Numa tarde entre uma garfada e outra do meu almoço, ouvia o programa Pânico, na rádio Jovem Pan. Na balbúrdia diária do horário, outra zoeira se misturava com a habitual. Sotaques de Minas duelavam com a paulistanada no estúdio.
Lá pelas tantas, entre esgrimas verbais engraçadonas e bullyings bem-sucedidos, eis que aparece a voz melosa, sussurrante e risível de uma mulher.
A tal moça de nome curioso faz stand up junto ao grupo Liga da Comédia, em Belo Horizonte. É a única "femme fatale" do grupo, fato fartamente explorado pelo pessoal no rádio.
Você sabe, ou deveria saber. Stand up é esse humor em que a pessoa atua sozinha no palco. O tal humor de cara limpa, sem outros adereços que não o texto afiado e o próprio ator em cena.
Não que Myriam não tenha feito teatro mais convencional. Ela encenou peças "sérias". A seriedade que o dia a dia de qualquer cidadão exige também está presente na vida dela. Ela é gestora cultural do Museu Histórico Abílio Barreto. Sua formação inclui o curso superior em Comunicação Social na PUC e a especialização em Gestão Cultural pelo Senac. Os dois em Minas Gerais.
Programa Pãnico digerido junto ao meu almoço, resolvi dar vazão ao meu "lado pesquisador". Ou lado nerd inconfessado? Às vezes, esses rótulos se misturam, se embolam. Tal como as facetas da arte e da vida de Myriam.
Busquei no YouTube os stand up's radiofônicos da feliz proprietária de dois olhos verdes e uma vasta cabeleira amarela. A rádio Jovem Pan mineira utiliza os serviços dos comediantes da capital para um projeto muito peculiar: a série Se Vira na Pan, série de minutos de stand up criados a pedido dos ouvintes, que sugerem os temas. E que se virem os comediantes para criar textos vapt-vupt, e dizê-los no ar.
Várias pílulas de humor estão espalhadas pela programação, com revezamento de humoristas. Com Myriam dizendo presente e os textos criados por ela mesma. A moça dá a cara pra bater: sem a cara, apenas com a voz absolutamente necessária. No rádio, a voz é tudo. E mais alguma coisa.
Nos minutos de humor, os comediantes exibem ritmo certeiro, timing preciso, identificação com o ouvinte, sacadas afiadas, rapidez condizente com o veículo e o molho individual de cada praticante da arte. Se um desses elementos já é suficiente para deixar qualquer artista doidim, doidim, imagina todos juntos. Mas o show tem que continuar. E vambora ao próximo parágrafo.
Além do contato com os esquetes da atriz no YouTube, fiz o que noventa e nove por cento dos usuários de redes sociais morre de vontade de fazer, mas não tem coragem: socializar-se ao vivo.
Uma dúzia de papos virtuais depois, e arrumei o mochilão para Belo Horizonte. Pra conhecer a artista ao vivo. Não foi dessa vez que vi a moça no palco, mas tive o prazer da conversa cara a cara. Com direito a solos e repentes de Myriam endereçados exclusivamente a este que vos digita, em almoço e passeio pela capital mineira, sob o sol generoso do lugar. E exposto à generosidade calorosa da comediante-anfitriã.
Depois dessa rasgação de seda, resta recolher a seda do chão e recomendar aos habitantes de Belo Horizonte o trabalho da Liga da Comédia e de Myriam Campas: na rádio e nos bares onde a turma se apresenta.
Vão por mim. Que eu ainda não consegui ir ao espetáculo no bar. Mas deixa estar. Um dia volto a Belo Horizonte e pego essa turma de jeito. Principalmente a Myriam. Sem duplos sentidos, por favor.
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