proporção de sua grandeza, a saraivada de perguntas sobre carreira, composições e detalhes de produção dos discos não incomoda Johnny Alf. Mas as respostas oferecidas por ele são monossilábicas, minimalistas. Alf é daqueles artistas que dizem mais em sua arte do que num bate-papo. Mas dizem tudo.

Em vinte minutos de conversa, porém, as palavras do músico começam a se expandir. Os visitantes também. Entra no quarto o cantor Djalma Dias, famoso nos anos 70 pela canção Capitão de Indústria, dos bossanovistas Marcos e Paulo Sergio Valle, incluída na trilha sonora da novela global Selva de Pedra. Djalma começa a falar do controverso Agnaldo Timóteo, cantor e atual vereador pela cidade de São Paulo, e do disco que este fez com as canções de Roberto Carlos. Johnny Alf, mais prestigiado e respeitado na música brasileira que Timóteo, elogia o intérprete do sucesso Meu grito.

Mais à vontade com a entrada do colega de ofício, a alegria de Johnny Alf aumenta com a chegada de mais visitantes: o pianista Luiz Loy e sua esposa Mara. Como Johnny, Loy é a própria história da música brasileira, especialmente a partir dos anos 60. O recém-chegado desmistifica o lendário gênio difícil de uma certa companheira de trabalho, ninguém menos que a mãe de Maria Rita: Elis Regina. Descreve a cantora como dona de um espírito solidário, capaz de presentear colegas com generosidade. A mesma Elis que faria Luiz Loy ficar um ano inteiro sem conseguir tocar uma nota, devido ao impacto de sua morte repentina há vinte e sete anos.

A conversa avança por outros assuntos, entre os quais a reestréia de Alf nos palcos paulistanos em janeiro. Dividindo o palco com as cantoras Alaíde Costa e Leny Andrade, o músico saiu do palco ovacionado pela platéia. O retorno se deu depois do seu difícil período de enfermidade no ano passado, que impediu a participação de Johnny nas comemorações do cinquentenário da bossa nova.

No espetáculo de janeiro, o artista soltou a voz e o tempo cantou, conforme o dito de Chico Buarque em canção do disco Paratodos. No hotel-residência em Santo André, Alfredo José da Silva agradeceu a visita, ganhando beijos e abraços de seus pares. Na volta a Piracicaba, continuei acreditando no ser humano por trás da música. Felizmente.

15 de fev. de 2009

Arte com crianças

No primeiro semestre do ano passado, a Dedini S/A Indústrias de Base me chamou para desenvolver o projeto "Viver é Demais!"

Em julho, nas oficinas de arte realizadas nas unidades Piracicaba e Sertãozinho, noções de segurança no trabalho expostas em palestra seriam ilustradas por filhos e filhas de funcionários da empresa.

Além de coordenar a criançada e selecionar os desenhos que compuseram a cartilha resultante da atividade, também criei o projeto gráfico da publicação.

É claro que não trabalhei sozinho na empreitada. As equipes da Dedini Serviço Social, Segurança e Medicina do Trabalho e Comunicação Corporativa estiveram em sintonia o tempo todo para organizar e estruturar o projeto.

Em agosto, uma festa na empresa marcou a manhã de autógrafos da cartilha. Impressa em cores, teve exemplares entregues a todos os participantes da atividade.

Os desenhos que ficaram de fora da cartilha puderam ser apreciados por pais e filhos numa exposição.

De resto, só tenho a agradecer à Dedini por ter apostado no meu trabalho, e às crianças participantes por terem apostado em mim.

11 de fev. de 2009

Levando confete

Seja pulando feito pipoca nos clubes, seja suando fantasiado na Marquês de Sapucaí, seja praguejando contra as siliconadas da vez diante da tevê, cada brasileiro tem as suas recordações de Carnaval. Também tenho as minhas.

Aos oito anos de idade, sem direito a piar, fui levado a um clube, junto a primos e irmãos escoltados por uma prima mais velha. Era uma matinê, sem os atrativos do Carnaval noturno. Se bem que a tal prima era uma atração à parte, mas isso eu só perceberia anos depois.

Dançando uma música por dançar, porque o pecado maior do Carnaval é ficar parado, tudo ia bem, apesar do meu corpo indicar o contrário.

Quando já me acostumava à ideia de sacolejar o esqueleto, veio um primo e me enfiou um punhado de confetes goela abaixo. Pego de surpresa, tive tempo de cuspir cinco ou seis rodelinhas, mas o estrago estava feito.

Vai ver que é por isso que até hoje eu deteste ficar jogando confete em quem quer que seja. Em todos os sentidos.

(Crônica mensal para o jornal Agora - Sertãozinho, SP)

NOTA ALGUNS ANOS DEPOIS: hoje até jogo alguns confetes, no bom sentido. Mas não os enfio goela abaixo, como meu primo fez comigo.

7 de fev. de 2009

Por aí

Por enquanto, as charges dão um tempo.

Em geral, faço mais esse tipo de trabalho no mês de janeiro, quando substituo o Erasmo, nas férias dele no Jornal de Piracicaba.

Hoje, além das tiras para jornais, escrevo as crônicas que vocês lêem aqui, viajo para dar minhas oficinas de arte e fazer caricaturas ao vivo em eventos.

Também têm aparecido alguns trabalhos totalmente inesperados.

Como diz o pessoal daquela lanchonete vermelha... amo muito tudo isso.

PS: decidi não postar a crônica de dezembro, a que faço todo mês para o Jornal Agora, de Sertãozinho. O texto saiu por demais melancólico, em razão da minha incompatibilidade com festas de fim de ano, e eu não quero encher o saco de ninguém com meu azedume. Desculpem.